Num mundo esvaziado de sentido, cheio de niilismo e solidão, gênero musical revela que ainda há espaço para emoções 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Público da Flip diante de bares em Paraty — Foto: Alessandro Cassiano Começou a Flip. Paraty ferve com autores, editores, livreiros e fãs correndo de um canto a outro, empolgados em ver escritores se equilibrando sobre as pedras oitocentistas. As mais empolgadas são as senhoras de linho. Com óculos escuros, chapéu panamá, elas não disfarçam o frenesi. Uma delas, de tão feliz, me confundiu: “O senhor é o Itamar Vieira Junior? O autor de ‘Torto arado’?” Neguei. Ela não se fez de rogada e emendou: “Podia ser irmão, de tão parecido.” Coitado do Itamar. O escritor publicou seu livro em 2019 no Brasil, depois de ganhar o prêmio Leya em Portugal. De lá pra cá, ganhou espaço no panteão dos grandes autores da literatura nacional, vendeu mais de um milhão de livros, foi traduzido em mais de 20 línguas e seus novos lançamentos são aguardados ansiosamente pelos leitores. Não merecia ser confundido. Quem me salvou do constrangimento foi um grupo de jovens no bar da frente, no meio do centro histórico. Alheios ao clima da festa, eles seguiam animados com a playlist do boteco, toda dedicada a Pablo, conhecido como o rei do arrocha e da sofrência. Já nos primeiros tons da música, eles fechavam os olhos, levavam as mãos próximas ao rosto num transe, como se tentassem abraçar o próprio tronco e dizer ao mundo que, apesar dos pesares, eram a melhor companhia para si mesmos. A coreografia combinava com o ritmo. Como estilo musical, a sofrência ganhou vulto em meados dos anos 2010. Embalada com melodias melosas, letras sofridas, um tecladinho agudo e umas batidas eletrônicas, é herdeira do brega e do arrocha. Do primeiro, herdou o sofrimento. Do segundo, a carência. No final, deu-se o neologismo: sofrência. Diferentemente das chamadas músicas de corno, a sofrência curte-se junto e separado dos outros. Mesmo cercados de gente, os ouvintes se colocam no centro da experiência. Os jovens dançam sobre o próprio eixo, fecham os olhos para não ver os outros e, com os braços cerrados junto ao corpo, tocam a própria pele como se não houvesse nenhum outro corpo com encaixe mais perfeito. Quando muito, sacam o celular para enviar áudios longos e melosos a contatinhos, sem qualquer expectativa de resposta. E, se não forem correspondidos, choram. Num mundo esvaziado de sentido, dominado pelo niilismo e pela dificuldade dos mais jovens de lidarem com a solidão, a dor da sofrência revela como ainda há espaço para emoções. A digitalização, a onipresença das inteligências artificiais, o pragmatismo oferecido pela tecnologia e o cinismo costumeiro dos nossos tempos ainda não nos desumanizaram. Se a crença é que a realização dos nossos desejos é sempre possível com auxílio de um aplicativo ou do passo a passo de um vídeo no YouTube, na sofrência eles aprendem que viver é também não se satisfazer. E lembram que, mesmo rodeados de máquinas e algoritmos, ainda são humanos. Além disso, ainda há memória. Afinal, quando o futuro é incerto, a saída é se agarrar ao passado. É mais fácil e mais seguro sentir saudades do que se viveu do que imaginar o que será da própria vida amanhã. Quando cruzei a rua de volta para minha pousada, de um lado as senhoras de linho esperavam na Tenda dos Autores. Do outro, os meninos seguiam de olhos fechados abraçando o próprio corpo. Nenhum dos dois grupos aceitaria a comparação, apesar de ambos procurarem a mesma coisa: as miudezas do humano.
Sofrência na Flip
Num mundo esvaziado de sentido, cheio de niilismo e solidão, gênero musical revela que ainda há espaço para emoções















