Gostaria de ter aprendido a circular no espaço público com desenvoltura, sem me preocupar em ser discreta para não chamar atenção. De não temer o olhar intimidante de desconhecidos na rua e de responder à altura às grosserias ouvidas. De não precisar estar maquiada, de unha feita, depilada, escovada, para me sentir arrumada como um homem se sente, sem que ele tenha feito nada disso. De não precisar me preocupar em variar o modelo das roupas a cada evento: ter um terno e gravata para todas as ocasiões e ser considerada elegante. De não temer o envelhecimento por ele me fazer valer menos que um homem branco da mesma idade que eu.
Gostaria de ter aprendido, desde muito cedo, a ser assertiva, sem me preocupar se estou contrariando ou decepcionando alguém. De competir com desenvoltura e ganhar sem me preocupar com o constrangimento de ver um homem perdendo para uma mulher, sem a sensação de que fiz algo errado, sem medo de retaliação. De acreditar que posso ser cuidada por meu companheiro tanto quanto cuido dele, mesmo que tenhamos tarefas diferentes. De saber que, quando encerramos o expediente de trabalho, dentro ou fora de casa, estamos quites. O jogo zera, e ambos têm as mesmas incumbências, seja com o serviço doméstico, com os filhos ou, simplesmente, um com o outro.







