Uma vez ouvi alguém dizer que eu havia nascido na família errada. De fato, eu destoava. Meus pais, que escalaram socialmente, queriam me preparar para noivar e casar bem. Eu já andava frequentando a ala jovem de um partido e estava mais preocupada em escrever e sentar fogo no sistema.
Aos 15 anos, me obrigaram a frequentar um curso de Etiqueta & Boas Maneiras. Coitada da professora. Ao comentar que era de bom tom deixar um restinho do prato, de forma que o anfitrião não achasse que faltou comida, ela teve de aguentar a minha mão levantada: a senhora não acha um absurdo desperdiçar alimentos num país em que há tanta fome?
Todas as meninas torceram os narizes empinados para a pergunta (com certa razão), menos uma, a única de cabelos curtos, talvez porque nem tenha ouvido o que eu disse, já que usava fone em uma das orelhas. Na aula seguinte, eu me sentava com ela no fundão e inaugurava uma amizade duradora, que nos levou a saber tudo sobre o gótico e o punk, mas me tornou uma pessoa que, até hoje, se estabana na hora de posicionar os talheres sobre a mesa.
Anos depois, eu ingressava no melhor lugar que existe para se encontrar uma matilha: a faculdade. Peneira de predileções, o curso universitário acaba por aglutinar um bando de gente com os mesmos interesses. Finalmente, eu descobria que não há nada de errado em ler livros enquanto se escova os dentes. Ali fiz uma turma de jaquetas encardidas que me acompanhava em cinemas onde só passavam filmes maçantes. Alguns desses cães caminham até hoje ao meu lado, e volto a ter 18 anos quando os encontro.













