Medida do governo dos EUA que classifica facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo O pré-candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — Foto: Leandro Lozada/AFP e Kevin Dietsch/Getty Images/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 28/05/2026 - 22:47 Classificação de facções como terroristas beneficia bolsonarismo A decisão dos EUA de classificar facções brasileiras como terroristas, apesar de complexa, é explorada eleitoralmente pelo bolsonarismo. O governo brasileiro tentou evitar essa classificação, que pode impactar a soberania e economia do país. A medida, anunciada após encontro de Trump com Flávio Bolsonaro, favorece a narrativa de endurecimento contra o crime, influenciando o cenário político e prejudicando Lula. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados é um daqueles assuntos complexos e multifacetados, mas que, quando levados para a arena eleitoral, tendem a produzir reações rasas, precipitadas e turvadas pela narrativa ideológica. Como sempre acontece em momentos assim, o risco de prejuízos duradouros, e em várias dimensões, para o país são enormes. O governo brasileiro vinha tentando evitar esse desfecho havia mais de um ano. Houve várias visitas de funcionários de diferentes graduações do governo americano ao Itamaraty e ao Ministério da Justiça em busca de dados a respeito dessas organizações criminosas. Durante todo esse período, o governo brasileiro tentou dissuadir a Casa Branca de dar esse passo, demonstrando disposição de atuar em conjunto no estrangulamento das facções sem, no entanto, classificá-las oficialmente como organizações terroristas. Os argumentos para rechaçar essa decisão vão além da defesa da soberania nacional e se estendem à economia. A nova abordagem em relação ao Brasil pode dificultar a concessão de vistos e estabelecer barreiras para negócios entre empresas brasileiras e as de outros países. Há, também, o temor de que a nova designação faça com que o governo Donald Trump estenda ao Brasil ameaças já feitas a outros países da América do Sul de promover incursões militares em território brasileiro, sob a justificativa de atingir o PCC ou o CV, ferindo gravemente a soberania nacional. A decisão, que pegou o governo brasileiro de surpresa, altera até a dinâmica de cooperação entre instituições dos dois países, uma vez que terrorismo é atribuição da CIA, e não mais do FBI ou da DEA (a agência de combate às drogas), com que o Ministério da Justiça e a Polícia Federal têm atuado historicamente e bem mais abertos à troca de informações. —Essa decisão é um desastre e prejudicará imensamente o enfrentamento a essas organizações e a cooperação entre os países, a que o Brasil nunca se negou — reagiu ontem o ex-secretário nacional de Justiça Mario Sarrubbo. Toda essa complexidade, no entanto, tende a ficar distante do debate eleitoral, desencadeado principalmente devido ao timing da decisão: dois dias depois do rápido encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro, que concedeu entrevista defendendo justamente a adoção da classificação das facções brasileiras como terroristas. Numa leitura apressada de tema tão cabeludo, o eleitorado que defende o endurecimento do enfrentamento às facções tende a comemorar a classificação e a atribuir a Flávio papel decisivo no convencimento de Trump. É um daqueles episódios em que a narrativa tende a prevalecer, até porque a Casa Branca não forneceu detalhes da pauta entre os dois, nem sequer se houve espaço para algum tema mais sério. Para o governo brasileiro, a reação à medida é um terreno pantanoso. Um recurso contra a decisão ou uma objeção mais cabal podem ser lidos politicamente como leniência ou mesmo defesa de grupos criminosos que exercem domínio territorial e tirania sobre cada vez mais territórios nas cidades brasileiras, e a exploração eleitoral disso pode ser fatal para Lula. Mas só aquiescer, na expectativa de que a classificação não produza muitos efeitos concretos e se restrinja à esfera simbólica, é algo igualmente arriscado tratando-se de um governo imprevisível e voluntarioso como o de Trump, que tem empreendido diversas ofensivas unilaterais em países soberanos. Se a foto com Trump por si só não tinha, nem tem, o condão de livrar Flávio do fantasma do caso Master, a decisão desta quinta-feira introduz um novo tema na campanha presidencial, com maior potencial de exploração positiva por parte da direita e mais potencial de desgaste para Lula.
'Timing' de decisão de Trump ajuda Flávio
Medida do governo dos EUA que classifica facções brasileiras como terroristas tem consequências complexas, mas será usada como trunfo eleitoral pelo bolsonarismo















