Minha intenção não é ser pessimista ou estragar a festa da Flip, que também é minha. A questão é dosar a visão romântica sobre a situação da leitura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Paraty nos preparativos para a Flip — Foto: Alexandre Cassiano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Apesar do sucesso de grandes eventos literários, a maioria dos brasileiros não é leitora, cenário agravado pela ausência de bibliotecas em mais de 600 municípios e na metade das escolas públicas do país. O aparente crescimento nas vendas de livros no país é inflado por itens como cadernos de colorir e álbuns de figurinhas, mascarando os reais índices de leitura. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A leitura está na moda. É o que afirmam reportagens recentes sobre o tema. Hoje, começa a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), que reúne milhares de pessoas para ver de perto uma seleção bem impressionante de autores estrangeiros e nacionais compartilhando suas obras, ideias e processos de criação. Ano passado, a Bienal do Livro do Rio de Janeiro lotou os seus pavilhões e, em dez dias, recebeu mais de 740 mil visitantes. Marcas de luxo internacionais têm lançado clubes de livro, como se o livro tivesse virado o novo acessório de desejo. Sem dúvida, números e iniciativas animadores. Por outro lado, muito se fala sobre o dado alarmante da última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que, pela primeira vez em sua série histórica, identificou uma maioria de pessoas não leitoras no país. Mas como isso é possível? Se eventos literários estão lotados, pesquisas mostram aumento de venda de livros e vejo diversas pessoas postando sobre suas leituras nas redes sociais, como vivemos em um país em que a média de livros inteiros lidos ao ano não passa de dois? Quando saímos de uma festa como a Flip, por exemplo, e analisamos a realidade da leitura no país, os dados deixam claro que a sensação de que todo mundo está lendo não passa de um recorte bem delimitado do cenário ao nosso redor. O Mapa dos Eventos Literários, lançado neste ano pelo Ministério da Cultura, reúne cerca de 500 eventos cadastrados, entre feiras, festas, bienais, saraus. Parece muito, até lembrar que o Brasil tem 5.570 municípios. Mesmo que cada evento acontecesse em uma cidade diferente, estaríamos falando de menos de uma cidade em cada dez. Segundo o IBGE, mais de 600 municípios não têm sequer uma biblioteca pública. E mais da metade das escolas públicas brasileiras, dezenas de milhares, não possui biblioteca ou sala de leitura. Ou seja: para a maior parte do país, a leitura não está na moda. Ela sequer é uma realidade. E a minha intenção não é ser pessimista ou estragar a festa, até porque ela também é minha. A questão é dosar a visão romântica sobre a situação da leitura. Sim, temos um aumento nas vendas de livros, mas não podemos esquecer que os números têm sido inflados por cadernos de colorir e álbuns de figurinhas. Sim, nos deparamos com eventos literários lotados, mas eles se concentram em geral nos grandes centros urbanos e ficam disponíveis apenas para uma parcela da população (que, em grande parte, já lê). Essa distância entre o universo literário e o restante do país aparece até em situações cotidianas. Recentemente, fiz uma entrevista na Avenida Paulista, em São Paulo, perguntando às pessoas se elas saberiam me dizer o nome de três autores nacionais contemporâneos. Apesar de ser frustrante, não me surpreendeu que a maioria sequer soubesse mencionar um nome. O risco dessa interpretação romantizada é grande, já que perdemos de vista a seriedade do tema da leitura no país. Enquanto centenas de municípios não tiverem uma biblioteca, milhares de escolas não disponibilizarem livros para seus alunos aproveitarem no tempo livre ou a leitura ainda não estiver dentro das casas dos brasileiros, falar em literatura como tendência é arriscado. A leitura está na moda... para quem?
Brasil, um país leitor?
Minha intenção não é ser pessimista ou estragar a festa da Flip, que também é minha. A questão é dosar a visão romântica sobre a situação da leitura







