Para colunista do Washington Post e apresentador da CNN americana, maior retrocesso democrático em seis décadas não indica que EUA estão ‘descendo uma ladeira sem volta’, e há luz no fim do túnel 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Trump chega para discursar durante comício de lançamento da 'Great American State Fair' (Grande Feira Estadual Americana) no National Mall, em 24 de junho de 2026, em Washington, DC — Foto: Andrew Harnik / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/07/2026 - 17:41 Fareed Zakaria: EUA Podem Reverter Retrocessos Democráticos Recentes Fareed Zakaria, jornalista da CNN e colunista do Washington Post, reflete sobre os 250 anos de independência dos EUA, destacando o retrocesso democrático recente, mas afirmando que o país ainda tem forças para reverter essa situação. Ele critica o uso político de instituições por Trump e aponta a necessidade de reformas estruturais para preservar a democracia americana. Zakaria vê otimismo no ativismo civil e na capacidade de adaptação do sistema democrático. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em seu livro mais recente, “A era das revoluções” (Intrínseca), Fareed Zakaria destrincha ciclos de progresso e retração ao longo dos últimos quatro séculos. Ao observar o cenário de retrocesso democrático nos Estados Unidos justo quando o país celebra seus 250 anos, enumera razões para o planeta inteiro, e não só os americanos, em festa neste fim de semana, arquear as sobrancelhas. Mas também frisa que as forças responsáveis, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e ainda mais velozmente após o da Guerra Fria, pelo maior avanço de pautas liberais da História, não desapareceram. E que o pêndulo, no pós-Trump, como indica o ativismo da sociedade civil americana contra os abusos da polícia de imigração, e especialmente “se o Partido Democrata rumar para o centro”, pode novamente virar. Em entrevista por videochamada ao GLOBO, o colunista do Washington Post e apresentador do GPS, da CNN americana, argumenta que as “políticas da nostalgia”, lá e cá também no Brasil, “têm prazo curto de validade”. E desinflam quando os eleitores percebem que suas promessas “não são reais”. Dá como exemplo “a quimera da reindustrialização subsidiada pelos tarifaços”. “Estes impressionantes 250 anos” reforçam sua tese de que só uma democracia liberal secular é capaz de administrar sociedades contemporâneas “com eficácia”. — Talvez tenhamos que negociar recuos pontuais, mas não vejo como voltar ao passado — afirma. Indiano de Mumbai que chegou aos EUA aos 28 anos, em 1992, Zakaria estudou nas universidades de Yale e Harvard. Ao criticar os abusos cometidos pelos agentes de imigração no Trump 2.0, atesta que os EUA de Bill Clinton “eram mais abertos e acolhedores”. Mas também sublinha a disjunção entre o populismo xenófobo, hoje dominante em Washington, e a vida cotidiana “onde todos se orgulham de suas famílias terem vindo, como eu, de outro canto do planeta”. O país, garante, “apesar de tudo, permanece”. Fareed Zakaria, cientista político e jornalista — Foto: Divulgação/Jeremy P. Freeman O retrato dos EUA hoje recomenda festa ou reflexão? É hora de festa, mas com reflexão atenta. Dois séculos e meio depois de 13 colônias britânicas decidirem fundar seu próprio país, ele se tornou o mais rico e poderoso da História do planeta. E essa realidade, e o que a impulsiona, seu dinamismo, seguem presentes. Cheguei a Nova York em 1992, e hoje a cidade é ainda mais central para a economia global. A revolução da informação por que passamos joga a favor de nossos pontos fortes. Em 1980, quando [o presidente] Ronald Reagan tomou posse, os EUA representavam 25% do PIB global. Desde então, testemunhamos a ascensão da China, da Índia, da América Latina, e este número subiu para 27%, enquanto Europa, Japão e demais países ricos declinaram. É algo notável. Por outro lado, seria imperdoável e imprudente deixar de lado a realidade recente. A do Trump 2.0… Sim. A do maior retrocesso democrático nos EUA em sete décadas. Nos anos 1950, os cidadãos negros eram impedidos de votar no Sul do país, e indivíduos eram presos a partir de sua crença ideológica. De lá para cá, vimos enormes avanços até a atual realidade sombria da decadência democrática. A questão crucial é se esse retrocesso, como o dos anos do macarthismo [período de intensa perseguição política anticomunista nas décadas de 1940 e 1950], também é reversível. Ou se os EUA estão descendo uma ladeira sem volta. Qual a sua avaliação? Uma pista está no vigor da sociedade civil, demonstrado uma vez mais nos centros urbanos, especialmente em Minneapolis. O ativismo foi central para o tamanho da desaprovação do Trump 2.0. E sua eficácia se deu ao mobilizar não apenas a esquerda, mas o centro, que a ela se uniu na reação a atos percebidos como antiamericanos. O desafio, no entanto, segue imenso, pois parte do retrocesso requer mais do que a defesa da democracia nas ruas. Pode dar um exemplo? Trump usa de forma inédita o Departamento de Justiça e os órgãos de inteligência para perseguir inimigos. Nem [o ex-presidente] Richard Nixon chegou a tanto nos anos 1970 [quando foi forçado a renunciar após o escândalo Watergate]. Só se arrumará a casa com uma reforma legal, o que, nos EUA, não é nada fácil. Também é preciso sublinhar o papel da Suprema Corte nesse processo. Ela se moveu, após as nomeações feitas por Trump em seu primeiro mandato, muito à direita. De forma bizarra, ampliou o poder do Executivo e transformou Trump em um superpresidente. Após Watergate, criou-se uma série de normas, valores e comportamentos éticos para evitar novo avanço autoritário e corrupto do Executivo, mas o atual governo, com ajuda da Suprema Corte, atropelou isso. Como sair dessa encrenca? Com mudanças estruturais profundas. Mas, justamente pelo sucesso do experimento democrático americano, a arrogância impera. Há meio século não emendamos a Constituição, mas não há outra saída. O Trump 2.0 escancarou as falhas do sistema político e a necessidade de novos e efetivos contrapesos. A opção é a atual decadência democrática se tornar norma, e a comemoração dos 300 anos de independência se dar em termos ainda mais sombrios. Os americanos irão às urnas para definir, em novembro, quem controlará o Congresso. Qual sua avaliação sobre o pleito? Preocupante. O redesenho maciço dos distritos eleitorais, algo inédito nesse porte, deu enormes vantagens à direita. Estados que votam 55% a 45% para os republicanos foram redesenhados para refletir vantagem irreal de 90% a 10%. Números que dão a dimensão da investida contra a democracia incentivada pela Casa Branca. Mas também me preocupo quando vejo o Partido Democrata ainda mais distante do centro. As primárias têm indicado que eles não entenderam: a impopularidade de Trump, hoje maior do que qualquer outro presidente às vésperas de uma eleição de meio de mandato, não dá carta branca para rumar à extrema esquerda, como se viu em Nova York e no Colorado. Pode funcionar localmente, mas afastará o centro no pleito nacional. Esta é, hoje, na esfera eleitoral, a maior armadilha para a oposição iniciar a reversão ao ataque à democracia. Para além dos EUA, o que testemunhamos hoje com o Trump 2.0 é o ponto final da ordem liberal? Vivemos o maior retrocesso contra as forças da democracia liberal, que vinham crescendo substancialmente desde 1945, mas especialmente após o fim da Guerra Fria. E o retrocesso de hoje é particularmente dos EUA de Trump, que move poder, prestígio e dinheiro para avançar o antiliberalismo. Seu segundo governo representa o retorno a um tipo de olhar extremamente mesquinho e utilitário no pior sentido, alheio ao bem-estar geral do mundo. Suspeito inclusive que o Sul Global, que costumava reclamar do poder e da influência dos EUA, sentirá nostalgia daquele velho mundo guiado pela influência americana. Mas sigo otimista. Testemunhamos uma reação à ascensão avassaladora do liberalismo, [mas] as forças liberais não desapareceram. Os impressionantes 250 anos dos EUA provam que só uma democracia liberal secular pode administrar uma sociedade moderna com grau de eficácia. Talvez tenhamos que negociar alguns recuos, mas não vejo como voltar ao passado. Posso lhe dar um exemplo concreto, do Brasil? Por favor... Quando [o ex-presidente Jair] Bolsonaro foi eleito, conversei com o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Queria entender o bolsonarismo, o cerne de sua agenda. Ele me disse: “Nossa missão é devolver ao Brasil o status de nação cristã, da qual o país se descolou em um mundo pautado pelo multiculturalismo secular”. Era como o [ex-primeiro-ministro] Viktor Orbán na Hungria e grande parte do trumpismo. Estratégia inviável em médio prazo no século XXI. Aqui e aí, vivemos em sociedades abertas, onde as pessoas pensam e agem de formas diversas. As políticas da nostalgia têm prazo de validade e não são realistas. Os EUA, com todos os seus dilemas e retrocessos atuais, não voltará para os anos 1950. E quando os eleitores percebem a impossibilidade das promessas feitas, as coisas começam a mudar.
No aniversário de 250 anos de sua independência, os EUA, apesar de tudo, permanecem, diz jornalista Fareed Zakaria
Para colunista do Washington Post e apresentador da CNN americana, maior retrocesso democrático em seis décadas não indica que EUA estão ‘descendo uma ladeira sem volta’, e há luz no fim do túnel














