PUBLICIDADE Atrás nas pesquisas e a cinco meses das eleições de meio de mandato, Donald Trump busca reforçar imagem de linha-dura contra crime e imigração, em ação que indica ingerência na soberania do Brasil Movimento 'Façam os Estados Unidos Grande de Novo' tem se afastado de Trump — Foto: Brendan Smialowski/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 12:19 EUA Classificam PCC e Comando Vermelho como Terroristas: Impactos e Controvérsias no Brasil A decisão de Washington de classificar PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas reflete ingerência na soberania brasileira e uma visão de América Latina como esfera de influência dos EUA. Tal medida, guiada pelo trumpismo, visa reforçar a imagem linha-dura de Trump contra crime e imigração, influenciando tanto o cenário político interno dos EUA quanto a sucessão presidencial no Brasil, segundo análise de Enrique Roig. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão da Casa Branca, gestada há meses, de classificar como grupos terroristas o Comando Vermelho e o PCC, indica ingerência na soberania brasileira, reforça sua visão da América Latina como área de influência exclusiva de Washington, reafirma a expansão ideológica da direita mundo afora traduzida pela historiadora Anne Applebaum a este blog como um tique bolchevique, e marca o início da interferência direta no pleito presidencial de outubro. Mas também é guiada pelo calendário eleitoral americano e a lógica interna do trumpismo. O anúncio foi feito imediatamente após a visita a Washington do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto e defensor da medida, da qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é opositor ferrenho. E a cinco meses de os americanos irem às urnas para determinar quem comandará o Capitólio nos dois anos finais do segundo mandato de Donald Trump. Se confirmadas as pesquisas, Trump perderá a maioria na Câmara e possivelmente no Senado. Uma derrota maiúscula, que daria ao Partido Democrata a possibilidade de interromper a agenda ultradireitista em vigor nos Estados Unidos desde janeiro de 2025. Com aprovação de apenas 37% na média de enquetes do New York Times e a multiplicação de fraturas na base, que ruma ainda mais a direita, uma das estratégias centrais do Partido Republicano para fazer a militância do Faça os EUA Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês) e pelo menos parte da coalizão vitoriosa em 2024 saírem de casa para votar em novembro é reforçar a imagem de linha-dura da Casa Branca contra o crime e a imigração, coordenadas de forma quase sempre leviana pelos governistas. Se perder o controle da Câmara dos Deputados, Donald Trump deve enfrentar um terceiro processo de impeachment, algo inédito na história dos EUA. E, seguramente, a dor de cabeça da multiplicação do equivalente a CPIs aqui no Brasil. Os congressistas passarão um pente-fino na intersecção dos interesses financeiros dos Trump e de suas empresas com o Estado [leia-se corrupção] e na instrumentalização do Departamento de Justiça para perseguição de adversários. Mas também se debruçarão sobre os abusos cometidos pelos agentes de imigração na deportação em massa de imigrantes, inclusive com a morte de cidadãos americanos, e nos ataques a embarcações no Caribe e no Pacífico. Estas já causaram a morte de mais de 180 pessoas, justificadas pela Casa Branca por estarem a serviço do narcotráfico. Teatro Político Há duas semanas, este blog conversou sobre o tema com Enrique Roig, um dos subsecretários para o Hemisfério Ocidental e África no governo de Joe Biden, do Partido Democrata, e referência na prevenção ao recrutamento de jovens pelo narcotráfico. Na ocasião, ele criticou a abordagem preponderantemente militarizada defendida pelo Trump 2.0 no enfrentamento ao narcotráfico e denunciou a “execução extrajudicial, sem evidência clara de crime e devido processo legal” das pessoas eliminadas por ação militar americana nas embarcações que a Casa Branca afirma estarem transportando ilícitos em direção ao país. Roig afirmou ter certeza de que o Brasil estava diante “de uma questão de soberania nacional e de defesa de sua Constituição”, e que a Casa Branca, no Trump 2.0, já decidira “colocar no mesmo saco” organizações derivadas de facções formadas nos sistemas prisionais de países latino-americanos com cartéis com estrutura globalizada há décadas “para justificar ações militares de monta”. Só faltava o anúncio oficial no caso do Brasil, feito na noite desta quinta-feira (28). A rota é a oposta à da receita apontada por Roig e os principais especialistas no tema, de incremento da cooperação intercontinental, com o combate conjunto dos setores de inteligência à infiltração do crime organizado na política, no Judiciário e no setor financeiro, a interrupção da lavagem de dinheiro e o uso do sistema bancário pelo crime. Aposta-se, afirmou, em ações com efeito curto mas imenso potencial de reverberação nas urnas: — Washington prefere explodir lanchas no Caribe e eliminar chefões do tráfico, como se viu em fevereiro com “El Mencho”, no México, já substituído por pelo menos três outros. Importa mais o teatro político, encenado para consumo interno, ao passar aos eleitores americanos a imagem de firmeza, de linha-dura, estratégia que inclui os abusos denunciados em torno das deportações em massa de imigrantes. No caso do PCC e do Comando Vermelho, sublinhou Roig, a lógica interna do trumpismo casa com exatidão à disputa política da sucessão presidencial no Brasil.