Steven Levitsky vê nas eleições de novembro, em meio ao rechaço recorde ao Trump 2.0, detectado nas pesquisas, como teste decisivo para a saúde de uma democracia tão longeva quanto frágil 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trump chega para discursar durante comício de lançamento da 'Great American State Fair' (Grande Feira Estadual Americana) no National Mall, em 24 de junho de 2026, em Washington, DC — Foto: Andrew Harnik / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 17:24 Steven Levitsky reflete sobre a fragilidade da democracia dos EUA aos 250 anos de independência No aniversário de 250 anos da independência dos EUA, Steven Levitsky, autor de "Como as democracias morrem", reflete sobre a fragilidade da democracia americana. Ele destaca as eleições de novembro como um teste crucial, em meio ao repúdio ao "Trump 2.0". Levitsky critica a personalização da celebração por Trump e alerta sobre ameaças à integridade eleitoral, enquanto minimiza a influência de Trump nas eleições latino-americanas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Os Estados Unidos completaram ontem 250 anos da formalização de sua independência do Reino Unido e do início do primeiro experimento republicano nas Américas. Os festejos oficiais, em meio à Copa do Mundo no país, planejados por uma comissão criada no governo Barack Obama, foram capturados pelo presidente Donald Trump e incluíram o disparo recorde de 850 mil fogos de artifício na capital. Mas bater palmas para o aniversariante “é insuficiente” neste momento, afirma o cientista político Steven Levitsky. Em entrevista ao GLOBO por videochamada, ele destaca o paradoxo de celebrar a democracia nos EUA “ao mesmo tempo em que a estamos perdendo”. Trump buscou a interseção entre o sonho imperfeito dos fundadores da nação, inspiração para países nos quatro cantos do planeta, e seu próprio legado. Entre outras ações milionárias, comandou uma remodelação dourada de Washington, bolou sua versão do Arco do Triunfo e imprimiu seu nome em edifícios públicos, navios de guerra e até no passaporte do país. Ressaltou o “avanço à autocracia em velocidade inédita”, tal qual denunciado pelo autor de “Como as democracias morrem” (Cia das Letras). O professor da Universidade Harvard vê nas eleições de novembro, quando o Congresso será renovado em meio ao rechaço recorde ao Trump 2.0, detectado nas pesquisas, como teste decisivo para a saúde de uma democracia tão longeva quanto frágil. E convoca os cidadãos a atentarem para a tentativa de interferência da Casa Branca no processo antes, durante e depois do voto. Levitsky é bem mais cético sobre a capacidade do presidente americano de interferir nas eleições do Brasil em outubro e considera “exageradas” as análises que o apontam como fator decisivo nos pleitos vencidos pela direita na América Latina desde sua segunda posse, em janeiro de 2025. Steven Levitsky, cientista político — Foto: Divulgação Leia aqui os principais trechos da entrevista: Neste fim de semana, os americanos devem se orgulhar do impressionante feito de 250 anos de democracia ininterrupta ou atentar para o estado vacilante das instituições e defendê-la das ameaças vistas no segundo governo Trump? Um pouco de cada. Há muito a celebrar sobre o que se iniciou há dois séculos e só foi concluído nos anos 1960 [após as conquistas dos direitos civis pelos cidadãos negros]. Mas, neste 4 de Julho, celebramos os investimentos feitos por tantos na democracia ao mesmo tempo em que a estamos perdendo. Aqui, somos ágeis em bater bumbo para as conquistas, porém lentos em reconhecer os fracassos. Devemos, sim, festejar, mas de prontidão, para agir e defender a democracia e as instituições desenhadas para sustentá-la. Bater palmas, neste momento, é insuficiente. Eleições justas são condicionantes para a democracia. Está preocupado com a integridade do pleito de novembro? Sim. E por um motivo concreto. Na vez anterior em que Trump estava na Casa Branca durante as eleições presidenciais [em 2020, quando perdeu para Joe Biden, do Partido Democrata], tentou roubá-las. Hoje, estão no Executivo e no comando do Legislativo indivíduos com histórico documentado de tentativa de manipulação de pleito. A Casa Branca considera usar agentes de imigração para intimidar o voto dos latinos, contestar resultados contrários ao seu interesse e não empossar os eleitos. Essas ameaças sequer incluem o que já está em curso. As eleições de novembro podem ser classificadas desde já como injustas, não só pela tentativa de dificultar o acesso às urnas de determinados eleitores, mas pela restrição total à representação de parte deles. Refere-se às modificações nos distritos eleitorais em diversos estados, que em sua maioria beneficiaram o Partido Republicano? Sim. A fraude eleitoral orquestrada pelo governo é dificultada pela descentralização do processo, conduzido por funcionários locais. Mas a mudança das regras no meio do jogo oferece a possibilidade real de os republicanos seguirem com maioria na Câmara mesmo se os democratas receberem a maioria dos votos. No Sul, o Partido Republicano confirmou, durante esse processo, sua transformação em agremiação “etnonacionalista”, decidida a enterrar os direitos civis dos negros. Busca eliminar novamente do jogo democrático 30% da população de estados profundamente marcados pela exclusão racial, com a extinção dos distritos com eleitorado majoritariamente negro, ação escandalosamente antidemocrática. Algo o surpreendeu no avanço autoritário do Trump 2.0? A ofensiva autoritária e o apoio dado a ela pelo Partido Republicano estavam nítidos desde o ano derradeiro do Trump 1.0. O avanço do trumpismo na sigla foi muito mais avassalador do que o do bolsonarismo na direita brasileira. Se, em 2016, a extrema direita e o Faça os EUA Grandes Novamente [Maga, na sigla em inglês] não esperavam a vitória sobre [a ex-secretária de Estado] Hillary Clinton, em 2024 eles tinham um plano detalhado e uma equipe treinada para aplicá-lo de forma efetiva. O que me surpreendeu foi a acomodação das elites na Suprema Corte, no Senado, na mídia, nas universidades, nos escritórios de advocacia, nas corporações. Diferentemente do Brasil, não tivemos, nestes 250 anos, histórico de autoritarismo explícito, e as elites estavam com a guarda baixa. Leram equivocadamente o Trump 2.0 como mero retorno do 1.0. Feio, desagradável, mas não esse ataque inédito à democracia. A elite buscou o apaziguamento, cedeu e, no ano passado, deixou Trump fazer o que quis. Mas isso não mudou com os seguidos fracassos econômicos e políticos, internos e externos, do Trump 2.0? Sim, ainda que lentamente. É importante destacar que o mais animador não veio das elites mais confortavelmente posicionadas para o enfrentamento, mas dos cidadãos comuns. Em Chicago, Los Angeles e Minneapolis, foram eles que reagiram, nas ruas, ao avanço autoritário. São hoje os protagonistas da democracia americana, os que contiveram a ofensiva autoritária trumpista. A um enorme custo, inclusive o de vidas [dois americanos foram mortos por agentes de imigração dos EUA], derrotaram o mais próximo que testemunhei de violência do Estado, com tiques fascistas, neste país. Um mês antes dos EUA, iremos às urnas no Brasil. A Casa Branca se meterá ainda mais explicitamente nas eleições presidenciais de outubro? Muito provavelmente tentará. Mas também muito provavelmente não será bem-sucedida. Ainda mais em um país cujas instituições, ao contrário das daqui, acabaram de responsabilizar devidamente um presidente condenado por tentar um golpe. O Trump 2.0 interveio no Brasil como poucas vezes se viu na História recente dos EUA, mas o governo Lula foi capaz de se desviar de forma inteligente da pressão, e Washington pouco tem a comemorar aí. Aliás, a influência interna e externa de Trump é superestimada. De que modo? Um exemplo é a percepção de que Trump influenciou decisivamente as eleições no Peru e na Colômbia. Sou cético de que o impacto tenha sido decisivo e mais ainda em relação ao Brasil em outubro. Não devemos subestimar quantos votaram nos últimos meses na Colômbia, no Peru, na Bolívia, no Chile, por razões internas, ciosos do aumento da criminalidade. Segurança é pauta que ajuda a direita. A ela se juntou o sentimento antigoverno, uma realidade das democracias de nossos tempos. Os eleitores não escolheram Abelardo de la Espriella na Colômbia ou Keiko Fujimori no Peru porque Trump os preferia. A intervenção atraiu rejeição em sociedades que se sentiram desrespeitadas em sua soberania, como Austrália e Canadá, e isso pode se repetir no Brasil. Na segunda metade dos anos 1970, os EUA também interferiram no jogo político brasileiro, quando o governo Jimmy Carter pressionou a ditadura militar. O Trump 2.0 enterrou qualquer autoridade moral da democracia de 250 anos na região? Sim. Essa autoridade foi desgastada por ele de forma inconteste, e a eventual recuperação será um esforço de décadas. Os EUA apoiaram golpes militares na América Latina durante a Guerra Fria, e uma mudança de rota foi posta em prática, de Carter a Biden, com idas e vindas. Em 2022, relatos dão conta da persuasão de militares brasileiros pela Casa Branca, contrária à tentativa de golpe de Bolsonaro. O problema agora é que não apenas somos incapazes de servir de farol, pois nossa democracia titubeia, como Trump não está minimamente interessado em apoiar forças democráticas. Pelo contrário, como se vê na Venezuela. Tragicamente, não ambicionamos mais ser modelo e sequer apoiadores de outras democracias. Como avalia a intervenção americana na Venezuela? O que aconteceu na Venezuela, e pode se repetir em Cuba, não é intervenção, e, sim, colonização. Washington dita ao patético governo da [presidente interina] Delcy Rodríguez o que fazer, enquanto surrupia o petróleo. A derrubada de Nicolás Maduro criou uma oportunidade para redemocratização, mas a Casa Branca oferece condições para o chavismo se reerguer em novas trincheiras, aliando-se ao colonizador. E o Brasil também falhou. À frente do país mais poderoso da região, Lula poderia ter pressionado mais Maduro. Brasília pode argumentar que fez o melhor que podia. Mas não funcionou. Contribuiu para esse arremedo de colônia americana, o que deveria estarrecer qualquer esquerdista sério. É uma mancha da Era Lula.