Especialistas apontam para expansão dos poderes do Executivo após retorno de Trump à Presidência, pressionando instituições e testando o sistema de pesos e contrapesos que ainda impedem escalada autoritária Protesto contra o presidente dos EUA, Donald Trump, em Saint Paul: aprovação do republicano despencou em 2026 — Foto: KEREM YUCEL/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 25/05/2026 - 16:23 Especialistas Avaliam Riscos à Democracia com Possível Retorno de Trump Especialistas alertam para riscos à democracia nos EUA com o retorno de Trump à presidência, destacando a expansão dos poderes do Executivo. O índice democrático caiu significativamente, e analistas apontam para possíveis danos permanentes. A resistência institucional persiste, mas as cicatrizes são profundas, com a política americana agora marcada por uma retórica belicosa e alterações nos hábitos políticos tradicionais. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Derrotado pela Suprema Corte em seus planos de política tarifária, enfrentando uma perda vertiginosa de popularidade e enredado em uma guerra que parece sem saída no Oriente Médio, o presidente americano, Donald Trump, parece já não ser o rolo compressor que, no ano passado, ignorava a oposição e acumulava poderes. Seus aliados vêm perdendo disputas locais e as projeções para as eleições de meio de mandato, em novembro, são de uma clara derrota para os republicanos. A mudança dos ventos também altera o cenário das análises políticas. O ano de 2025 foi marcado por alertas de que a democracia americana corria o perigo iminente de se tornar uma autocracia. Em setembro passado, uma enquete publicada pela Bright Line Watch, associada ao Centro para Democracia da Universidade de Chicago, reduziu o índice democrático do país de 79, em 2024, para 57, em 2025, em uma escala de 100. É o mais baixo desde o início da iniciativa, em 2017. A previsão mais lúgubre foi apresentada pelos cientistas políticos Steven Levitsky, Daniel Ziblatt e Lucan Way, os dois primeiros autores do best-seller “Como as Democracias Morrem”. Em fevereiro, no rescaldo da captura de Nicolás Maduro em Caracas, o trio publicou um artigo na revista Foreign Affairs afirmando que, antes do fim do atual mandato, os Estados Unidos teriam se tornado um regime “autoritário competitivo”, aquele em que há disputa entre partidos, mas o chefe do Poder Executivo é capaz de punir e excluir seus adversários, perpetuando-se no poder. Cicatrizes profundas Em 2026, o tom das análises mudou, e a pergunta é sobre até que ponto a democracia americana foi danificada por Trump. Medidas como a demissão de funcionários públicos identificados como adversários, as investigações contra oponentes, ou o envio de tropas federais a cidades democratas vão se tornar o novo normal? A maioria dos analistas ainda considera que, no essencial, a democracia vai sobreviver. Mas as cicatrizes serão profundas. “A equipe de Trump erodiu sistematicamente a democracia americana, mas as estruturas institucionais básicas não foram quebradas. Não está claro até que ponto pretendem ir, porém instituições como os tribunais e o Legislativos estão intactas. Os processos democráticos centrais estão funcionando”, afirmam, por e-mail, os cientistas políticos Thomas Carothers e McKenzie Carrier, do Fundo Carnegie para a Paz Internacional. Em agosto do ano passado, Carothers e Carrier publicaram o estudo “Retrocesso Democrático nos EUA em Perspectiva Comparada”, em que cotejaram o que se passa nos EUA com países que tiveram experiências parecidas, como Hungria, Polônia, Turquia e também o Brasil. “A restauração da democracia americana vai enfrentar as mesmas barreiras de outras democracias em recuperação: a polarização tóxica e profunda e a resistência de membros da oposição que ainda ocupam cargos no governo. Mas a ausência de uma derrocada institucional completa sugere que restaurar o comportamento democrático será possível”, argumentam. Uma expressão usada para explicar os mandatos de Trump é “expansão do Executivo”, um processo em que o presidente incorpora prerrogativas de outros poderes. O fenômeno se verificou em outros países que também passaram por retrocessos democráticos, mas o caso americano tem uma particularidade, apontam Carothers e Carrier. Ali, a figura presidencial adquire poderes extraordinários, o que tem levado Trump a ser considerado um líder “imperial”. — A democracia está em situação pior do que eu esperava, mas está sobrevivendo e vai sobreviver, embora ferida e deteriorada — diz o cientista político Kurt Weyland, da Universidade de Austin, no Texas, e autor de “A Resiliência da Democracia à Ameaça Populista” (2024). — Trump foi mais agressivo e transgressor do que eu imaginava e pressionou bastante as instituições americanas. Weyland contrasta a agressividade do Trump de 2025 com a paulatina resistência que se estabeleceu desde então. Para ele, o presidente “foi longe demais, a tal ponto que até alguns republicanos finalmente demonstraram oposição”, citando problemas em campos como a economia e a imigração. — No longo prazo, a dificuldade em descrever o efeito de Trump é que a degradação da democracia não é linear e não acontece de uma vez — diz o cientista político Roberto Foa, co-fundador do Centro para o Futuro da Democracia da Universidade de Cambridge. Em 2021, Foa publicou com o cientista político Yascha Mounk, o artigo “Os EUA Depois de Trump: da democracia ‘limpa’ à ‘suja’”, argumentando que o primeiro mandato de Trump encaminhou o país a um estado em que os partidos se sentem justificados em usar todos os meios para vencer. Ele evoca o Peru de Alberto Fujimori, que nos anos 1990 enfraqueceu mecanismos de equilíbrio democrático. — Em seguida, houve retornos à política mais moderada, seguidos de novas erosões, e assim segue até hoje — afirma, explicando a importância das eleições de novembro. — A depender do tamanho das perdas republicanas e do movimento de Trump em particular, a capacidade de fazer regredir a democracia pode perder muito. Sucessor de Trump Mais decisiva, porém, é a eleição de 2028. Não só pelo resultado, mas pelo perfil do candidato republicano. — Com um partidário radical de Trump, como o vice-presidente JD Vance, a política deve continuar se esgarçando. Mas se tivermos alguém como [o secretário de Estado] Marco Rubio, o cenário pode se aproximar de um conservadorismo mais normal — diz Foa. Segundo analistas, o impacto mais duradouro da retórica belicosa e das medidas de concentração de poder de Trump é a mudança nos hábitos políticos americanos. A expectativa de que os atores políticos sempre respeitarão os mecanismos institucionais e a voz das urnas não se perdeu, mas está abalada. Entrou para o imaginário do cidadão americano, na condição de possibilidade realista, a perspectiva de um autocrata na antiga “terra da liberdade”. Esse efeito produz suas marolas bem além das fronteiras do país: como aponta Weyland, há uma grande perda de “soft power” quando o país que se apresentou durante décadas como centro da democracia mundial passa a ser visto como disfuncional e como uma ameaça para o resto do mundo.