Precisamos dar ao leitor a segurança de que ele tem autoridade para falar sobre uma obra. cobrar dele repertório de especialista vai afastá-lo das estantes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher lendo na praia — Foto: Pexels Para o leitor no Brasil ainda falta intimidade com o livro. Em geral, ele entra em uma livraria e não sabe por onde começar. São tantas prateleiras, livros de autores de quem ele nunca ouviu falar. Vai direto na estante dos mais vendidos, como se ali tivesse um selo de aprovação. É a referência que ele tem. Esse leitor já chega inseguro. Seria de esperar que, diante de alguém tão acanhado, quem tem uma relação mais confortável com o livro o acolhesse. Muitas vezes, acontece o contrário. Uma parte do meio literário insiste em manter um certo ar de clube fechado, ao qual pertence quem leu as obras certas, frequenta os eventos certos e pode se dizer “intelectual”. Mas será que o leitor que deseja apenas aproveitar uma boa leitura precisa passar por tudo isso para se apoderar do livro? Eu caí de paraquedas no mercado literário. Sou formado em Direito, não cresci numa família de leitores e o livro nunca foi assunto constante no dia a dia das pessoas à minha volta. Nunca vou esquecer o espanto de uma pessoa, com muitos anos de mercado editorial, ao descobrir que eu não conhecia algumas figuras, aparentemente relevantes, que estavam em certo evento. Naquele momento, me senti constrangido. Na sequência, devolvi a pergunta, citando dois nomes do mundo jurídico. Ela não os conhecia. Tentei mostrar que, assim como no mercado jurídico as informações ficavam restritas a quem estava ali, a mesma dinâmica valia para a bolha do universo editorial. Eu não precisava saber. Conto essa história como se eu fosse sempre o injustiçado, mas seria desonesto parar por aqui. De lá para cá, passei a frequentar esses eventos e conhecer boa parte daquelas figuras. De vez em quando, me pego com receio de reproduzir esses comportamentos. O esnobismo não é um traço de “vilões” do mercado, mas quase um impulso que chega com a intimidade pelos livros. O meio literário não pode esquecer que o leitor não tem obrigação de saber sobre literatura, de ser “intelectual”. Acreditar no contrário é só reforçar a sensação de que aquilo não é para ele. Quantos leram obras de Dostoiévski ou Clarice? Quantos sabem nomear três editoras nacionais ou prêmios literários? Poucos. E isso não os torna menos leitores. Precisamos dar ao leitor a segurança de que ele tem autoridade para falar sobre uma obra. A crítica literária faz um trabalho técnico relevante; o leitor compartilha a sua opinião sobre o que leu. São atividades distintas, que não competem entre si. Confundir as duas, e cobrar do leitor comum repertório de especialista, é mais uma forma de afastá-lo das estantes. Quando alguém critica um jovem que compartilha suas impressões de uma leitura, sob o argumento de que a opinião dele é superficial, a mensagem é a mesma: o livro não é para você. E há algo contraditório nisso. É o mesmo meio que se preocupa com a queda no número de leitores, mas que, no dia a dia, encontra alguém já inseguro e reforça que ele não pertence àquele lugar. Num país de maioria não leitora, há muitas pessoas paradas diante de estantes, sem saber por onde começar, com medo de não serem inteligentes para escolher uma leitura. A preocupação deveria ser com elas, não com categorizar quem pode ou não se aproximar dos livros.