Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington Flávio Bolsonaro em encontro com Donald Trump; Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo também participaram — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/05/2026 - 19:12 Bolsonaristas pedem intervenção de Trump, questionando nacionalismo brasileiro Bolsonaristas, ao solicitarem intervenção de Trump contra facções, ministros do STF e regulação das big techs, demonstram uma inversão do conceito de nacionalismo, sugerindo que a soberania brasileira deve ser articulada a partir de Washington. Essa postura levanta questionamentos sobre a independência política e a verdadeira essência do nacionalismo defendido. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca foi interpretada como simples manobra para desviar a atenção do escândalo de suas relações com Daniel Vorcaro. Embora esse objetivo deva ser considerado, não se podia desprezar o motivo alegado: o pedido para que Trump classificasse organizações criminosas brasileiras como terroristas — como depois o Departamento de Estado anunciou. Críticos têm apontado — com razão — que a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas ameaça a soberania brasileira. Com o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho incluídos na lista de organizações terroristas, os Estados Unidos passarão a poder aplicar sanções severas contra o sistema financeiro brasileiro caso instituições nacionais facilitem, ainda que involuntariamente, a circulação de capital ilícito. Os efeitos de uma medida desse tipo podem gerar isolamento econômico e abalo na confiança de investidores internacionais na rede bancária brasileira. Ainda mais preocupante é o fato de a designação como organização terrorista pelos americanos poder autorizar, no limite, uma ação militar. Foi essa designação que, no caso do Cartel de los Soles, forneceu a base legal para a operação militar que invadiu e bombardeou a Venezuela, levando à captura de Nicolás Maduro. Flávio e os bolsonaristas têm sido duramente criticados por terem insistido numa ação administrativa americana cujos desdobramentos podem colocar em xeque a soberania brasileira. Para sustentar sua posição, recorreram a uma manobra retórica. Para eles, o Estado brasileiro foi capturado por grupos ideologicamente condescendentes ou incapazes de combater com eficácia o crime organizado. Em qualquer dos casos, a importação de força externa não representaria cessão, mas reapropriação da soberania diante de um Estado brasileiro fraco e ilegítimo. Em entrevista ao Financial Times em março de 2025, Jair Bolsonaro foi explícito: “Temos um problema de ditadura. O Brasil não tem como sair dessa situação sozinho. Precisa de apoio internacional”. Essa é a mesma forma de pensar que levou Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos com o objetivo de pleitear sanções contra autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky, na expectativa de pressioná-las a libertar seu pai e outros presos do 8 de Janeiro. Esse discurso também tem orientado os governadores de direita que, em conjunto, formaram um “consórcio da paz” para cooperação em segurança e passaram a tratar publicamente as organizações criminosas como “narcoterroristas”. Reportagem de Malu Gaspar aqui no GLOBO mostrou que Cláudio Castro enviou documento à embaixada americana solicitando a classificação do Comando Vermelho como organização terrorista. No documento, o governo do Rio alega que “a crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade do Comando Vermelho coloca a organização dentro dos critérios estabelecidos pelas autoridades dos Estados Unidos para sanções econômicas, designações terroristas e bloqueio de ativos”. A estratégia, até agora, tem se mostrado surpreendentemente popular. Pesquisa da Quaest, divulgada pelo GLOBO, mostra que 72% dos fluminenses apoiam a classificação de organizações do crime organizado como grupos terroristas. Apenas 22% se dizem contra. O argumento bolsonarista tem algo de oportunista, mas parece revelar uma convicção genuína. Para eles, a soberania nacional deixou de coincidir com o Estado brasileiro, e sua restauração depende de uma intervenção estrangeira. A inversão é notável num campo político historicamente nacionalista e só se torna inteligível quando os inimigos deixam de ser nações concorrentes e passam a ser internos. Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington. É o nacionalismo posto às avessas.
Nacionalismo às avessas
Ao pressionar Trump por intervenção contra facções, contra ministros do STF e contra a regulação das big techs, os bolsonaristas sustentam que a soberania brasileira precisa ser gestada a partir de Washington













