O encontro do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta terça-feira (26), em Washington, pode ter efeito político limitado sobre o resultado da disputa presidencial brasileira deste ano. Na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Valor, o principal objetivo — conquistado — foi o de Flávio desviar o foco da crise em sua pré-campanha, gerada pela ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. No entanto, reunião também mostra a capacidade de articulação da família Bolsonaro com grupos conservadores internacionais. Os especialistas também chamam atenção para os riscos da influência que essas organizações poderão ter sobre as eleições no país. Em um primeiro momento, a reunião com Trump ajudou Flávio a ter uma “notícia positiva” e a reorganizar a base bolsonarista, depois do desgaste político gerado pela divulgação de uma conversa do senador com Vorcaro, para pedir dinheiro, avaliam os especialistas. Mas o encontro poderá ser usado contra o senador, com o discurso de que se o presidenciável do PL for eleito, poderá colocar em risco a soberania nacional em risco e “entregará” o país para os interesses dos Estados Unidos. O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV EAESP), é cauteloso ao avaliar os efeitos do encontro para a pré-campanha de Flávio. Primeiro, lembra o professor, houve dúvidas sobre se de fato a reunião aconteceria e o registro do encontro foi tímido, em sua avaliação. “Não houve um relato público, foi a portas fechadas. Um abraço que fosse, mesmo sem palavras teria, mais impacto. A foto divulgada [com Trump sentado] passou uma posição que sugere subalternidade de Flávio. Foi um registro morno, sem vida”, afirma. Até o momento, Trump não se manifestou publicamente sobre a reunião. Na entrevista concedida após o encontro, Flávio afirmou ter sido oficialmente convidado pelo governo americano, mas a reunião não estava na agenda oficial de Trump. Para Teixeira, o encontro era a alternativa disponível no atual cenário para Flávio mostrar que tinha algum tipo de reconhecimento político. No entanto, pondera o professor, ainda é insuficiente para alavancar a pré-campanha e para ofuscar o desgaste provocado pela revelação das mensagens trocadas pelo senador com Daniel Vorcaro. “Pode até ser um tiro no pé porque Donald Trump não é tão popular no Brasil quanto se imagina. O cenário aqui ainda é de instabilidade porque não se sabe se há algo mais por vir”, diz. O professor da FGV acrescenta também que o eleitorado classificado como independente pode não ser influenciado por esse tipo de agenda. Teixeira observa que esses eleitores, que não se definem nem como lulista nem bolsonarista, serão decisivos em um pleito polarizado. “Flávio sai do encontro sem um material para explorar, a não ser a foto. Para mim parece um jogo de soma zero.” Especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, a pesquisadora e acadêmica Denilde Oliveira Holzhacker também colocou em xeque o impacto desse encontro para um eleitorado mais amplo, não bolsonarista, e afirmou que pode ser uma aposta arriscada do senador. “Para o Flávio foi uma notícia positiva depois da crise do Master. Ele fez um gesto para mostrar que tem força e trânsito internacional”, diz. Denilde, no entanto, citou que nos lugares em que Trump tentou influenciar politicamente, teve uma reação contra os Estados Unidos. No Brasil, o efeito político pode ser negativo para o presidenciável do PL, como uma brecha para a intromissão dos EUA em assuntos internos. “Pode ser visto como um gesto de entreguismo, de subserviência aos Estados Unidos”, afirma a diretora acadêmica de Graduação – Negócios e Tecnologia na ESPM. Denilde, no entanto, destaca que o encontro mostrou uma forte capacidade de articulação dos aliados da família Bolsonaro com grupos conservadores internacionais. Havia uma descrença de que Flávio seria recebido por Trump e o encontro mostrou essa articulação internacional. “Demonstra a articulação e um grau de acesso bastante alto à Casa Branca.” Segundo a pesquisadora, esse pode ser um sinal perigoso para as eleições brasileiras. “Esses grupos podem ampliar a disseminação de fake news, com um arsenal de ferramentas digitais”, diz. “Eles têm uma capacidade de influenciar as eleições, mesmo não passando diretamente por Trump. É muito dinheiro, muita articulação.” O cientista político Hilton Fernandes, professor da FESPSP, ressalta a entrada de Trump na disputa brasileira. Primeiro, ao receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 7. Agora, o encontro com Flávio. “É um sinal de que tem, sim, interesse na eleição do Brasil.” Fernandes destaca os riscos de o governo americano tentar influenciar indiretamente a eleição brasileira, por meio de ações nas redes sociais, com o apoio à disseminação de fake news. O professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP pondera que a pré-campanha de Flávio ainda tem respostas a dar sobre a relação do senador com Vorcaro, e que a relação do presidenciável com lideranças políticas sofreu um abalo e está “rachada”. “A questão é até onde as lideranças políticas confiam e poderão afiançar a candidatura de Flávio”, diz Fernandes. Senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro em reunião com Donald Trump, na Casa Branca, nos Estados Unidos — Foto: Divulgação