Sou casada com aquilo que costumo chamar de bofe clássico: um sujeito nascido nos anos 70, cisgênero, que, quando não acha o abridor de garrafas, arranca a tampa da cerveja com o molar.

Ainda assim, quando seu filho mais velho chegou em casa, aos 16 anos, com unhas pintadas e usando saia, ele não levantou uma sobrancelha. Tudo o que disse foi: "Tem pizza na geladeira".

Um mês depois, quando o garoto continuava aparecendo de saia, somada a um top justo, e puxando pela mão uma namorada (o que daria nó na cabeça de muitos), meu companheiro só lhe perguntou: "Filho, você vai continuar usando essa saia?" O garoto não disse nada. Ele prosseguiu: "Se continuar usando, tem que comprar uma nova para revezar. Essa aí não vê a lava-roupa há mais de um mês, e você sabe que seu pai não suporta roupa suja".

Se meu companheiro é um bofe clássico, meu pai pode ser considerado um bofe pré-histórico. Nascido em uma colônia italiana nos anos 40, foi criado sem diálogo e com truculência, em um ambiente em que um filho jamais discordava, nem sequer fazia perguntas.

Aos 19 anos, não só discordei dele como me coloquei com firmeza, avisando que largaria a faculdade que ele havia insistido para eu fazer e não responderia a outras de suas expectativas, acrescentando ainda algumas verdades boquirrotas ao meu discurso.