Festa literária, que acontece entre 22 e 26 de julho, e homenageia a poeta Orides Fontela e destaca autores que não vivem mais em seus países de origem, como o argelino Kamel Daoud e a mauriciana Nathacha Appanah 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A Festa Literária Internacional de Paraty em 2025 — Foto: Márcia Foletto A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) anunciou nesta terça-feira (23) a programação completa de sua 24ª edição, que acontece de 22 a 26 de julho. Entre as atrações divulgadas na coletiva de imprensa, realizada em São Paulo, destacam-se a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, o médico Drauzio Varella, o imortal da Academia Brasileira de Letras Milton Hatoum, a angolana Ana Paula Tavares, vencedora do Prêmio Camões, e a britânica Zadie Smith, cujo romance “A fraude” (Companhia das Letras) saiu no ano passado no Brasil. Parte expressiva dos autores internacionais convidados para a Flip não vivem mais em seus países de origem, como o argelino Kamel Daoud, a mauriciana Nathacha Appanah, a congolesa Ève Guerra, radicados na França, e o guatemalteco Eduardo Halfon, residente em Berlim. Em nota enviada antes da coletiva de imprensa, a organização afirmou que “a programação convida seus leitores a pensar na casa (como metáfora que abarca a família ou o país) como território instável. “Esse desenraizamento que percorre os autores da edição remete, claro, ao momento político contemporâneo, mas também ao bem-vindo universo de instabilidade da palavra, característico da poesia”, diz o texto. Também virão a Paraty a espanhola Eva Baltasar, explora relacionamentos homossexuais femininos em sua ficção, a alemã Carmen Stephan, autora de um romance narrado por um mosquito, e José Tolentino de Mendonça, poeta português que é prefeito Dicastério para a Cultura e a Educação (equivalente a ministro da Educação) do Vaticano. Entre os nomes brasileiros confirmados, chama atenção a presença de escritoras contemporâneas que têm atingido sucesso de crítica e público, como Andrea del Fuego, Bethânia Pires Amaro e Paulliny Tort, autora do recém-lançado “Os imortais” (Fósforo), que já é um dos romances nacionais mais comentados do ano. Repetindo uma fórmula que deu certo em edições recentes, a programação desta Flip também reserva espaço para discutir os conflitos do presente. Os autores Andrei Kurkov (ucraniano) e Maria Reva (canadense de origem ucraniana) compõe uma mesa sobre as dificuldades éticas de narrar, à distância, o horror da guerra no Leste Europeu. O autoritarismo e a ascensão da extrema direita serão tema da conversa entre o crítico literário João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista Paulo Schiller. A autora homenageada desta Flip é a poeta Orides Fontela (1940-1998), célebre por sua escrita cerebral, de inspiração filosófica, e atenta ao mundo natural. Na mesa de abertura, na quarta (22), dedicada à obra da homenageada, estarão o crítico literário Augusto Massi, que foi amigo e editor de Orides, e a poeta Marília Garcia, que apresentará um poema encomendado especialmente para a Flip. Dalton Trevisan, cujo centenário foi festejado em 2025, também será lembrado na programação: na quinta (23), a atriz Denise Stoklos vai apresentar o espetáculo inédito “Dalton, que tinha um cachorro”, inspirado na obra do curitibano e dirigida por Alessandra Maestrini. A curadoria da festa é assinada pela crítica literária Rita Palmeira. Ao todo, haverá 21 mesas literárias, mesmo número do ano passado. No entanto, os horários mudaram. Na sexta e no sábado, a última mesma do dia será às 19h e não mais às 21h, como acontecia anteriormente. No domingo, porém, a programação vai se estender até depois do almoço (o que não se via há anos): haverá mesas às 10h, às 12h e às 15h30. Este ano, a programação paralela da Flip conta com 41 casas parceiras. A venda de ingressos para a Flip 2026 começa nesta terça, às 12h. Até as 17h de quinta-feira (25), os bilhetes são restritos aos moradores de cidade e custam R$ 39. A partir de sexta (26), os ingressos começam a ser vendidos para o público geral no site do evento. O primeiro lote será vendido a preços populares: R$ 25 (meia entrada) e R$ 50 (inteira). Depois, os preços sobem para R$ 70 (meia) e R$ 140 (inteira). Confira a programação da 24ª Flip: Quarta-feira, 22/7, às 19h30 Mesa 1: “entra furtivamente a luz”, com Augusto Massi e Marília Garcia. O crítico literário Augusto Massi, amigo e editor de Orides Fontela, divide a mesa com a poeta e ensaísta Marília Garcia. Massi discorrerá sobre a obra de Orides e Garcia fará leitura performática de um poema encomendado especialmente para a abertura da 24ª Flip. Quinta-feira, 23/7, às 10h Mesa 2: “saber de cor o silêncio”, com Edimilson de Almeida Pereira e José Tolentino de Mendonça. Poetas de uma mesma geração, donos de obra vasta e ambos detentores de grande erudição, o português José Tolentino Mendonça e o brasileiro Edimilson de Almeida Pereira conversam sobre linguagem poética, enigma e identidade. Quinta-feira, 23/7, às 12h Mesa 3: “não vim. não vi. não havia guerra alguma”, com Andrei Kurkov e Maria Reva. Como narrar o que se viu e o que não se viu mas que está acontecendo? Maria Reva, escritora canadense de origem ucraniana, conversa com o escritor Andrei Kurkov sobre seus livros que, por caminhos distintos (ela, em romance engenhoso e bem-humorado; ele, em diários), tratam da guerra da Ucrânia e do dilema ético que acompanha narrativas de conflitos de grande dimensão. Quinta-feira, 23/7, às 15h Mesa 4: “mas para que serve o pássaro? o pássaro não serve”, com Andréa del Fuego e Paulliny Tort. Duas das mais inventivas ficcionistas brasileiras da atualidade se encontram para conversar sobre seus livros, sobre a capacidade de fabulação e a função da literatura. Quinta-feira, 23/7, às 17h Mesa 5: “a infância volta devagarinho”, com Andrea Bajani e Maria Esther Maciel. Dois grandes escritores, um italiano e uma brasileira, se reúnem para conversar sobre seus romances em que questionam o amor compulsório dos filhos por seus pais e revisam a relação familiar. Quinta-feira, 23/7, às 19h Mesa 6: “falo do que impede o sono”, com Djaimilia Pereira de Almeida e Kamel Daoud. Vencedor do Goncourt 2024, Kamel Daoud e a premiada escritora luso-angolana Djaimilia Pereira de Almeida, autora de Luanda, Lisboa, Paraíso, conversam sobre a construção de seus romances e também sobre esquecimento, luto e dever de memória. Quinta-feira, 23/7, às 21h Mesa 7: “do livro ao palco: Dalton, que tinha um cachorro”, com Denise Stoklos. Espetáculo inspirado na obra de Dalton Trevisan, com direção de Alessandra Maestrini. A apresentação marca a estreia do espetáculo. Sexta-feira, 24/7, às 10h Mesa 8: “água parada água parada água parando”, com Carmen Stephan e Drauzio Varella. Uma conversa sobre escrita, doenças tropicais, medicina, vida e morte. Carmen Stephan, escritora alemã que escreveu um romance sobre a malária (narrado pelo mosquito transmissor), e o renomado escritor e médico Drauzio Varella, autor de, entre outros livros, O médico doente, em que trata do momento em que contraiu febre amarela e esteve à beira da morte. Sexta-feira, 24/7, às 12h Mesa 9 (Zé Kleber): “a severa arquitetura serenamente prende-nos”, com José Godoy e Solano Benítez. De que modo se habita um espaço? A serviço de quem está o uso que se faz de um determinado lugar? Como esse habitar pode estar a serviço da vida ou de políticas repressivas? Esta mesa reúne dois latino-americanos, um arquiteto paraguaio e um jornalista brasileiro, para debaterem diferentes formas de ocupar o espaço. Se José Godoy relata suas descobertas sobre a Ilha Dawson, território chileno que foi usado para extermínio de indígenas e, décadas depois, sob o governo Pinochet, para tortura e encarceramento de dissidentes políticos, Benítez fala de sua experiência como inventor de espaços que reivindicam estreita relação com a natureza e respeito às populações locais. Sexta-feira, 24/7, às 13h30 Mesa 10: “estado de sítio, estado de sido, estase”, com Cármen Lúcia. A ministra do Supremo Tribunal Federal fala de seu recém-lançado livro Pela mão do povo - Democracia e voto no Brasil, bem como dos recentes ataques à democracia brasileira. Sexta-feira, 24/7, às 15h Mesa 11: “como revelar-te se me revelas?”, com Flávia Péret e Julieta Correa. A conversa reúne uma escritora mineira e uma escritora argentina para falar de seus livros, que, enquanto refletem sobre a relação entre neta e avó, e mãe e filha, narram, de forma delicada e bem-humorada, o processo de adoecimento por demência de mulheres de sua família. Sexta-feira, 24/7, às 17h Mesa 12: “e perdura. apesar”, com Bethânia Pires Amaro e Nathacha Appanah. Duas escritoras, uma brasileira e uma franco-mauriciana, conversam sobre seus livros que têm protagonistas mulheres. Em comum, seus livros revelam inúmeras formas de violência a que são submetidas suas personagens. Ganhadora do Femina 2025 com um dos romances de maiorrepercussão no ano passado na França, Nathacha Appanah se encontra com Bethânia Pires Amaro, que recebeu o Jabuti (Contos) em 2024. Sexta-feira, 24/7, às 19h Mesa 13: “o tecido: não sabemos qual a trama”, com Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell. Até onde acreditar no que se lê? Em que medida se pode narrar a vida do outro sem se preocupar com as consequências dessa decisão? As romancistas Katie Kitamura e Marta Pérez-Carbonell conversam sobre narradores pouco confiáveis, histórias que desestabilizam leitores e o efeito ilusório que a ficção pode trazer. Sábado, 25/7, às 10h Mesa 14: “a saída é a volta”, com Eduardo Halfon e Paloma Vidal. A mesa reúne um escritor guatemalteco de origem judaica, criado nos Estados Unidos e hoje residente em Berlim, e uma escritora argentina que vive no Brasil, com passagens por Estados Unidos e França. Ele escreve em espanhol apesar de ter o inglês como língua principal; ela escreve em português apesar de sua língua materna ser o espanhol. Os dois são personagens de seus próprios romances e aqui se reúnem para falar de seus projetos literários, de deslocamentos e identidades. Sábado, 25/7, às 12h Mesa 15: “se o delírio te eleva à potência do abismo”, com João Cezar de Castro Rocha e Paulo Schiller. Anabela Mota Ribeiro Encontro de dois ensaístas para debater o autoritarismo e a ascensão da extrema direita. O crítico literário João Cezar de Castro Rocha e o psicanalista e tradutor Paulo Schiller recuperam os argumentos que sustentam seus livros mais recentes para tentar entender, a partir do repertório de suas respectivas áreas de atuação, como comportamentos associados ao autoritarismo ganharam a cena nos últimos tempos. Sábado, 25/7, às 15h Mesa 16: “o boi é só. o boi é só. o boi”, com Ana Paula Tavares. Vencedora do prêmio Camões 2025, a poeta, ensaísta e pesquisadora angolana Ana Paula Tavares fala de sua trajetória e de sua produção poética, ambas profundamente marcadas pela história de seu país e da luta pela emancipação feminina. Conversa também a respeito de sua relação com o Brasil, por meio da língua, da poesia e da literatura, sobretudo a partir dos laços que o unem a Angola. Sábado, 25/7, às 17h Mesa 17: “não mais sabemos do barco, mas há sempre um náufrago”, com Hisham Matar e Milton Hatoum. Hisham Matar conversa com Milton Hatoum sobre histórias de famílias que têm seu destino determinado por governos autoritários. Matar tinha 19 anos quando seu pai foi sequestrado pelo governo do ditador líbio Muammar Gaddafi e nunca mais reapareceu. Hatoum, em sua recente trilogia, narra o desaparecimento de uma mãe ocorrido durante a ditadura militar brasileira. Uma conversa entre dois premiados escritores sobre seus livros e a relação entre memória e literatura, política e ficção, escrita e liberdade. Sábado, 25/7, às 19h Mesa 18: “e este chão não existe, e esta paz é vertigem”, com Zadie Smith. Entrevista com a escritora britânica Zadie Smith, uma das vozes mais celebradas da literatura em língua inglesa da atualidade. Ela responderá a questões sobre sua obra, a construção fina e arguta de cada um de seus livros, e discutirá temas presentes em seus romances como colonialismo, imigração e racismo. Domingo, 26/7, às 10h Mesa 19: “a porta está aberta”, com Ernesto Mané e Ève Guerra. Adriana Ferreira Silva A mesa reúne dois autores que, em seus livros, refletem sobre a relação com a diáspora africana contemporânea e tocam em temas como imigrações, violência, famílias birraciais, afeto, identidade e pertencimento. Se o físico e diplomata brasileiro conta da viagem que fez à Guiné-Bissau para conhecer a família de seu pai, a poeta e professora francesa Ève Guerra narra, em seu premiado romance, a experiência de repatriar o corpo do pai do Congo para a Europa. Domingo, 26/7, às 12h Mesa 20: “nunca crer no que não canta”, com Leonardo Gandolfi e Mateus Baldi. Nessa mesa se reúnem um poeta cujo olhar se fixa nas pequenas coisas cotidianas e uma contista que mira com delicadeza o espaço urbano e quem o habita. Também aparecem um poeta e pesquisador que enaltece a música em seus versos e nos versos dos outros e uma ensaísta que se dedica a refletir sobre um dos maiores discos da MPB. Trata-se de um encontro sobre poemas, canções e cidades, e o que resulta daí. Domingo, 26/7, às 15h30 Mesa 21: “o que faço desfaço, o que amo desamo”, com Eva Baltasar e Susy Freitas. Encontro de duas escritoras de enorme originalidade. A catalã Eva Baltasar, que escreveu uma vertiginosa trilogia sobre a maternidade, e a amazonense Susy Freitas, autora do frenético romance No baile do juízo final. À sua maneira, as duas escritoras esgarçam os estereótipos do feminino e colocam suas personagens em situações-limite de sustentação do próprio desejo.