Lucinha não faz exercícios, bebe quase diariamente, dorme tarde e, apesar de avistar o mar de Ipanema da janela de casa, nunca desce para um mergulho, uma caminhada ou um banho de sol 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Lucinha Araújo — Foto: Ana Branco/Agência O Globo Ela gosta de vinho branco e bolsas de grife. Vai ao cabeleireiro toda sexta-feira, despacha diariamente no escritório em Ipanema e acompanha de perto a rotina da Sociedade Viva Cazuza. Só vai à praia em Angra, adora sair para jantar e nunca resiste a um sapato novo. Vaidosa, perfumada e naturalmente elegante, Lucinha Araújo acaba de comemorar 90 anos do jeito que mais gosta: cercada de amigos, com um festão no Palácio da Cidade. A rotina varia pouco. Recentemente, sessões de fisioterapia para curar uma inflamação passaram a ocupar parte de suas manhãs. A lesão no joelho parece ser o único sinal dos tempos nestas nove décadas. “Cheguei até aqui sem sentir. Estou sentindo agora. Acho que foi a chegada dos 90”, diverte-se. As datas redondas já entraram para o calendário carioca. Desde os 70, a comemoração acontece no palácio de Botafogo. Sobrinha que Lucinha adotou legalmente em 2020, Fabiana cuidou de todos os preparativos. O festão, para 200 convidados, teve direito a um grande show de Gilberto Gil, presente da família Gil para a amiga de longa data. “Ela tem um humor delicioso e alegria de viver que encantam qualquer um”, diz a empresária Flora Gil. “É uma leoa mansa: forte, acolhedora, profundamente gentil. E uma coisa nunca mudou desde que a conheci: a garra. O tempo passou, mas sua força interior continua exatamente a mesma.” Durante anos, as duas viajaram juntas nas longas turnês de Gilberto Gil pela Europa, em temporadas que chegavam a durar mais de um mês. “Ela animava a equipe inteira”, lembra Flora. Uma das cenas de que nunca se esquece aconteceu em um hotel de Lisboa. O grupo conversava no bar quando o garçom perguntou se Lucinha gostaria de um chá. “Sim. Um Chablis”, respondeu. A gargalhada foi geral. “Esse humor leve, inteligente e espontâneo é muito a cara dela.” Lucinha Araújo — Foto: Ana Branco/Agência O Globo O vinho branco ocupa lugar cativo na rotina. “Sabe aquela lista de coisas que você não deve fazer para ser saudável? Eu gabarito. Mas ao contrário”, conta. Lucinha não faz exercícios, bebe quase diariamente, dorme tarde e, apesar de avistar o mar de Ipanema da janela de casa, nunca desce para um mergulho, uma caminhada ou um banho de sol. Em compensação, não perde um show e adora comer fora. Cozinhar nunca fez parte dos seus talentos. Costurar, sim. Muito antes da Sociedade Viva Cazuza, passava horas diante de uma máquina de costura. Começou aos 13. Fez mais de 50 vestidos de noiva. “Ganhava mais do que o João (Araújo, seu marido, 1935-2013)”, lembra-se. Ele foi seu único namorado. Os dois começaram a se relacionar quando ela tinha 15 e ele, 16, durante férias em Vassouras. Primeiro veio o encantamento pela beleza. “Nunca vi um homem tão bonito.” Depois, pelo humor. “Ele sempre me fez rir.” Em 4 de abril de 1958 nasceu o único filho do casal. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, diz. Décadas depois, ainda ri da reação do marido ao ver o bebê pela primeira vez. “Ele é normal?”, perguntou ao médico. “Mal sabia ele que Cazuza nunca seria normal.” Lucinha fez diversos tratamentos para engravidar de novo, mas não conseguiu: “Deus sabia o que ia me acontecer. Tinha que me deixar com força para enfrentar tudo aquilo”. Nos anos seguintes, João fundou a Som Livre e se tornou um dos principais executivos da indústria fonográfica brasileira. Cazuza costumava brincar com a mãe por ela nunca ter conhecido outro homem. “Passa o papai para trás”, sugeria. Impossível. “Ela era completamente louca pelo marido”, conta Ney Matogrosso, amigo da família há quase meio século. Quando Cazuza morreu, em 1990, tinha duas opções: transformar aquela dor em ação ou ir junto com o filho. “Decidi ajudar as pessoas que não tinham dinheiro para enfrentar essa doença terrível.” Nascia a Sociedade Viva Cazuza. A casa em Laranjeiras acolhia crianças que viviam com HIV numa época em que a doença ainda era cercada de preconceito. Lucinha chegava depois do almoço e só ia embora quando acabava de jantar com as crianças. “Sabia o nome de cada uma, a história, o número da roupa”, lembra Pedro Chicri, pedagogo que trabalhou a seu lado por 25 anos. Em 2020, a casa de acolhimento infantil fechou as portas. Com os avanços da prevenção e do tratamento, a transmissão do vírus de mãe para filho despencou, e cada vez menos crianças nasciam com HIV . “Aquilo foi uma enorme vitória. Porque o trabalho de Lucinha nunca esteve restrito àquela casa. Ela se tornou uma voz para o país inteiro”, orgulha-se Pedro. Hoje, a ONG atende mais de 200 adultos que passam pela sede todas as quartas-feiras para buscar uma cesta básica. Durante a distribuição, ela pergunta que dificuldades cada um enfrenta. “Pouquíssimas mães fariam o que ela fez”, diz Ney. “Quem mais criou uma instituição como essa? Nem o governo.” Mas ela rejeita o rótulo de boa samaritana. “Foi a vida que me botou de frente com essa doença.” Se pudesse reescrever a própria história, mudaria uma única coisa: a AIDS. Aos 90 anos, chega certa de que felicidade completa não existe. “A gente vive pequenos momentos felizes. É preciso aproveitá-los. Duram pouco.” Lucinha segue encontrando os dela pelo caminho.
Aos 90 anos, mãe de cazuza conta como fez das perdas um compromisso com a vida: 'Vivemos pequenos momentos felizes'
Lucinha não faz exercícios, bebe quase diariamente, dorme tarde e, apesar de avistar o mar de Ipanema da janela de casa, nunca desce para um mergulho, uma caminhada ou um banho de sol






