PUBLICIDADEÀs vésperas de completar 250 anos de independência, os Estados Unidos enfrentam uma pergunta inevitável sobre o futuro de sua democracia: como interpretar as estratégias inéditas de Donald Trump para corroer as instituições, que englobam o não reconhecimento de sua derrota nas eleições de 2020, os ataques pessoais e as investigações criminais contra desafetos políticos — de James Comey, ex-diretor do FBI, a Letitia James, procuradora-geral de Nova York que havia processado o presidente por fraude — e a fortuna que acumulou desde a volta ao poder. A estratégia política de Donald Trump, inédita na história do país e capaz de desorientar analistas nos EUA, tende a causar menos espanto no resto do mundo Foto: Julia Demaree Nikhinson/AP PhotoPUBLICIDADEA família Trump obteve ao menos US$ 2,3 bilhões com criptomoedas em cerca de um ano e meio de mandato, entre conflitos de interesse flagrantes, com o próprio governo moldando as regras do setor que o enriquece. O repertório inclui o desejo de estampar seu nome em prédios e obras públicas — do Kennedy Center, centro cultural em Washington, ao aeroporto internacional da capital —, impulso que agora se estende aos próprios documentos oficiais. O novo passaporte comemorativo dos 250 anos de independência estampa a imagem do presidente em seu interior. Há poucos motivos para crer que Trump reconhecerá uma eventual derrota nas eleições de meio de mandato deste ano — seu governo já promoveu, sem provas, teorias de fraude nas primárias em junho para os cargos de governador da Califórnia e de prefeito de Los Angeles.Paradoxalmente, observadores internacionais têm uma vantagem sobre os estadunidenses na hora de avaliar esse cenário. Afinal, a estratégia política de Donald Trump, inédita na história do país e capaz de desorientar analistas nos EUA, tende a causar menos espanto no resto do mundo. O que se configura como uma anomalia histórica na maior potência do planeta, em boa parte do mundo, é um roteiro mais conhecido, e muitos países já passaram por circunstâncias semelhantes no passado. Quem acompanha a política latino-americana reconhece de imediato, no personalismo e no apelo direto às massas, a figura do caudilho; húngaros brincam com a “orbanização” da política em Washington; e analistas africanos reconhecem a figura do strongman (homem forte), comum a uma parte dos regimes do continente — traço perceptível na forma como Trump trata líderes estrangeiros, privilegiando negócios pessoais e lealdades em vez de instituições.Numerosos países passaram por situações semelhantes. No México, o candidato Andrés Manuel López Obrador rejeitou as próprias derrotas de 2006 e 2012, chegando a proclamar-se “presidente legítimo”; já na Presidência, promoveu reformas eleitorais e judiciais que enfraqueceram os freios e contrapesos do país. Na República Dominicana, o presidente Rafael Trujillo rebatizou, em 1936, a capital de Ciudad Trujillo; no Turcomenistão, Saparmurat Niyazov deu o próprio nome a um mês do calendário. Na Argentina, Juan Perón promoveu um culto a sua personalidade. No Reino Unido, Boris Johnson liderou a campanha pelo Brexit, sustentada em desinformação sistemática, e, como primeiro-ministro, suspendeu o Parlamento por cinco semanas em 2019, numa manobra que a Suprema Corte declarou ilegal. Para quem vive longe de Washington, não há novidade: o vocabulário para descrever esse tipo de liderança já existia muito antes de chegar aos Estados Unidos. Trump, portanto, “desexcepcionalizou” a política do país, cuja história é marcada por uma impressionante estabilidade institucional.Veja mais Trump anuncia retomada de ataques no Oriente Médio e ameaça ‘existência’ do IrãEdição do passaporte americano terá a imagem de Trump; ‘Passaporte patriota’, adjetiva Casa BrancaA grande surpresa, de fato, não é que alguém como Trump tenha surgido nos EUA, mas por que tenha demorado mais de dois séculos para que uma figura assim chegasse – e retornasse – à Casa Branca. Os Estados Unidos figuram entre os pouquíssimos países que mantiveram a mesma Constituição desde a fundação, nunca sofreram um golpe de Estado bem-sucedido e, até Trump, jamais tiveram um presidente que se recusasse a reconhecer uma derrota nas urnas. Desde a decisão de George Washington de não se perpetuar no poder, em 1796, até a longa sucessão de transferências pacíficas de mandato, o país construiu normas que, por gerações, impediram o culto à personalidade, tão comum na história política de países ao redor do mundo. Enquanto democracias menos consolidadas viram caudilhos ascenderem, os Estados Unidos mantiveram um governo em grande parte impessoal — uma estabilidade que foi um dos ingredientes decisivos para explicar a transformação do país em potência global. PublicidadeAnalisar casos semelhantes de enfraquecimento institucional é essencial para avaliar até que ponto Trump conseguirá erodir essa longa tradição estadunidense – e como os EUA poderá se recuperar dela. Aos 250 anos de independência, o país descobre que sua excepcionalidade nunca esteve no fato de ser imune ao personalismo, mas no de ter construído instituições capazes de contê-lo — e que essa proteção, longe de ser permanente, precisa ser reconquistada a cada geração.