Em 'A fraude', seu romance mais recente, escritora britânica explora dilemas do presente, como dificuldade das elites em compreender o apelo de líderes antissistema 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Zadie Smith em Paraty: “O Brasil é fascinante. Me interessa a extraordinária diversidade do país” — Foto: Alexandre Cassiano RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Estrela da Flip deste ano, a escritora britânica lança no Brasil o romance histórico 'A fraude', que usa um julgamento do século XIX para analisar o populismo moderno e o legado da escravidão. A escritora defende que os romancistas têm a responsabilidade de usar o domínio da linguagem para trazer o debate político de volta à realidade dos fatos históricos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil aparece de relance em “A fraude”, o mais recente romance da escritora britânica Zadie Smith, lançado por aqui no ano passado. Trata-se de uma ficção histórica inspirada num julgamento que dividiu a sociedade londrina entre as décadas de 1860 e 1870: o Caso Tichborne. Depois de uma longa temporada na Austrália, um açougueiro volta à Inglaterra e jura ser Roger Tichborne, um aristocrata que todos supunham haver morrido num naufrágio. A família Tichborne não o reconhece, e o caso vai parar nos tribunais. Ironicamente, o suposto gentleman se converte numa espécie de líder antissistema e é abraçado pelas classes trabalhadoras, que passam a denunciar as falhas do sistema judicial que, aos olhos deles, tolhia os direitos de um nobre legítimo. No romance de Smith, uma das apoiadoras mais inflamadas de Tichborne é Sarah, a segunda mulher do escritor William Ainsworth (que realmente existiu e foi imensamente popular). Sarah era analfabeta e chegou à casa do marido como empregada. Quando suas enteadas elegantes e instruídas a questionam sobre os furos na história do autodeclarado Roger Tichborne, como sua passagem relâmpago pela América do Sul, ela responde apenas que “o sol brasileiro e ele não estavam em harmonia”. Com Smith, é bem diferente. O Brasil e ela estão em perfeita harmonia. Aos 50 anos, a autora de best-sellers como “Dentes brancos” (publicado quando ela tinha apenas 24) é a estrela mais esperada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde se apresenta neste sábado (25), às 19h. Filha de uma imigrante jamaicana e festejada por retratar a Londres multicultural e vibrante da virada do milênio, Smith se voltou ao século XIX em “A fraude” para tratar de temas extremamente atuais, como a persistência dos efeitos da escravidão no mundo contemporâneo, a dificuldade das elites em compreender o apelo dos populistas (como o falso Tichborne) e o interesse do público pelas opiniões dos escritores — o romance lembra que Charles Dickens, famoso por defender os pobres, apoiou a repressão a uma revolta de camponeses negros na Jamaica. Uma semana antes de vir à Flip, ela concedeu uma entrevista por vídeo ao GLOBO e falou de seu interesse pela religião (“A fraude” mostra atuação dos batistas pela abolição da escravidão), dos círculos literários londrinos (que ela odeia) e da vida sem smartphone (que, diz ela, não é tão estranha assim). O Brasil é mencionado brevemente no livro. Como o seu interesse pela diáspora africana contempla o Brasil? O Brasil é fascinante. Apareceu várias vezes durante minhas pesquisas para “A fraude”. Me interessa a extraordinária diversidade do seu país. Nos Estados Unidos e na Europa, o Brasil nem sempre vem à mente quando se fala da escravidão, o que é estranho, já que é um país que teve um papel central nessa história. Posso dizer que me eduquei escrevendo “A fraude”. Pude ver, por exemplo, como o conceito de raça foi se construindo e usado como justificativa para um empreendimento econômico. No Brasil, discute-se cada vez mais como os efeitos da escravidão ainda persistem. E na Inglaterra? Com esse livro, quis mostrar duas coisas: que a escravidão era um negócio e que, desde o início, houve resistência. Os ingleses pensam que a escravidão acabou por razões morais, mas na verdade foi resultado de um movimento social de trabalhadores que entendiam que a exploração na linha de montagem e a escravidão faziam parte do mesmo sistema. A escravidão foi a indústria mais lucrativa de todos os tempos, com exceção, talvez, das big techs. Não havia razão econômica para acabar com a escravidão, além da exaustão da terra, o que de fato aconteceu no Caribe. Quando há tanto dinheiro em jogo, sentimos que não tem solução. Mas a História mostra que tem. Conflitos religiosos são comuns na sua obra. Como é sua relação com a religião? Não acho que exista um romancista sem fé. Parte do trabalho é acreditar em coisas que não existem. Meu interesse pela religião é filosófico. Levo a sério o pensamento das religiões. Para mim, é como se o sagrado fosse um animal enorme e invisível e cada fé descrevesse uma parte dele. Quem se interessa por pessoas não pode ignorar a fé. O açougueiro que dizia ser Roger Tichborne se tornou um líder antissistema e as elites eram incapazes de entender seu apelo popular. Assim como hoje desprezam os eleitores dos líderes populistas. Durante minha pesquisa, descobri que o juiz chamou os apoiadores do falso Tichborne de idiotas e imbecis. No dia seguinte, a multidão orgulhosa carregava cartazes dizendo “somos idiotas e imbecis”. Li isso na mesma época em que Hillary Clinton disse que os apoiadores de Donald Trump eram “deploráveis”. O populismo nasce de um sentimento forte de humilhação, que nós, que estamos do outro lado, não percebemos. Vemos a lista de filmes e livros preferidos de Barack Obama e ficamos felizes porque ele é como nós, mas, se você não conhece aquelas obras, pode se sentir ridicularizado, diminuído. É um sentimento genuíno. A história de Tichborne é inspiradora, para mim, porque foi um populismo de esquerda. Idealmente, prefiro que não haja populismo nenhum, mas, se tiver que existir, que seja de esquerda. “A fraude” é um retrato divertido dos círculos literários londrinos do século XIX, que eram marcados pelo oportunismo. Como são hoje? Passei muito tempo fora da Inglaterra (a escritora viveu em Nova York entre 2010 e 2023) e acho que um dos motivos foi porque eu não gosto de jantares. Odeio, na verdade. A cultura inglesa dos círculos literários é muito hierarquizada, não vale a pena participar, especialmente se você for poeta. Não é como nos EUA, onde há prêmios e bolsas para escritores. Aqui (na Inglaterra), viver da escrita é difícil. São todos contra todos. Mas há quem comece a escrever só para fazer parte desses círculos literários. Não é o meu caso. Charles Dickens foi criticado por apoiar o governador da Jamaica que reprimiu uma revolta popular, mas uma personagem de “A fraude” diz que a opinião dos romancistas não importa. Não mesmo? Não importa, definitivamente. É uma pena que perguntem nossa opinião o tempo todo. Somos muito ingênuos. Em geral, começamos a escrever muito jovens, nunca tivemos um emprego normal e não lidamos com pessoas todos os dias. Dickens era um ativista. Tinha uma casa onde acolhia ex-prostitutas e as incentiva a estudar. Sem ele, as leis contra o trabalho infantil teriam demorado mais para ser aprovadas. Tinha bom coração, mas o que acontecia no Caribe não o tocava tanto. A repressão na Jamaica realmente dividiu a sociedade londrina. Dickens só entendeu o horror da escravidão quando foi aos EUA. Quando lancei o livro, muitos jornalistas ingleses me perguntaram: “Por que odeia Dickens?” Eu não o odeio! Eu o admiro muito, mas ele tem pontos cegos, como todos nós. Você disse que a opinião dos romancistas não importa, mas você dá a sua opinião às vezes. Escreveu, por exemplo, sobre as manifestações pró-Palestina nas universidades americanas. Quando eu era jovem, achava que era só uma escritora cômica e que a política era para quem de fato entendia como o mundo funciona. Nos últimos anos, nós, escritores, vimos que o que fazemos também é política. O governo americano literalmente faz escândalos por causa do que se diz nas faculdades de Letras! Nosso discurso os deixa loucos! Ideólogos e fascistas nos acusam de ser woke ou sei lá o quê. Então, é nossa responsabilidade dizer que não é woke apontar o papel da escravidão na história inglesa. Não é ficção nem ideologia, é um fato. Nosso trabalho é trazer o discurso para a realidade. E se eles forem usar a retórica para fazer política, bom, de retórica nós entendemos. Pedem minha opinião todos os dias, mas respondo uma ou duas vezes por ano. Não sou especialista em nada, mas entendo de linguagem e sobre isso eu posso falar. É verdade que você não tem smartphone? Sim, é verdade. Mas eu tenho um computador, não sou uma ludita. Sei o que está acontecendo no mundo, só não ando com um computador do bolso. Não é tão estranho assim. Serviço: 'A fraude' Autora: Zadie Smith. Tradução: Camila von Holdefer. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 576. Preço: R$ 129,90.
Zadie Smith, estrela da Flip: 'A escravidão foi a indústria mais lucrativa de todos os tempos, com exceção, talvez, das big techs'
Em 'A fraude', seu romance mais recente, escritora britânica explora dilemas do presente, como dificuldade das elites em compreender o apelo de líderes antissistema














