Marília Garcia e Augusto Massi cativaram o público revisitando vida e obra da poeta paulista 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Marília Garcia na mesa de abertura da 24ª Flip — Foto: Alexandre Cassiano/ Agência O GLOBO Vida e obra de Orides Fontela foram esmiuçadas na mesa de abertura da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na noite desta quarta-feira (22). A homenageada desta edição inspirou um ensaio-performance da poeta Marília Garcia e foi tema de uma aula-show do editor e jornalista Augusto Massi. Equilibrando leveza e densidade crítica, a apresentação cativou a plateia presente na Tenda dos Autores. Já o público que acompanhava a abertura pelo telão do lado de fora enfrentou sucessivos problemas técnicos: a transmissão caiu duas vezes e permaneceu cerca de cinco minutos sem imagem. Batizada de "Entra Furtivamente a Luz" (referência ao poema de Orides "Alba I"), a mesa contou ainda com um depoimento em vídeo do crítico Davi Arrigucci Jr., responsável pela descoberta da poeta nos anos 1960. Arrigucci não apenas foi conterrâneo de Orides na cidade paulista de São João da Boa Vista, como também estudou com ela no colégio. Só anos mais tarde, ao voltar para visitar a família na cidade, descobriu um poema da ex-colega, já adulta, no jornal local. — O que eu conhecia dela eram os poemas da época do colégio, que eram muito parnasianos e não chamavam a atenção — lembrou o crítico. — Mas quando li seu poema no jornal vi que tinha surgido algo que parecia grande poesia. Arrigucci organizou o primeiro livro de Orides Fontela, "Transposição", publicado em 1969, sem grande sucesso. Foi só a partir do seu terceiro livro, "Alba", que a poeta começou a chamar a atenção da crítica e de um círculo pequeno de leitores. Ela morreria em 1998, de tuberculose, após uma vida de grande precariedade financeira e pouca visibilidade. Após o depoimento de Arrigucci Jr, Marília Garcia assumiu o microfone e apresentou um ensaio-poema que reuniu algumas das marcas mais características de suas performances poéticas: o diálogo entre memória pessoal, crítica literária e observação do presente. A poeta tomou como ponto de partida uma anedota envolvendo um livro de Davi Arrigucci Jr, "Enigma e comentário". Anos atrás, ela alugou um exemplar do livro na biblioteca da PUC e se surpreendeu ao ver entre suas páginas um recibo antigo com seu nome, esquecido por outro leitor. A coincidência refletiria a própria estrutura de espelhos e enigmas recorrentes na obra de Orides, cujas elipses e silêncios não buscam respostas, mas sustentam a dúvida. Marília aproximou ainda visualmente o estilo enxuto de Orides com as obras da artista plástica Mira Schendel, com quem compartilha a opacidade e a capacidade de habitar o papel. Destacando a onipresença dos pássaros na poesia de Orides, Marília relacionou a fauna poética aos alertas do presente, como os relatos de aves caindo mortas pelo calor sufocante na Europa. Voltar a Orides hoje, segundo ela, é também um exercício de vigília ambiental e política: — Este é o ar do tempo: o espírito da nossa época, um tempo de alertas. Não sabemos o que vai acontecer. Estamos a um passo dele, em vigília, à espera do que vem. O importante é pensarmos na nossa própria linguagem: será que os pássaros estarão aqui para testemunhar, para cantar o fim dos tempos ao presente? E se não estiverem, teremos que ouvir o seu silêncio. Na sequência, o editor e jornalista Augusto Massi assumiu a palavra para desenhar a trajetória intelectual e a arquitetura poética de Orides. Para Massi, a função do crítico é "fazer com que o leitor atravesse a ponte para o outro lado", revelando uma obra que, embora contida em apenas cinco livros e pouco mais de 200 poemas, carrega um rigor geométrico e transformações profundas. Massi, que editou as obras completas de Orides no final dos anos 1980, repassou os ciclos da autora, desde a formação na escola pública e nas bibliotecas de São João da Boa Vista até o amadurecimento universitário na USP. Ele destacou a evolução do imaginário da autora: a forte presença do código católico nos primeiros livros, a abertura para o universo grego e, por fim, a imersão no zen-budismo. Messi chamou a atenção para o uso intenso da pontuação na obra de Orides (como travessões que mimetizam setas ou parênteses que funcionam como gestação de sentidos) e para o caráter plástico e sintético de sua escrita: — Tudo que ela reduz vira alguma coisa que se irradia de sentido. A pobreza na Orides é a sua riqueza — disse o editor.