Em "Por que São Tão Lindos os Cavalos?", de Julieta Correa, a demência materna em plena pandemia de Covid-19 é ponto de partida para um embate com as palavras: as perdidas para a doença e as encontradas na tentativa falha de reconstituição dos precedentes do colapso.
Há um desejo de agarrar o presente por meio da escrita, de manter aceso o que insiste em se apagar em cada branco, inclusive o das páginas de quem lê este romance de estreia da escritora argentina, convidada da programação principal da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em julho. "Um testemunho. Um texto que vai ficando sem palavras."
A partir de trechos dos cadernos de Sari, a mãe de Julieta —que não só escrevia, como desenhava e fotografava—, de anotações, consultas e exames médicos, diálogos curtos, listas de lembranças, citações, os 19 capítulos do livro são compostos por partes que raramente preenchem a metade de uma página. Ou menos que isso, ao conter, por exemplo, o apelido da protagonista com meras quatro letras ou uma pergunta que, tal como o título, não encontrará resposta.
O primeiro capítulo de "Por que São Tão Lindos os Cavalos?" termina com uma dessas interrogações: "Estamos no fim ou no começo?".












