Se não compro livros de forma consciente, atento para o perfil dos autores e das temáticas que consumo, alguém está tomando essa decisão por mim Estante de livros — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A proposta de retirar livros de homens das estantes revela a falta de diversidade no mercado editorial. O setor historicamente priorizou autores brancos e do Sudeste. Pesquisa da UnB aponta que 70% dos romances publicados entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. Além disso, 90% dos autores eram brancos. Mulheres negras da classe C lideram o consumo de livros no país. No entanto, há um claro descompasso entre o perfil de quem lê e de quem publica. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Eu te proponho um desafio: retire todos os livros escritos por homens da sua estante. Preste atenção no resultado. Provavelmente, há grandes lacunas, espaços em branco que refletem a falta de diversidade na escolha das nossas leituras. Se essa tarefa te parece muito desafiadora, fique tranquilo, porque eu já fiz isso com a minha estante há alguns anos. E, realmente, restou muito mais parede do que livros naquele cenário. Agora imagina se a gente começar a fazer isso pensando em autoras e autores negros ou obras escritas por pessoas da comunidade LGBTQIA+. Vamos além: deixar apenas livros de autores do Norte e do Nordeste do Brasil. O resultado chega a ser assustador. Será, então, que eu preciso começar a prestar atenção em quem estou lendo na hora de comprar a minha próxima leitura? Quando trago esse tipo de reflexão nas minhas redes sociais, sempre recebo comentários como “eu escolho uma obra pela história e não pela autoria” ou “não me importa se o autor é homem ou branco”. De acordo com essas pessoas, os espaços vazios na estante não passariam de uma mera coincidência. Eu não tenho dúvidas de que muita gente não faz essa escolha de forma proposital e realmente se deixa levar pelo automático. Mas o problema está justamente aí: se eu não estou comprando livros de forma consciente, atento para o perfil dos autores e das temáticas que consumo, alguém está tomando essa decisão por mim. E a resposta é simples, já que, quando entro em grandes livrarias ou nas listas de mais vendidos, a tendência é que os autores em destaque sigam um mesmo padrão. O que chega com mais facilidade para o consumidor não é diverso. E isso é o resultado de anos e anos de um mercado editorial que privilegiou e abriu mais portas para um certo perfil de autores e narrativas. Ou seja, o que aprendemos a enxergar como literatura universal nada mais era do que um recorte específico de um certo grupo. Para que se tenha ideia, uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília, em 2017, revelou que, entre os anos de 1965 e 2014, mais de 70% dos romances lançados foram escritos por homens, 90% por brancos e mais da metade com origem em São Paulo ou Rio de Janeiro. Ainda que na última década a preocupação com a diversidade no mercado editorial tenha crescido, a situação ainda está longe de ser equilibrada. Por outro lado, a recente pesquisa “Panorama do consumo de livros” no Brasil concluiu que as mulheres pretas e pardas da classe C formam o maior grupo consumidor de livros no país (15% do total do público que adquiriu um livro em 2025). Ou seja, há um desencontro entre quem mais consome livros e quem mais vende. A proposta não é ignorar o enredo da história, mas sim prestar atenção também em quem a escreveu ou na diversidade das temáticas consumidas, para que a sua estante não reflita a decisão de um sistema que pensa diferente de você. Acreditar em uma ideia de neutralidade no consumo cultural é ignorar que escolha consciente e escolha automática vão produzir estantes muito diferentes, e só você pode escolher qual será a sua.
Tire os homens da estante
Se não compro livros de forma consciente, atento para o perfil dos autores e das temáticas que consumo, alguém está tomando essa decisão por mim















