Jocasta, a protagonista de "Vida Doçura", não tem esse nome à toa. Sua força transborda da ficção para a biografia de sua autora.
Jocasta vive a meia-idade "sepultada em seu próprio passado", presa a uma memória calcificada do dia em que a mãe morreu. Ela tinha sete anos e era a menina magrelinha que amava Balão Mágico, Xuxa e Sérgio Mallandro. Ainda mal sabia ler. A notícia a atravessou "feito bruxa às gargalhadas no frio das férias de julho": nunca mais veria a mulher que a batizou com o nome da rainha que se enforcou em "Édipo Rei".
É a mesma tragédia grega que a mãe da escritora Natércia Pontes levou ao teatro. Atriz de origem, aquele foi seu primeiro e último trabalho na direção. A filha tinha nove anos quando ela se matou.
"Fiz esse jogo de mortes semelhantes", diz a cearense que, também pela Companhia das Letras, já havia lançado dois outros livros. "Como se a mãe de Jocasta já prenunciasse seu destino ao nomear a filha, deixando grudado nela um estigma como piche. O suicídio de uma mãe é um estigma tão brutal que perdura por gerações e gerações numa família."
Nos últimos anos, Natércia deixou algumas pistas literárias de como a ausência materna a moldou como autora. Já escreveu sobre a sensação de "mergulhar sem escafandro no rio Tietê" quando se propôs a debulhar à força "sentimentos preciosos e cobertos de espinhos". O exercício deu em "Vida Doçura".









