PUBLICIDADE Thriller psicológico de escritora que também terá noite de autógrafos no Rio estimula leitor a desconfiar de tudo o que é dito, inclusive da própria narrativa 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Katie Kitamura, no National Book Festival 2025, em Washington, D.C. — Foto: Rosie Stephenson / Wikipedia RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A escritora Katie Kitamura vem ao Brasil pela primeira vez para lançar o thriller psicológico "Audição" na Flip, em Paraty, e participar de uma sessão de autógrafos no Rio de Janeiro. A autora explica que a obra, dividida em dois atos com narrativas contraditórias, é uma crítica à polarização e convida o leitor a desconfiar de verdades absolutas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Finalista dos prêmios Pulitzer e Booker, “Audição” é um veloz thriller psicológico de Katie Kitamura dividido em dois atos, narrado por uma atriz que protagoniza histórias propositadamente contraditórias. A ação começa quando a narradora, casada há anos, se encontra com Xavier, que diz ser seu filho. Ela, no entanto, jamais engravidou. Na segunda metade do livro, traduzido com brilho por Érika Vieira, fantasia e realidade se embaralham em um incômodo jogo de espelhos. Crítica das certezas de um mundo cada vez mais polarizado, a escritora americana convida o leitor a desconfiar do que lhe é informado. E a escutar com atenção redobrada. Filha de imigrantes japoneses, a escritora de 46 anos vem pela primeira vez ao Brasil, para lançar “Audição” na Flip. Em Paraty, na sexta-feira, às 19h, participa, com a escritora espanhola Maria Pérez-Carbonell, da mesa “O tecido: não sabemos qual a trama”. Quatro dias depois, autografa o livro no Rio, na Livraria da Travessa de Ipanema, na Zona Sul do Rio. Até o fim do ano, a Fósforo publica sua obra anterior, “Intimidades”. Leia os principais trechos da entrevista por videochamada com Kitamura, que vive em Nova York, com o marido e os filhos: ‘Audição’ nasceu do título de uma reportagem (‘Um estranho me disse que era meu filho’). De que modo essa frase te fisgou? O título continha uma imensidão de possibilidades. Fiquei com receio de ler a matéria e de a sensação acabar. A oposição entre “estranho” e “filho” me fascinou, pois pensamos nessas palavras como mutualmente excludentes. Aí uma amiga me disse: “Mas isso é ser mãe! Toda vez que meu filho volta da faculdade para passar um tempo em casa, é como se um estranho estivesse no apartamento”. Entendi então que não queria escrever uma história com múltiplas possibilidades, e sim sobre como uma mesma experiência pode conter mais de uma versão. A estrutura do livro nasceu deste pequeno desvio de rota e, a partir daí, foi bem fluido escrever. Quando terminou, não teve a curiosidade de ler a reportagem? E quem disse que a encontrei? Tenho certeza de que li o título, provavelmente no New York Times. Claro que fiquei com a sensação de que a realidade talvez não fosse bem essa. Mas depois pensei que o título pode ter sido editado. O que é igualmente interessante e dialoga com “Audição”. Este é seu terceiro livro em que o nome da narradora não é revelado. Verdade. E as outras narradoras também trabalhavam com linguagem e escrita criada por outros. Uma é tradutora, a outra intérprete forense e agora a atriz. Todas sem controle autoral. Suas identidades e lugares são escorregadios. Há muita informação contida nos nomes — gênero, classe social, raça, estado civil. Não é suficiente ver o mundo pelos olhos da personagem para estabelecer um vínculo? Fatos biográficos são mesmo tão necessários? Aposto que não. Também é escorregadio o lugar de quem busca a felicidade em outro país. Há aí um paralelo direto com você? Cem por cento. E ainda mais evidente na narradora de “Intimidades”, uma americana de origem japonesa que se mudou para a Holanda. Meus pais eram imigrantes, cresci numa casa bilíngue. Por um período, meu inglês era melhor do que o deles e eu atuava, na prática, como intérprete. Ligava para pedir comida ou resolver burocracias. Isso moldou profundamente minha compreensão dos que vivem entre culturas. Entendi cedo o poder da linguagem para demarcar classes sociais. Você é julgado pelo sotaque, pela fluência imperfeita na língua dominante. Incorporei isso no meu DNA. Como tem sido conviver com a xenofobia do Trump 2.0? Imensamente perturbador. Meu marido é imigrante e filho de imigrantes. Pessoas foram assassinadas pelo Estado nas ruas em pleno dia. Mas, apesar do cotidiano angustiante, precisamos considerar que os EUA são violentos desde sua formação, se tornaram uma potência imperial e produziram múltiplos genocídios. Cresci nos anos 1980 na Califórnia com pessoas que traziam a memória de seu confinamento nos campos de concentração para japoneses durante a Segunda Guerra. A noção de que nossos direitos podem ser cassados não é novidade. Quando as pessoas dizem “isso não é a América”, penso: “é sim”. Mas os EUA também são o “não” da sociedade civil ao arbítrio, os anjos de Minneapolis, que reagiram ao horror com enorme força de caráter, correndo risco de vida, algo tremendamente comovente. E morar em Nova York, com Zohran Mamdani prefeito, aumenta nosso otimismo. A estrutura de “Audição” convida o leitor a desconfiar de verdades absolutas. O livro é uma critica à polarização? Vivemos tempos de carência de sutileza. É mais fácil ver o outro de forma estanque. “Audição” é também sobre uma mulher submetida a gaslighting por dois homens carismáticos. A construção de falsas realidades, a imposição de versões, se dá no nível privado e no público também. Não devemos perder a capacidade de analisar o outro de forma cuidadosa ao se detectar nele uma brutalidade simplista. “Audição” pede ao leitor que mantenha a contradição na cabeça por toda leitura, algo muito difícil, pois somos treinados para resolver tudo o tempo todo. Pensei em quatro maneiras de interpretar “Audição”, mas minha maior alegria é quando alguém compreende algo que eu sequer cogitei. Meu sonho é meus livros saberem algo que nem eu sei. “Audição” pode ser tanto a seleção para um papel quanto um dos cinco sentidos… O título original do livro era “Performance”, mas os editores torceram o nariz. Pensava à época no ato de se testar versões de você mesma. “Audição” me veio na segunda parte, quando a narradora assume posição mais voyeurística. Voltei ao manuscrito, de certa forma aumentei o som e assim o título definitivo nasceu.
‘Vivemos tempos de carência de sutileza’, diz Katie Kitamura, autora que virá à Flip
Thriller psicológico de escritora que também terá noite de autógrafos no Rio estimula leitor a desconfiar de tudo o que é dito, inclusive da própria narrativa










