Na minha geração de mulheres que ficam entre cuidados com os filhos e com os pais, ainda tive uma avó para cuidar 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Dona Maria de Assunção com a neta querida no colo na década de 1970 — Foto: Álbum de família RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 16/07/2026 - 19:01 "Legado de Amor: Homenagem à Influente Dona Maria de Assunção" O texto é uma reflexão carinhosa sobre a relação entre uma mulher e sua avó, Dona Maria de Assunção, que faleceu aos 98 anos. A autora destaca a influência significativa da avó em sua vida, descrevendo-a como uma figura elegante, sábia e amorosa. Dona Maria, uma imigrante portuguesa, ensinou lições de coragem e resiliência, além de deixar um legado emocional que perdura. A narrativa é um tributo à memória e aos ensinamentos que moldaram gerações. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Até o mês passado, estava no seleto grupo de mulheres de 50 que ainda têm o privilégio de ter uma avó por perto. Dona Maria de Assunção partiu aos 98 anos, e ela provavelmente virá puxar meu pé porque revelei a idade. Fico pensando em como uma pessoa nascida em 1927 pôde ser uma referência tão fundamental para mim, que sou de 1972. É um trocadilho numérico para um tempo relativamente pequeno que nos separa. Quando nasci, minha avó tinha 44 anos (eu sou de abril, ela é de outubro). Passei os 54 anos seguintes apaixonada por essa mulher elegante sem esforço, naturalmente engraçada, forte e carinhosa, brava na medida e especialmente sábia. E linda, de todos os jeitos, em todas as fases da vida. Foi ela quem me levou à minha primeira consulta ao ginecologista. O doutor em questão era pai de uma amiga da escola, eu estava petrificada de constrangimento. Já ela chegou desembaraçada, entabulou uma conversa tão franca que o médico admirado comentou comigo como devia ser bom ter uma avó moderna. Fiquei aliviada e sorri orgulhosa, como estou fazendo agora. E tem as frases, sempre pronunciadas em tom divertido. “Nunca se deram e estão brigando agora?”, em geral empregada diante dos meus desentendimentos de criança com meu irmão e/ou minha irmã (às vezes era com os dois, eu podia ser bem encrenqueira). “É cada uma que são duas”, reação diante de situações absurdas, uso quase todo dia. Pra ressaltar que nunca sabemos ao certo o sentimento alheio, dizia que “coração dos outros é terra onde ninguém caminha”. E a minha favorita, quando alguém faz um comentário inconveniente disfarçado de piada: “Morro de rir, mas não acho graça”. Essa costumava vir acompanhada de um leve sacudir de ombros. Portuguesa, imigrou ainda criança e trabalhou duro na pensão montada perto da Central do Brasil pela minha bisavó Ana — o meu nome é por causa dela. Lavava lençóis e colchas no tanque, o que deixou mãos calejadas destoantes do seu jeitinho chique. E fortes, o que me fazia sair correndo sempre que ela oferecia uma massagem. Mesmo num regime linha-dura, a adolescente Maria pulava janela para brincar carnaval no centro do Rio. Uma lição sobre o valor da alegria. E aprendi muito mais. A ficar triste sem desesperar. A não me pautar pelo que os outros pensam ou dizem. A rir de mim mesma. A não reclamar por bobagem. Mesmo casada a vida inteira com meu avô, um homem maravilhoso com ela e com todos, me alertou para nunca correr atrás de namorado: “Quem muito abaixa mostra as calças”. A qualquer dificuldade, medo ou problema que eu tivesse que enfrentar, ela me cobrava postura de um jeito diferente: “Você é mulher ou não é?”. Dona Maria entendeu desde o primeiro momento que coragem, resiliência e fibra são substantivos femininos. Na minha geração de mulheres que ficam entre cuidados com os filhos e com os pais, ainda tive uma avó para cuidar. E foi uma honra. Um capítulo final de uma história de amor e conexão. Meu avô querido, quando eu tinha uns 15 anos, me chamou num canto, rindo como quem faz uma molecagem, para me confidenciar que, de todos os netos, eu era a preferida dela. Ao que respondi envaidecida que sim, notei, todo mundo já percebeu. “O que não tem remédio remediado está”. Nas últimas semanas tenho contado a amigos que minha avó nos deixou, o que não é totalmente verdade. Ouvi uma vez que podemos viver uma parte da nossa vida como uma homenagem aos que se foram. E assim as pessoas importantes seguem conosco. E agora peço licença para ir ali comer um pão com goiabada e ouvir um fado da Amália Rodrigues. Alguns costumes têm que se perpetuar.
Vocé é mulher ou não é?
Na minha geração de mulheres que ficam entre cuidados com os filhos e com os pais, ainda tive uma avó para cuidar







