Cercado de incertezas, o plano de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de viajar aos Estados Unidos na tentativa de se reunir com Donald Trump e tentar atenuar os efeitos da crise provocada pelo pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro até o momento só serviu para ampliar a fervura em banho-maria à qual o presidenciável do PL está exposto. A estratégia, arriscada, depende da disposição do chefe da Casa Branca em recebê-lo e da habilidade de aliados da família Bolsonaro no governo dos EUA em encaixá-lo na agenda. Até o fechamento deste texto, na noite da segunda-feira (25), não havia confirmação oficial do encontro com o presidente americano, que deve fazer hoje uma bateria de exames de rotina no hospital militar Walter Reed, em Maryland, estado vizinho à capital Washington D.C. A indefinição ocorre no contexto de um impasse nas negociações com o Irã para definir condições para o fim da guerra. No final de semana, Trump faltou até ao casamento de seu filho mais velho, Donald Jr., nas Bahamas, segundo ele por estar ocupado nas negociações com os iranianos. Na noite de ontem, madrugada de terça em Teerã, os EUA confirmaram novos bombardeios no sul do Irã, apesar do cessar-fogo anunciado no início de abril, o que torna ainda mais incerta uma eventual reunião com o senador brasileiro. Embora as circunstâncias da viagem ainda estejam mal explicadas, a agenda, se confirmada, pode render a Flávio um fato novo na sua pré-campanha quase 14 dias após a divulgação dos áudios e diálogos revelados pelo Intercept Brasil em que o pré-candidato do PL pede R$ 134 milhões ao dono do Banco Master para supostamente financiar o filme sobre a trajetória política de seu pai. Mesmo que discreta ou longe do escrutínio da imprensa, a reunião seria explorada como sinal de prestígio dos Bolsonaro junto a Trump menos de um mês após o republicano receber Lula na Casa Branca para uma longa reunião em que o elogiou como “líder muito dinâmico”. Ao menos publicamente, a última vez que um integrante do clã Bolsonaro esteve com Trump ocorreu há 18 meses, quando Eduardo participou da festa organizada pelo americano em seu resort na Flórida para acompanhar a apuração da eleição presidencial na qual derrotou a democrata Kamala Harris. Eduardo chegou a ser convidado para a posse de Trump no lugar de Jair, que não pôde viajar aos EUA por estar com o passaporte retido na ocasião. Mas acabou assistindo a cerimônia com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro no Capital One Arena, estádio a dois quilômetros do Congresso americano onde apoiadores assistiram tudo por um telão. Dois meses depois, Eduardo anunciou seu autoexílio nos Estados Unidos. Desde então, não há registro de que tenha se encontrado com o republicano, apesar do bem-sucedido lobby pelo tarifaço e as sanções contra Alexandre de Moraes, sua mulher, Viviane, e outras autoridades brasileiras junto a auxiliares da própria Presidência e do Departamento de Estado. Nesse contexto, uma reunião com Flávio sinalizaria que Trump colocou os Bolsonaro de volta ao radar da Casa Branca, mesmo com o distensionamento na relação com o governo Lula e a despeito das suspeitas que abalaram a campanha do PL nas últimas semanas. Mas, se o encontro acabar não acontecendo, a conclusão óbvia será a de que reabilitar a reputação dos aliados da direita brasileira não é prioridade para o líder dos EUA, no momento em que o conflito no Irã pressiona a economia do país e que a busca por minerais críticos força uma postura pragmática de Washington em relação a Brasília. No âmbito doméstico, um fracasso da reunião reforçaria a impressão de que Flávio se tornou um ator político tóxico, mesmo que o desencontro seja atribuído às turbulências globais. Também ampliaria a pressão sobre ele, que deixou o Brasil em meio aos crescentes questionamentos sobre a natureza de sua relação com Vorcaro. Isso porque o aporte de R$ 61 milhões na produção de “Dark Horse” pelo dono do Master ocorreu por meio do fundo americano Havengate, que é administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Paulo Calixto também gerencia um trust ligado à compra de uma casa de R$ 3,6 milhões por um aliado de Eduardo, o ex-secretário de Cultura André Porciúncula, que declarou apenas R$ 164 mil em bens à Justiça Eleitoral em 2024. Por isso, caso volte para o Brasil sem uma foto posando ao lado de Trump, o presidenciável terá de explicar se aproveitou o pretexto para ajustar as pontas soltas do caso em terras americanas. Na semana passada, quando questionado por repórteres brasileiros sobre o plano de voar até os EUA para se encontrar com Trump, Flávio ironizou e respondeu, em inglês, que não havia solicitado o encontro e que o convite partiu da Casa Branca. Desde então, o pré-candidato ao Planalto não apresentou ao público e ao eleitor maiores explicações sobre a decisão de se ausentar do país. A repercussão do caso ganhou novas camadas após o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmar em entrevista à GloboNews que Flávio visitou Vorcaro em dezembro de 2025 para sondar se o banqueiro pagaria o restante do valor acordado. A versão contraria o presidenciável, que disse ter ido à casa do ex-CEO para encerrar os negócios privados que mantinha com ele. Fator eleitoral A busca por uma “photo op” com Trump tem implicações eleitorais. Uma pesquisa divulgada pela Genial/Quaest no último dia 3 demonstrou que 70% dos entrevistados ficaram sabendo do encontro entre Lula e o dirigente americano e que 60% viram a agenda como um episódio positivo para o Brasil. No primeiro levantamento realizado após a divulgação dos diálogos entre Flávio e Vorcaro, o Datafolha indicou que a distância entre Lula e o presidenciável do PL no primeiro turno subiu de três para nove pontos percentuais. Em novembro de 2021, quando já trabalhava para disputar o Planalto no ano seguinte, Lula fez um tour pela Europa e foi recebido pelo presidente da França, Emmanuel Macron, o premier da Espanha, Pedro Sánchez, e Olaf Scholz, às vésperas de tomar posse como primeiro-ministro da Alemanha. O encontro com os líderes europeus foi explorado pelo então pré-candidato do PT nas redes e na campanha como contraponto ao isolamento internacional de Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, um encontro entre Flávio e Trump, embora não empolgue o eleitorado para além da bolha da direita, seria apresentado como um indicativo de relações estreitas com os EUA nos próximos quatro anos. Mas o alcance dessa estratégia pode ser limitado. Uma outra pesquisa divulgada pela Genial/Quaest em março passado indicou que 48% dos entrevistados tinham uma visão desfavorável em relação aos Estados Unidos. E caso Trump anuncie um improvável apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, outro dado deste levantamento sinaliza dificuldades para o PL: 32% dos entrevistados disseram que um endosso do americano ao filho de Jair Bolsonaro aumentaria as chances de votarem em Lula, enquanto 28% responderam que a adesão trumpista ampliaria as chances de apoiarem Flávio. No mês passado, Trump escalou seu vice, JD Vance, para participar de comícios do então premier direitista da Hungria, Viktor Orbán, que enfrentava dificuldades nas pesquisas após 16 anos no poder. No caso do país europeu, o apoio dos americanos não ajudou: Orbán sofreu uma derrota histórica e perdeu a eleição para o rival Péter Magyar por uma margem expressiva nas urnas.