A narradora de Antes Que Apague não sabe se a mãe estará viva ao final da escrita do livro. Essa angústia, anunciada logo na abertura do novo romance de Natalia Timerman, conduz a estreia da psiquiatra e escritora paulistana na Companhia das Letras. Assim, o leitor é apresentado ao cerne da obra: o impulso por capturar e registrar a memória diante do apagamento das lembranças da mãe, acometida pelo Alzheimer.

Lutar contra o tempo é, muitas vezes, uma batalha perdida. Natalia dá voz a uma narradora lúcida, que reconhece o trabalho meticuloso que é ser guardiã das memórias familiares e confessa à mãe o “terror de não ter podido te compreender a tempo”. Ainda assim, ela aceita essa demanda, que envolve segredos, afetos e laços espinhosos. Ler este livro é adentrar o terreno da memória, matéria literária por excelência.

Antes Que Apague oferece uma literatura com propósito anunciado: “Escrevo para você, mãe; contra você. Também por você”. É no espaço do “contra” que a obra tem seu maior êxito, revelando uma escrita contraditória em que o amor resiste, apesar das amarguras do rancor.

Natalia e sua narradora compartilham traços em comum – são psiquiatras e escritoras.

Antes Que Apague, entretanto, não está no campo da autoficção. A autora se afasta do gênero de Annie Ernaux e Édouard Louis para propor outro pacto com o leitor: uma ficção que pede para ser percebida como autoficcional dentro dos limites de seu próprio universo.