Romance de autora que estará na Flip cria especulação sobre o que é “real” nas relações entre pessoas que vivem juntas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Katie Kitamura em casa, no Brooklyn, em 2 de julho de 2021 — Foto: Caroline Tompkins/The New York Times. Professora de escrita criativa na Universidade de Nova York, Katie Kitamura já é conhecida no Brasil por seu romance “Uma separação”, lançado por aqui em 2021. Volta ao mercado editorial brasileiro com “Audição”, lançado originalmente em 2025. Assim como “Uma separação”, que conta a história de uma mulher que vai à Grécia em busca de seu ex-marido desaparecido, “Audição” também é narrado por uma primeira pessoa feminina às voltas com problemas familiares. O romance, contudo, logo abandona essa premissa convencional e se transforma em uma especulação sobre o que é “real” nas relações entre pessoas que vivem juntas. Os gestos cotidianos são transformados pela capacidade da narradora de “desautomatizar” sua própria vida: “Se minha imaginação tinha se atrofiado por falta de uso”, escreve, “ela agora voltara com uma força surpreendente”. A trama do romance se divide em duas partes: na primeira metade, a narradora — uma atriz conhecida, do cinema e do teatro — encontra um jovem misterioso, Xavier, figura ao mesmo tempo estranha e familiar; na segunda metade, a relação com Xavier é transformada e ele passa a morar na casa da narradora e de seu marido, Tomas, levando a namorada Hana com ele. É difícil ter certeza de quais elementos se mantêm válidos na passagem de uma parte à outra. A fragilidade dessa continuidade é um elemento-chave na construção de “Audição”, como atesta a simbologia do próprio nome “Hana”, por exemplo: “O nome queria dizer flor em japonês”, escreve a narradora, “mas também êxtase em árabe, um nome com muitos significados em muitos lugares diferentes”. Os quatro personagens — a narradora, Tomas, Xavier e Hana — são máscaras, e não encarnações definitivas de personagens ancorados na realidade. Ao longo de todo o romance, a narradora está envolvida com os ensaios de uma peça futura: a preparação consome boa parte de seu tempo e de sua energia (“eu tinha tido um tempo excepcionalmente longo para me preparar”, ela reflete, “e ainda assim continuava sentindo como se interpretasse demais um papel, parecia não conseguir localizar seu cerne”). Os ensaios para a peça, no entanto, se mesclam pouco a pouco à própria performance cotidiana e doméstica que deveria ser “natural”. A divisão do romance em dois “atos” reforça essa ideia de uma sobreposição (por vezes assustadora) de realidade e ficção (é significativo também o título da peça na qual a narradora está trabalhando: “A outra margem”). Um mundo atípico Kitamura deixa claro desde o início do livro que o mundo do romance é atípico, indireto, não plenamente “realista”. Ao mesmo tempo, constrói cenas que dependem de uma aderência ao cotidiano, com seus artefatos e gestos característicos (“Voltei para a cozinha, imaculada, não havia pratos na pia ou migalhas no balcão. Num dia normal haveria uma série de xícaras de café e pratos sujos”). Em paralelo a esse duplo registro, a narradora apresenta com frequência passagens nas quais a imaginação se confronta com aquilo que é feito e visto: “Às vezes eu entrava, supostamente para esvaziar o lixo ou deixar lençóis limpos na cama, interpretando o papel da mãe diligente, mas na verdade para garantir a mim mesma que ele estava hospedado conosco de verdade, que não era fruto da minha imaginação, mas algo real, real, materialmente real”. Em certo sentido, o romance de Kitamura é uma longa meditação sobre a relevância dos “frutos” de nossa imaginação para o andamento da vida. Se, por um lado, o romance de Kitamura é mais uma história contemporânea que se passa em uma grande cidade dos Estados Unidos — como vemos em Teju Cole, Raven Leilani, Ottessa Moshfegh, Ben Lerner e tantos outros —, por outro, é também uma tentativa de questionar certos padrões vigentes de apresentação da realidade na literatura. A lição que narradora de “Audição” toma para si é equivalente àquela que surge para o leitor na experiência do romance: é preciso embarcar na ilusão para que ela surta efeito.