O governo do presidente Donald Trump apoia um acordo de cooperação em energia nuclear com a Arábia Saudita que permitiria a Riad enriquecer urânio e reprocessar combustível nuclear usado, disseram duas fontes, em uma medida que pode preocupar países da região receosos da proliferação de armas nucleares. A seguir, os principais pontos da questão: O presidente dos EUA, Donald Trump, e Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, durante o Fórum de Investimento EUA-Arábia Saudita no Kennedy Center em Washington — Foto: Stefani Reynolds/Bloomberg O que aconteceu até agora? Washington e Riad discutem há anos um acordo de cooperação nuclear que daria à Arábia Saudita acesso à tecnologia americana e abriria caminho para que empresas dos EUA conquistassem contratos de grande porte para instalações nucleares sauditas. Como ocorre com qualquer tecnologia nuclear, preocupações com segurança, proliferação de armas e as complicações políticas em uma região altamente instável sempre estiveram no centro das negociações. Assim como todos os signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), a Arábia Saudita já se comprometeu a não desenvolver uma bomba atômica e aceitou inspeções internacionais. Tradicionalmente, porém, Washington buscava salvaguardas adicionais. Duas fontes disseram à Reuters nesta semana que o governo Trump está pronto para apresentar um acordo ao Congresso. Segundo essas fontes, porém, o pacto não inclui o chamado "padrão-ouro", que proíbe a Arábia Saudita de enriquecer urânio e reprocessar combustível nuclear usado — dois possíveis caminhos para produzir material destinado a uma ogiva nuclear — nem um "protocolo adicional" de supervisão internacional reforçada. Essas omissões provavelmente preocuparão aliados dos EUA no Oriente Médio, incluindo Israel, e levantarão questionamentos sobre a coerência da política americana, já que uma das justificativas para a guerra dos EUA contra o Irã neste ano foi justamente a recusa de Teerã em abandonar seu programa de enriquecimento de urânio. Também pode haver resistência no Congresso americano, cujos parlamentares já exigiram anteriormente salvaguardas rigorosas para qualquer acordo. Por que a Arábia Saudita quer um programa nuclear? Como maior exportador mundial de petróleo, a Arábia Saudita pode não parecer uma candidata óbvia à energia nuclear. No entanto, o reino pretende reduzir suas emissões de carbono e liberar mais petróleo para exportação como parte do plano econômico Visão 2030, do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos informou, em 2024, que 68% da eletricidade saudita era gerada com gás e 32% com petróleo, sendo que, no pico de consumo em junho, cerca de 1,4 milhão de barris de petróleo por dia eram utilizados para geração de energia. A energia nuclear poderia substituir parte desse consumo, inclusive em atividades de alto consumo energético, como dessalinização da água do mar e ar-condicionado, permitindo ao reino obter mais receita com as exportações de petróleo. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita afirmou que, se o rival histórico Irã desenvolver uma arma nuclear, também precisará fazê-lo. A declaração aparentemente buscou aumentar a pressão sobre Teerã, mas também alimentou preocupações sobre as próprias ambições nucleares sauditas. Muitos países que utilizam energia nuclear não enriquecem urânio em seu território, preferindo importar combustível já enriquecido para abastecer seus reatores. Mas, em janeiro de 2025, a Arábia Saudita afirmou que passaria a enriquecer urânio, um processo que também pode fazer parte de um programa militar, para produzir “yellowcake”, um concentrado de urânio destinado à geração de energia nuclear e que poderia ser comercializado. Bandeiras dos EUA e da Arábia Saudita tremulam ao longo de uma rodovia de Riade, como visto através do vidro de um carro, antes da chegada do presidente dos EUA, Donald Trump, a Riade, Arábia Saudita , em 12 de maio de 2025 — Foto: REUTERS/Hamad I Mohammed/Foto de Arquivo O que os Estados Unidos ganham com isso? Os benefícios podem ser estratégicos e comerciais. A cooperação nuclear civil era um dos principais incentivos, juntamente com garantias de segurança, na tentativa do governo do ex-presidente Joe Biden de negociar um acordo para a normalização das relações entre Arábia Saudita e Israel. Entretanto, como a Reuters informou, essas duas questões deixaram de estar vinculadas, embora um acordo nuclear ainda possa servir como incentivo nas negociações diplomáticas dos Estados Unidos com o reino. Riad já afirmou que não normalizará relações com Israel sem a criação de um Estado palestino. O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, reuniu-se no ano passado com o ministro da Energia saudita, príncipe Abdulaziz bin Salman, e afirmou que os dois países estavam "no caminho" para um acordo de cooperação nuclear civil. Ele não mencionou qualquer negociação mais ampla envolvendo temas como a normalização com Israel. Um acordo colocaria a indústria americana em posição privilegiada para conquistar contratos de construção de usinas nucleares sauditas, além de proporcionar aos Estados Unidos maior conhecimento sobre o programa atômico do reino, o que poderia reduzir preocupações relacionadas à proliferação de armas nucleares. Pela Seção 123 da Lei de Energia Atômica dos Estados Unidos, de 1954, Washington pode negociar acordos de cooperação nuclear civil significativa com outros países. A legislação estabelece nove critérios de não proliferação que esses países devem cumprir para impedir que utilizem a tecnologia para desenvolver armas nucleares ou transfiram materiais sensíveis a terceiros. A lei americana também determina que esse tipo de acordo seja submetido à análise do Congresso. A Arábia Saudita tem outras opções Caso o acordo entre Estados Unidos e Arábia Saudita fracasse, mesmo nesta fase avançada das negociações, diversos países com setores nucleares consolidados já demonstraram interesse ou são vistos como potenciais parceiros do programa nuclear saudita. A estatal chinesa China National Nuclear Corp (CNNC), por exemplo, apresentou uma proposta em 2023 para construir uma usina nuclear no país. A estatal russa Rosatom, responsável pela construção de uma usina nuclear no Egito, também assinou acordos preliminares de cooperação com Riad. Outros possíveis concorrentes incluem a Coreia do Sul, que construiu reatores nos Emirados Árabes Unidos, e a França. A escolha do parceiro provavelmente dependerá das soluções tecnológicas oferecidas, das condições de financiamento e do alinhamento geopolítico, incluindo exigências relacionadas ao tratamento do combustível nuclear. O presidente dos EUA, Donald Trump (à direita), e Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita, na Casa Branca, em Washington — Foto: Nathan Howard/Politico/Bloomberg Enriquecimento de urânio Uma questão central é se Washington concordaria em construir uma instalação de enriquecimento de urânio em território saudita, quando isso ocorreria e se técnicos sauditas teriam acesso às instalações ou se elas seriam operadas exclusivamente por funcionários americanos em um modelo de "caixa-preta". Sem salvaguardas rigorosas incorporadas ao acordo, a Arábia Saudita, que possui reservas de minério de urânio em seu território, poderia, em tese, utilizar uma instalação de enriquecimento para produzir urânio altamente enriquecido que, após purificação suficiente, pode gerar material físsil para bombas nucleares. Uma fonte disse à Reuters que o acordo proposto cria uma base legal para cooperação no ciclo do combustível nuclear, que inclui o enriquecimento de urânio, mas não obriga Washington a transferir ao reino qualquer tecnologia ou capacidade relacionada a esse processo. Também há implicações diplomáticas: Israel, principal aliado dos Estados Unidos na região, já manifestou repetidamente oposição à ideia de um programa nuclear civil saudita.
Por que um acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita causa preocupação?
Trump aprovou cooperação nuclear com Riad que permitiria ao país do Oriente Médio a enriquecer urânio











