Atração da mesa de encerramento da Flip, catalã que aborda maternidade e relações lésbicas em trilogia conta que, depois de só ter parceiras mulheres por 15 anos, aprendeu o ‘quão fácil é se relacionar com homens’ 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eva Baltasar em Paraty, onde participa da Flip — Foto: Alexandre Cassiano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A escritora catalã Eva Baltasar participa da Flip para lançar 'Mamute', romance que encerra sua trilogia sobre os aspectos instintivos e incômodos da maternidade. Para priorizar sua dedicação à escrita, a autora revelou que sempre evitou empregos estáveis e passou por ocupações precárias, trabalhando como faxineira e pastora de cabras. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Convidada da mesa de encerramento da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece neste domingo (26), às 15h, a escritora catalã Eva Baltasar está encantada. O festival é “maravilhoso”, os paratienses são “amáveis e alegres”, a atmosfera é “tranquila”, “estimulante e relaxante ao mesmo tempo”. Mas o melhor é a natureza. Nascida em Barcelona, Eva se sente “enjaulada” nas cidades, como um animal ameaçado de extinção. Tanto que trocou a metrópole catalã por Cardedeu, município de 18 mil habitantes, próximo a um parque nacional onde vai com o cachorro. Quando tinha 26 anos, mãe solteira de uma menina pequena, Eva se enfiou num lugar ainda mais remoto, uma casa onde não havia sequer energia elétrica. Essa experiência está na origem de “Mamute”, romance que veio lançar na Flip. Infeliz em Barcelona, a narradora atende ao chamado na natureza, inclusive o de sua própria: quer ser mãe. Ou melhor, gestar, sentir a vida se produzindo dentro dela. É só por isso que ela busca os homens (pois prefere se relacionar com mulheres). “Mamute” é o terceiro volume da trilogia com “Permafrost” e “Boulder” (indicado ao International Booker Prize), que aborda o que há de mais incômodo e animalesco na maternidade e escala protagonistas lésbicas e extremamente livres, que mais parecem forças de uma natureza ancestral. Na Flip, Eva conversa com a escritora manauara Susy Freitas. Amanhã, às 19h, lança “Mamute” na Livraria Megafauna, em São Paulo, num bate-papo com Mariana Salomão Carrara. Em Paraty, a escritora de 47 anos, que dedicou mais de uma década à poesia, falou com o GLOBO sobre jeito que encontrou para resistir à exploração, sua semelhança com suas protagonistas e como tem sido deixar homens entrarem em sua vida. Parece que a natureza está sempre chamando a protagonista de “Mamute”, convidando-a assumir sua animalidade. Na escrita, me interessa me conectar com as partes inconscientes do nosso eu, mais instintiva, ancestral, reprimida. Justamente por estar reprimida, quando aflora, é de uma maneira muito ruim. Quero conhecer melhor essa parte e canalizá-la da melhor forma possível. “Mamute” explora a violência e a crueldade. A natureza não é idílica, ela é dura, hostil. Conhecê-la nos permite conhecer nossos limites. Seus livros retratam a maternidade como um impulso biológico, um desejo animal. Por quê? A protagonista de “Mamute” não pensa em como se constituir socialmente como mãe, ela age por instinto, quer fazer a vida passar por seu corpo. Fui mãe aos 24 anos, solteira, e aos 32, quando tive uma filha com outra mulher. Nas duas vezes, foi sem pensar, em resposta a esse instinto. Não refleti. Meu corpo decidiu e pronto. Esse é o poder da biologia. Todo o pensamento desaparece. A literatura contemporânea fala muito das dificuldades da maternidade: as expectativas sobre as mães, como as mulheres com filhos são anuladas. Acompanha essa produção? Não leio muita literatura contemporânea. Basicamente, leio autores mortos há séculos. Para mim, escrever sobre a maternidade veio naturalmente, depois de mais de uma década escrevendo poesia. Não acho que me inscrevo num grupo de autoras que elegeram a maternidade como tema. Meus livros falam do incômodo da maternidade. A maternidade te define? Não gosto de me definir. Sou muito volúvel e caprichosa, dois dias depois já estou traindo meus rótulos. Me sinto mais autêntica quando escrevo, que é quando me conecto com o que é essencial, o que esteve comigo a vida toda. Minhas filhas sempre serão minhas filhas, mas não são minha propriedade, são pessoas autônomas, quero que elas voem. Há uma distância entre nós que não há entre mim e a escrita. Sua escrita é muito imagética, o ventre é uma “capela”, o sexo é sentido como “uma doença tropical”, o bosque tem mãos e tapa os olhos da narradora. O gosto pelas imagens é herança dos seus tempos de poeta? Não diria herança porque não troquei a poesia pela narrativa. Para mim, não são gêneros distintos. Me formei escrevendo poesia, penso e trabalho a linguagem com imagens. Quando escrevo prosa, estou constantemente calibrando o ritmo, criando imagens poéticas com poucas palavras. O que toma mais meu tempo nos romances é trabalhar a linguagem poeticamente, mas sem fazer prosa poética. Minha tradutora francesa descobriu que “Boulder” está cheio de versos alexandrinos! Sim, eu conto as sílabas poéticas das frases, faço rimas internas, disfarço a poesia na prosa. Você disse que escreve a partir da sua vida. Os leitores confundem você com suas personagens? Sempre me identificam com as protagonistas. No início, me surpreendeu, mas percebi que é inevitável, porque parto de passagens da minha vida e escrevo em primeira pessoa. No meu último livro, “Peces” (Peixes), que não saiu no Brasil, decidi entrar no jogo e a protagonista é escritora. O leitor às vezes se interessa menos pelo romance e mais pelo autor, quer psicologizar o personagem porque acha que está psicologizando o autor. Primeiro, tive que aprender a colocar limites. Agora, estou brincando com esses limites. É divertido. E é bonito, porque nesse jogo os leitores também revelam muito de si. Você escreve sobre relacionamentos entre mulheres. Nos seus livros, os homens não passam de instrumentos biológicos necessários à reprodução. Por quê? É um reflexo da minha vida. Minha família é um grande matriarcado, muito tóxico... Matriarcado tóxico? Sim! Os extremos são tóxicos. Era um grande matriarcado, só nasciam mulheres e os poucos homens que havia eram silenciados, quase inexistentes. Há muitas lésbicas na família também. Eu mesma, por 15 anos, só me relacionei com mulheres. Tive minha segunda filha com uma mulher. Foi fácil escrever sobre relações lésbicas porque estava em uma. Não era vontade de fazer política, era natural. Mas cheguei num momento em que percebi que queria conhecer os homens. Hoje tenho amigos e amantes homens. Meu último parceiro era homem. Talvez os homens entrem naturalmente nos meus próximos romances. Vou deixar que a escrita me leve. Qual foi sua maior surpresa ao aceitar homens na sua vida? O quão fácil é se relacionar com eles. Rapidamente, fiz amigos que espero que carreguem meu caixão quando eu morrer. É curioso, porque mulheres heterossexuais me dizem que é difícil se comunicar com seus maridos. Para mim, foi muito fácil entendê-los e me fazer entendida. Estou gostando muito. Os homens são transparentes. A narradora de “Mamute” abandona empregos precários para não se habituar à exploração. Como você resiste à exploração? Nunca me casei com nenhum trabalho e sempre coloquei minha paixão, a escrita, em primeiro lugar. Escrevo desde criança, era poeta, então tinha que trabalhar para viver. Mas sempre que me ofereciam um contrato de trabalho fixo, u ia embora. Não queria que nada tomasse o lugar da escrita. Tive empregos muito precários porque fugia à medida que as condições de trabalho melhoravam. Não me sentia explorada em trabalhos que obviamente me exploravam porque continuei escrevendo. Sou pedagoga, mas já fui faxineira, pastora de cabras, fiz queijo, dei aula particulares, trabalhei em escolas e universidades. Fiz de tudo. Serviço: ‘Mamute’ Autora: Eva Baltasar. Tradução: be rgb e Meritxell Hernando Marsal. Editora: Dublinense. Páginas: 96. Preço: R$ 69,90.
Eva Baltasar: 'Minha família era um matriarcado tóxico'
Atração da mesa de encerramento da Flip, catalã que aborda maternidade e relações lésbicas em trilogia conta que, depois de só ter parceiras mulheres por 15 anos, aprendeu o ‘quão fácil é se relacionar com homens’







