Nunca dependa de um homem é o mantra preferido que mães e pais dizem para as filhas desde os anos 1980. Pode parecer óbvio hoje, mas, para mim, que nasci nos anos 1960, numa família antiquada, a pregação ainda era pelo casamento-sustento. Daí a fala revolucionária de Virginia Woolf, que, em "Um teto todo seu" (1929), defendia que as mulheres precisavam de independência para escapar das restrições impostas pela sociedade e para poder criar.

O insistente conselho dos pais é fruto de uma conjunção de fatores. Mulheres foram e são abandonadas com a prole em condições precárias, depois de terem aberto mão do estudo e do trabalho para cuidar da família. Enquanto isso, os maridos fazem suas carreiras sem se preocupar com as atividades domésticas e o cuidado com os filhos; nesse aspecto, dependem delas, mas, ao se separarem, logo arranjam outra para a função.

A machosfera acusa as mulheres de dependerem do sustento masculino, mas esquece que esse arranjo é histórico e compulsório e que a mulher solteira sofria inúmeras formas de violência às quais o casamento, paradoxalmente, oferecia alguma proteção.

Seja por aspiração pessoal, seja pela falta de parceria real dos homens, os pais foram prudentes ao indicar um caminho mais autônomo para suas filhas. Lembrando que nem toda mulher sequer deseja casar ou ter filhos.