Entre as atrações da literária, destacam-se nomes como Andréa del Fuego, Paulliny Tort, Milton Hatoum, Drauzio Varella e Cármen Lúcia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 As escritoras Paulliny Tort e Andréa del Fuego: destaques da Flip 2026 — Foto: Renato Parada Os ingressos da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começaram a ser vendidos em 26 de junho, às 10h. Uma hora depois, cinco das 21 mesas já estavam esgotadas. Uma delas, como já se esperava, é a da escritora britânica Zadie Smith, o maior nome internacional desta Flip. As outras quatro têm uma característica em comum: são encabeçadas por brasileiros: Andréa Del Fuego e Paulliny Tort (que dividem o palco amanhã, às 15h), o médico Drauzio Varella (sexta, às 10h), a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia (sexta, às 13h30) e o imortal da Academia Brasileira de Letras Milton Hatoum. É verdade que Varella e Hatoum vão prosear com autores estrangeiros — a alemã Carmen Stephan e o britânico-líbio Hisham Matar —, mas, com todo o respeito aos convidados de fora, está claro que os ingressos acabaram tão rápido graças ao prestígio dos nossos compatriotas. Célebre por trazer a nata da literatura estrangeira a Paraty, a Flip está cada vez mais brasileira. Na programação deste ano, chama a atenção a presença tanto de autores nacionais festejados pelo público, como os citados acima, quanto nomes em franca ascensão, como a baiana Bethânia Pires Amaro, autora do recém-lançado romance “Ressalga”, e a amazonense Susy Freitas, cujo “No baile do juízo final” apresenta uma Manaus vibrante e cheia de tesão. Inclusive, não é de se duvidar que os brasileiros terminem no topo da lista de mais vendidos da festa, posição tradicionalmente ocupada por autores gringos. Foi assim com Socorro Acioli em 2023. Sua carismática participação na Flip impulsionou ainda mais a carreira da cearense, que hoje é uma das maiores best-sellers do país. — A ficção nacional está vivendo um momento muito bom, tanto em termos de venda quanto de produção. Há mais público para a nossa literatura, e a Flip reflete isso. Além disso, sabemos que o evento tem enfrentado dificuldades para trazer autores de fora, então o interesse renovado por autores brasileiros veio a calhar — diz Otavio Marques da Costa, diretor editorial da Companhia das Letras. Rita Palmeira, curadora da Flip, afirma que nenhum editor a procurou interessado em aproveitar a festa para produzir uma “nova Socorro Acioli” (“Longe disso”, diz ela) e que, na hora de chamar o elenco nacional, optou grandes autores que também fossem bons de palco. — São escritores que falam bem sobre o próprio trabalho e refletem sobre o fazer literário. Acontece de um grande romancista ou poeta não ser um bom orador e se atrapalhar na hora de falar de seu livro. As mesas costumam ser mais interessantes quando o autor também consegue “performar” — afirma a curadora, que tem vasta experiência como mediadora da Flip. Ao comentar a escolha dos nomes nacionais, Rita brincou que em ao menos um caso trata-se de “reparação histórica”. Festejada por livros como “A pediatra” e “Nego tudo” (coletânea de minicontos que acaba de ser relançada pela Companhia das Letras), Andréa del Fuego nunca pisou no Auditório da Matriz (que no passado se chamava Tenda dos Autores), palco da programação principal da festa. Nem como autora convidada nem como público. Isso não quer dizer que ela seja estranha à Flip. Pelo contrário: é frequentadora da festa e escreveu “Os Malaquias” depois de ver (pelo telão) o escritor português José Luís Peixoto em Paraty e ouvi-lo falar sobre “a coragem de assumir a própria linguagem”. — A Flip inaugurou a ideia de festa da literatura. É lá que o leitor pode ter a experiência de entrar numa pequena casa parceira e, no meio de 15 pessoas, ver um poeta que acabou de lançar seu primeiro livro, ainda trêmulo, dando seus primeiros passos. Somos testemunhas dos processos de cada escritor. Cada mesa é como se fosse uma oficina literária portátil, dá notícias da viagem singular que cada um fez — diz a paulistana, que venceu o Prêmio Literário José Saramago por “Os Malaquias”. Na mesa com Andréa, Paulliny Tort vai dar notícias de sua viagem à Pré-História. Seu novo romance, “Os imortais” (Fósforo), narra a jornada de um clã de neandertais e seus embates com uma menina Homo sapiens que é incorporada ao bando. — É bonito quando esse universo que ficou anos na minha cabeça passa a fazer sentido para outras pessoas, que desenvolvem afeto pelos personagens, pelo livro. É a magia da literatura: suscitar emoções verdadeiras a partir de uma história inventada — diz a escritora brasiliense, premiada pela antologia de contos “Erva brava”. — Não sou muito extrovertida ou sociável, mas me realizo nesses encontros mediados pela literatura. Me sinto confortável falando sobre imaginação, embora nem Freud explique como os livros nascem na cabeça do autor. Alguém disse, não lembro quem, que nossos livros começam a ser escritos no dia em que nascemos. Concordo totalmente. Andréa del Fuego afirma que, dada a sua universalidade, “Os imortais” podia ter sido escrito em qualquer parte do planeta. É muita sorte, portanto, que seja uma obra nacional, sugere a autora. Abraçado pela crítica e pelos leitores (é um fenômeno do boca a boca), o romance de Paulliny já vem sendo tratado como “o livro do ano”. Certamente será um dos destaques desta Flip tão brasileira.