O impacto político do encontro do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na terça-feira (26), em Washington, deve se diluir até as eleições e ter peso “zero” para o eleitor independente, distante do bolsonarismo e do lulismo, definir seu voto na disputa presidencial. Para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, a reunião serviu para Flávio “reenergizar” sua base, depois dos escândalos do Banco Master, mas há ceticismo sobre uma eventual atuação de Trump para influenciar a eleição brasileira. A tentativa de interferência, no entanto, pode vir da base de apoio do presidente dos Estados Unidos, por meio de grupos de extrema-direita americanos que atuaram para viabilizar o encontro de Flávio e Trump, com o financiamento de campanha e o uso de uma estrutura digital para disseminar notícias falsas no Brasil. Esses grupos, diz, estão mais integrados com outros países e mais estruturados do que nas disputas de 2018 e 2022. Especialista em política externa e estudioso da extrema-direita, Casarões avalia que a reunião do presidente americano com o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não deve resultar em prejuízos comerciais para o Brasil, como o tarifaço anunciado por Trump no ano passado. O próprio presidente dos EUA enfrenta um desgaste político no país, com a queda da popularidade, após o aumento das tarifas. O cientista político, no entanto, afirma que o saldo do encontro que pode ser explorado por Flávio é a bandeira da segurança pública e o combate ao crime organizado, tema supostamente conversado com Trump e que é o “calcanhar de Aquiles” do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A seguir, trechos da entrevista ao Valor: Valor: O encontro de Trump com Lula, no começo do mês, e agora com Flávio, são vistos como um indicativo da entrada do presidente americano na eleição brasileira. Qual deve ser o impacto político dessa atuação de Trump na disputa presidencial? Casarões: Há um paradoxo dessa presença do Trump nas eleições brasileiras. Quando houve os ataques ao Brasil em julho de 2025 [tarifaço], as pesquisas apontaram que a maioria dos brasileiros rejeitava as ações do Trump. Ele é um sujeito aparentemente impopular no Brasil, então não se trata de se pensar em uma aliança com ele. O que está em jogo são narrativas conflitantes, de ambos os pré-candidatos, sobre quem consegue lidar melhor com os Estados Unidos. É uma disputa de narrativa sobre que lugar o Brasil ocuparia na lista de prioridades americanas. É claro que para o bolsonarismo pesa muito a associação com o Trump porque desde 2016, 2017, quando Trump despontava nas pesquisas nos Estados Unidos, Bolsonaro se apropriou do apelido de ‘Trump tropical, Trump brasileiro’. Para os eleitores bolsonaristas, a relação com o Trump é importante. Mas não vejo que essa relação pessoal vai mudar a disposição do eleitor de centro, de pender mais para a candidatura do Flávio ou para de outros concorrentes dentro da direita, ou mesmo do Lula. Para Flávio, que passou por um desgaste muito grande ao longo das últimas semanas em função da questão do Banco Master e das relações com Daniel Vorcaro, pode ser uma maneira de reenergizar a base em um momento de incerteza. Hoje se discute se o Flávio é o candidato mais adequado ou mais viável contra o Lula em um eventual segundo turno. Nesse contexto, mostrar alguma credencial de política externa, uma relação com Trump, tem peso importante para a candidatura. Não para ‘virar’ o eleitor de centro, mas, para não deixar a base se desmobilizar depois das denúncias. Valor: E para o presidente Lula? Casarões: Para Lula, certamente não se trata de ter uma relação pessoal com Trump a partir dessa associação política. A viagem que ele fez no começo do mês [para os Estados Unidos] estava ligada com a necessidade de rebater aquela que era, basicamente, a única ideia de campanha bolsonarista até ali, de que só um Bolsonaro poderia salvar as relações entre os Estados Unidos e o Brasil. Flávio não tem, pelo menos até aqui, muito a oferecer do ponto de vista substantivo na campanha. Não tem uma grande agenda de políticas públicas, um projeto de governo definido, para além de falas pontuais que ele fez sobre dar continuidade ao governo do pai. Não se tem referências sobre o que fará se eleito presidente. A única coisa que ele dizia era que seu diferencial era construir uma relação positiva com os Estados Unidos. Lula, que passou um momento muito difícil na relação com Washington entre julho e setembro de 2025, vem trabalhando para se aproximar e construir canais de diálogo diplomáticos. A reunião dele com Trump pareceu muito mais uma jogada de política interna, eleitoral, do que de política externa. Pouco se resolveu, em questões concretas, de política externa, tarifas, investigação comercial, terras raras. Mas a simbologia de Lula ser um presidente de esquerda, crítico absoluto do Trump – ele não parou de criticá-lo – , e ainda assim ser recebido como chefe de Estado na Casa Branca, foi ali o antídoto que encontrou para dizer, sobretudo para o eleitor de centro, que não é verdade que só Bolsonaro pode ter relação com os EUA. Valor: O impacto nas eleições deve ser diluído? Casarões: Na melhor das hipóteses, Flávio conseguiu se contrapor à jogada do Lula. Agora cada um já jogou do seu lado. Essa relação com o Trump fica no empate. Para Flávio, a grande importância nesse momento, além de reafirmar a relação histórica do bolsonarismo com a Casa Branca, com Trump, foi desviar o assunto do Banco Master. Do ponto de vista eleitoral, no longo prazo, o saldo é zero, assim, não houve um grande impacto. Dificilmente a candidatura do Flávio vai conseguir vender para um eleitor não bolsonarista convicto que essa viagem foi um grande sucesso. Foi uma foto, basicamente, não teve ali uma grande pauta, uma conversa, um endosso aberto, nem nada. Continuo muito cético com relação à possibilidade de Trump interferir diretamente nas eleições do Brasil. Isso não deve acontecer, ou pelo menos não há elementos neste momento para dizer que haverá uma disposição da Casa Branca de jogar o peso político para favorecer Flávio. Os bolsonaristas vão tentar espremer e tirar todo o suco possível dessa foto, mas tem um limite muito claro aquilo que eles poderiam fazer nesse momento. É parte desse jogo de narrativa sem grandes implicações eleitorais significativas para o futuro. Valor: E por que o senhor continua muito cético sobre essa influência? Casarões: Trump, desde que voltou à Casa Branca, tem tido experiências muito ambíguas com relação ao endosso de campanhas políticas. Ele tentou jogar o peso do seu governo nas eleições do Canadá, em eleições europeias, na Austrália, na Hungria e não deu certo. A estratégia de jogar o peso americano sobre eleições estrangeiras tem um limite porque há uma grande rejeição ao Trump ao redor do mundo. Há uma percepção generalizada de que, mesmo com os aliados, Trump tem um tratamento muito ruim na questão de tarifas ou de guerras comerciais. Qualquer endosso mais eloquente no caso do Brasil pode até mobilizar o bolsonarista convicto, mas dificilmente vai mudar o humor de quem ainda está na dúvida. E tem uma cautela por parte dos Estados Unidos, porque na hipótese de Trump ser um cabo eleitoral de Flávio e ele perder, o americano vai ficar numa situação delicada diante de um Lula no quarto mandato. Em que pese a vontade de Lula de querer manter as relações com os Estados Unidos, há sempre o risco de o Brasil cair no colo da China. Lula está, nesse momento, atuando de maneira muito equilibrada, pragmática e não tem uma posição anti-Estados Unidos. Há a compreensão entre setores da Casa Branca de que ter Lula como presidente por mais quatro anos não é de todo ruim, e que é um parceiro possível. Valor: O senhor avalia que é possível ter algum prejuízo comercial para o país a partir dessa visita, como o tarifaço imposto no ano passado? Casarões: Não. Ainda que a questão comercial não esteja inteiramente resolvida, teve uma penalização econômica para os Estados Unidos muito grande. Moro aqui há um ano e é impressionante a sensação de perda de poder de compra que as pessoas tiveram de um ano para cá. É visível. A inflação de produtos alimentícios tem assustado muito as pessoas. A popularidade de Trump tem caído em grande parte em função da situação econômica e dos preços. E parte disso está ligado, de alguma forma, às tarifas do ano passado. Esse tipo de medida contra o Brasil seria muito ruim para a economia americana, o que afasta a perspectiva, por hora, de um novo tarifaço contra o Brasil. Valor: Flávio disse ter conversado com Trump sobre segurança, uma das áreas mais sensíveis do governo Lula, e defende classificar facções criminosas como terrorismo. O senhor vê a perspectiva de o governo americano entrar nessa discussão? Casarões: Esse seria o grande trunfo de Flávio daqui para frente nessa relação com os Estados Unidos. Os governos de esquerda, historicamente, tem grande dificuldade de lidar com segurança pública e foi em cima dessa plataforma que Bolsonaro ganhou em 2018, falando que ‘bandido bom é bandido morto’. E buscou associar, em 2018 e 2022, o PT ao crime organizado. O governo Lula deixou muito claro, desde o final de 2025, que estava disposto a cooperar com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, com o pedido de que não se classificassem como grupos terroristas, pelas implicações jurídicas e normativas e políticas que poderia trazer para o Brasil. A pressão do Flávio sobre esse tema em particular talvez seja a única coisa de concreto que ele poderá utilizar no contexto eleitoral. A segurança é o calcanhar de Aquiles do governo Lula. Flávio deve se construir em cima da ideia de que Lula e o seu governo são sócios do PCC e do Comando Vermelho, ainda que não haja absolutamente nada de real nisso. Deve ser uma linha de ataque da candidatura bolsonarista contra o governo. Mas o governo Lula tem se blindado, até oferecendo cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime em geral. Valor: A realização do encontro mostrou a atuação e a ligação de grupos conservadores do Brasil com os Estados Unidos. Pode vir desses grupos a tentativa de influenciar as eleições? Casarões: Sim. É importante fazer uma diferenciação entre o Trump e as frações desse movimento, que atuam de maneira mais ou menos independente do governo. Existe uma transnacionalização desse sistema de direita hemisférica, ancorada principalmente na extrema-direita americana, o movimento MAGA [Make America Great Again], e nos seus diversos braços. Essa articulação tem peso na produção de narrativas, no impulsionamento de mensagens digitais, em eventuais fontes de financiamento de campanha. Não pode ter dinheiro estrangeiro em campanha, mas, de alguma forma, esse dinheiro pode, por vias ilícitas, chegar na campanha do Flávio. Não se sabe o quanto do dinheiro dado pelo Vorcaro para o filme do Bolsonaro iria, eventualmente, para uma campanha bolsonarista também. Esses grupos têm uma grande importância na articulação, na construção de ideias, no impulsionamento de mensagens e no financiamento. Existe uma rede robusta de atores de extrema-direita ao redor do hemisfério. Podemos falar da Venezuela, Colômbia, Chile, Argentina, Portugal e Espanha. Esses articuladores são importantes. Medir o papel efetivo que eles têm é difícil, mas esse é um ponto de atenção para o quadro eleitoral do Brasil. Esses grupos não aparecem de maneira estruturada na campanha, eles não são claros, mas a própria maneira como Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo vêm buscando construir essa rede de influência junto à Casa Branca mostra que, abaixo do Trump, tem muitos entusiasmados com a possibilidade de uma candidatura Bolsonaro, de uma eventual presidência Flávio. E são esses atores que vão ser decisivos para a construção e uma eventual interferência americana. Sou cético com relação à influência que a Casa Branca vai ter diretamente na eleição, mas pode ser que o impulsionamento, a narrativa, o financiamento partam desses grupos. Valor: Há uma mudança desses grupos em relação às campanhas de 2028 e 2022? Casarões: Essas redes hoje estão muito mais integradas. Com Trump de volta ao poder, tem uma situação parecida com 2018, com a diferença de que Bolsonaro e Trump já construíram relações pessoais. O governo Trump hoje tem um caráter que é muito mais assertivo e autoritário do que no passado. O movimento MAGA está muito mais estruturado do que em 2018, no início do primeiro governo Trump. Podemos ver consequências mais significativas para a eleição no Brasil, vindas de baixo e não de cima, porque o Trump precisa manter algum tipo de relacionamento com o governo Lula. Precisa evitar que o Brasil corra para os braços da China, sobretudo numa eventual vitória do presidente Lula. O grande ponto de atenção daqui para frente é o tema da segurança pública, como isso vai ser usado nas campanhas. E como essas redes abaixo do Trump vão se articular para poder pesar sobre o cenário eleitoral brasileiro. Senador Flávio Bolsonaro ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca — Foto: Reprodução/Redes sociais