Trump endurece o tom e ameaça bombardear pontes e centrais elétricas do IrãApós uma nova rodada de bombardeios americanos e relatos de explosões em diferentes regiões do Irã, o presidente americano Donald Trump ameaçou ampliar os alvos. Crédito: various sources / AFPGerando resumoQuando o presidente Dwight Eisenhower foi às Nações Unidas em 1953 para oferecer aos países tecnologia e conhecimento nuclear em troca da promessa de uso pacífico, a política recebeu um nome memorável: “Átomos para a Paz”. Sete décadas depois, ela poderia receber um nome menos idealista: *nuclear hedging* (estratégia de salvaguarda nuclear ou posicionamento estratégico nuclear).PUBLICIDADEO acordo nuclear civil do presidente Trump com a Arábia Saudita, anunciado nesta semana, reflete um mundo volátil no qual os aliados dos EUA buscam capacidades nucleares como forma de proteção contra vizinhos predatórios, interrupções prejudiciais no fornecimento de energia e a redução do “guarda-chuva de segurança” dos Estados Unidos. Reflete também uma Casa Branca ávida por negócios lucrativos para empresas americanas, disposta a flexibilizar padrões de não proliferação para um parceiro privilegiado em uma região perigosa.O acordo com a Arábia Saudita poderia, futuramente, permitir ao país enriquecer combustível para reatores nucleares e limitar os locais que inspetores internacionais poderiam visitar para verificar se as intenções são pacíficas. Ambas as concessões — inéditas em acordos nucleares civis americanos recentes — alimentarão receios de que os sauditas possam mudar de rumo e iniciar um programa de armas nucleares.PublicidadeO príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, não esconde essa possibilidade. Ele alertou que, se o Irã obtiver uma bomba nuclear, os sauditas farão o mesmo.O presidente dos EUA, Donald Trump, e o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, durante uma reunião bilateral em Riad, em 13 de maio de 2025 Foto: Brendan SMIALOWSKI / AFPTrump tentou dissipar essas preocupações na quinta-feira, declarando que o acordo se limitava a usos civis da tecnologia nuclear. No entanto, dado o histórico controverso de acordos desse tipo e a falta de detalhes específicos sobre este em particular, dificilmente seus comentários acalmariam as preocupações quanto a uma nova corrida armamentista global.“Estamos de volta a uma era de *nuclear hedging*”, disse Vipin Narang, professor de segurança nuclear e ciência política no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “Há muitos países nervosos, enfrentando uma situação de segurança em deterioração, que não têm certeza se podem contar com seus protetores formais ou informais.”Publicidade“Veremos uma onda de Estados buscando a capacidade de desenvolver um programa militar” que poderia resultar em uma arma, disse o professor Narang, que trabalhou com política nuclear no Pentágono durante o governo Biden.Gary Samore, professor de política na Universidade Brandeis e consultor em negociações de controle de armas durante os governos Obama e Clinton, afirmou que esses países são, por vezes, chamados de “proliferadores amigáveis”.Nem todos — ou talvez nenhum deles — chegarão a buscar uma bomba, segundo os especialistas. O último país a ingressar no clube dos Estados com armas nucleares foi a Coreia do Norte, em 2006. No entanto, a situação aponta para um novo período de riscos, no qual o mercado global de energia nuclear pode se tornar mais desregulado e menos sujeito a normas. Compradores de tecnologia nuclear, inquietos com a mudança na postura global dos Estados Unidos, provavelmente farão exigências maiores, ao passo que vendedores rivais, como Rússia e China, poderão aproveitar o precedente saudita para atendê-las.PublicidadeO presidente dos EUA, Donald Trump, com o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman em Riad, em 14 de maio de 2025. Foto: Brendan SMIALOWSKI / AFP“Isso está fortemente ligado aos danos que Trump causou à credibilidade dos EUA como fiadores da segurança”, afirmou Samore.Em países como Alemanha, Polônia, Coreia do Sul e Japão, governos que não possuem armas nucleares debatem a necessidade de adquiri-las. A Coreia do Sul, ameaçada pelo Norte armado com ogivas nucleares, iniciou um plano para desenvolver uma frota de submarinos de propulsão nuclear, com o apoio dos Estados Unidos.O ministro da Defesa do Japão, Shinjiro Koizumi, declarou nesta semana que seu país precisa enfrentar a questão do papel das armas nucleares em sua defesa, apesar da aversão histórica enraizada na destruição de Hiroshima e Nagasaki durante a guerra.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO presidente da Polônia, Karol Nawrocki, afirmou que seu país deveria buscar um programa nuclear, enquanto o chanceler alemão Friedrich Merz integrou um grupo de alto nível sobre questões nucleares com a França e outras nações europeias.A França, que ao lado da Grã-Bretanha é uma das duas potências nucleares da Europa Ocidental, comprometeu-se a ampliar seu arsenal e oferecer uma forma de dissuasão estendida aos seus vizinhos para compensar a retração dos EUA sob o governo Trump. Em um gesto de cooperação, Paris enviou recentemente um caça com capacidade nuclear para uma base aérea alemã.“O próximo meio século será uma era de armas nucleares”, disse o presidente francês Emmanuel Macron em março. Ele anunciava a mudança na doutrina nuclear de seu país para uma estratégia de “dissuasão avançada” — o uso das armas nucleares francesas para prevenir ataques a territórios além de suas próprias fronteiras.PublicidadeDurante esse discurso, Macron falou de um mundo repleto de pontos críticos de tensão nuclear: Índia, Paquistão, Coreia do Norte e China. No entanto, especialistas afirmaram que a oferta francesa de dissuasão aos vizinhos europeus poderia reduzir o interesse dos aliados em adquirir capacidades nucleares. Embora um “guarda-chuva nuclear” francês não substituísse o fornecido pelos Estados Unidos, ele ainda poderia atuar como um fator de dissuasão.O presidente da França, Emmanuel Macron Foto: Michel Euler / POOL / AFP“A melhor ferramenta de não proliferação que os EUA já tiveram são as suas alianças militares”, disse Matthew Fuhrmann, professor de estudos de segurança na Universidade do Texas. “Se os EUA não tivessem estendido a proteção nuclear a tantos países, estaríamos em um mundo com mais Estados possuidores de armas nucleares.”O papel ampliado da França, segundo ele, reduziria o risco de outros países europeus buscarem obter uma arma. “Mas não creio que isso diminua o desejo deles de se precaverem”, acrescentou, observando que o simples fato de possuir um programa nuclear civil confere aos países poder de negociação junto a potências nucleares como os Estados Unidos.Há uma certa ironia no fato de a França desempenhar um papel moderador, visto que, historicamente, o país tem sido um dos mais prolíficos vendedores de tecnologia nuclear. A França ajudou a desenvolver programas nucleares em Israel, no Iraque e no Paquistão.O ritmo dos acordos nucleares civis havia diminuído nos últimos anos, disse o professor Fuhrmann, em parte porque a demanda global por energia nuclear despencou após o acidente nuclear de Fukushima, no Japão, em 2011. No entanto, as preocupações com a segurança energética aumentaram após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 e cresceram novamente depois que o conflito envolvendo os EUA, Israel e o Irã levou Teerã a interromper o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.Leia tambémTrump condiciona acordo nuclear com Arábia Saudita à adesão do país aos Acordos de Abraão; entendaCâmara dos EUA aprova orçamento recorde de defesa de US$ 1,15 trilhãoAo fechar um acordo com os Estados Unidos, a Arábia Saudita segue os passos dos Emirados Árabes Unidos, que assinaram um acordo nuclear civil com a administração Obama em 2009. Esse acordo não permitia que os Emirados enriquecessem combustível nuclear — bloqueando assim o caminho para a produção de armas — e previa inspeções rigorosas. Especialistas o classificaram como o “padrão-ouro” da não proliferação.PublicidadeAlém de flexibilizar essas restrições, Trump inicialmente abandonou uma condição defendida por seu antecessor, o presidente Joseph R. Biden Jr.: a de que a Arábia Saudita normalizasse as relações com Israel. Na quinta-feira, Trump mudou de posição e afirmou que estava, de fato, tornando isso uma exigência do acordo. O governo saudita não comentou de imediato, mas deixou claro repetidamente que não reconheceria Israel sem também estabelecer um caminho para a criação de um Estado palestino.Segundo analistas, as concessões originais do acordo refletiam o reconhecimento, por parte de Trump, de que a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã havia desestabilizado a Arábia Saudita e toda a região.“Este acordo é uma confirmação tangível da erosão da confiança e da credibilidade de Washington em decorrência da guerra contra o Irã”, disse Suzanne Maloney, especialista no Irã e vice-presidente e diretora do programa de Política Externa da Brookings Institution, uma organização de pesquisa sediada em Washington.Publicidade“Os líderes do Golfo não têm alternativa realista ao ‘guarda-chuva’ de segurança dos EUA”, acrescentou ela, “mas também estão vendo evidências diretas de suas limitações e vulnerabilidades. Por isso, estão determinados a ampliar sua autonomia e suas capacidades.”Como a guerra no Irã está espalhando caos no mundo?Aumento nos preços dos combustíveis e energia por causa do fechamento do Estreito de Ormuz tem provocado protestos e tumultos em muitos países. Crédito: Carolina Marins (roteiro), Ariel Liborio (edição), Vitória Schmitz (produção) e Felipe Pedro (fotografia)A guerra contra o Irã serve como mais um desestímulo para que países busquem desenvolver programas de armamentos. Com suas instalações nucleares reduzidas a escombros, quaisquer ambições que o Irã tivesse de produzir uma bomba sofreram um revés. No entanto, isso pode ter um efeito ambíguo, uma vez que outras nações que aspiram ao status de potência nuclear poderiam concluir que a melhor maneira de evitar ataques preventivos desse tipo é alcançar tal status o mais rápido possível.Conceder benefícios à Arábia Saudita provavelmente não colocará Riad no caminho para obter uma bomba tão cedo, afirmaram os especialistas. O reino está começando do zero na corrida nuclear, e levaria anos para desenvolver uma capacidade própria de produzir urânio com grau de pureza para armas.PublicidadeContudo, outros países com capacidades mais avançadas podem exigir as mesmas condições. Eles poderiam obter sucesso caso os Estados Unidos deixem de manter a postura de não fornecer tecnologia sensível de enriquecimento a Estados que não possuem armas nucleares.“Para mim, o perigo deste acordo reside no precedente que ele cria”, disse Samore. “O que impediria a Rússia de fechar um acordo semelhante?”
Acordo entre EUA e Arábia Saudita amplia temor de uma corrida nuclear global
Na Europa, Ásia e Oriente Médio, os países buscam capacidades nucleares para se protegerem de vizinhos agressivos e de um Washington cada vez menos influente, o que pode criar uma era de maior liberalização













