Governo Trump decidiu classificar facções brasileiras como terroristas após encontros com filho de Bolsonaro Lula encontra Donald Trump na Casa Branca — Foto: Ricardo Stuckert / PR RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 30/05/2026 - 19:48 EUA classificam PCC e Comando Vermelho como terroristas; Lula e Flávio Bolsonaro divergem em estratégias políticas. Após a decisão dos EUA de classificar o PCC e o Comando Vermelho como terroristas, Lula e Flávio Bolsonaro adotam estratégias opostas para ganhar eleitores. Lula defende a soberania nacional, enquanto Flávio acusa o governo petista de ser brando com criminosos. A segurança é uma preocupação central no Brasil, mas a visão americana sobre o combate ao crime organizado divide opiniões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A controvérsia que cerca a classificação de facções brasileiras como terroristas pelo governo dos Estados Unidos provocou uma corrida nas duas principais campanhas ao Planalto para colher dividendos eleitorais. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja repetir a estratégia usada durante o “tarifaço” de Donald Trump e apostar no discurso de defesa da soberania nacional. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quer usar a reação negativa do governo para reprisar a narrativa de que o petista “defende bandido”. A segurança é a principal preocupação atual dos brasileiros, como mostram pesquisas, mas a percepção sobre a ação americana no combate ao crime organizado provoca divisões. A segurança pública é um tema sensível para o governo Lula, que não conseguiu apresentar resultados perceptíveis na área ao longo do mandato. Diante disso, o plano do PT é focar na atuação de Flávio em favor da designação como organização terrorista para o Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), anunciada dois dias depois de o senador se reunir com Trump na Casa Branca e defender a medida. Os petistas pretendem propagar que, enquanto Flávio quer vencer a eleição para entregar o país aos americanos, o atual presidente brasileiro luta pela soberania do país. A tese se apoia no fato de que a decisão dos EUA pode abrir brecha para uma intervenção do governo Trump no Brasil, além de trazer prejuízos potenciais a empresas nacionais que atuam no exterior. A estratégia foi explicitada em nota divulgada na sexta-feira e no discurso de Lula no mesmo dia. A linha será semelhante à adotada em julho do ano passado, após Trump anunciar uma alíquota de 50% de tarifa para produtos brasileiros exportados ao país e usar, entre as justificativas, a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Houve, à época, a avaliação de que a resposta dada ao tarifaço foi um ponto de virada para o governo. Pesquisa Quaest divulgada em agosto de 2025, um mês após o anúncio da taxação, mostrou uma redução de dez para cinco pontos no saldo negativo na avaliação da gestão de Lula. Os números foram atribuídos à reação contra a medida de Trump. Dessa vez, porém, o presidente precisou calibrar o discurso. Ao mencionar a decisão dos EUA sobre as facções brasileiras em sua primeira manifestação pública, o petista não deixou de atacá-las, com o objetivo claro de neutralizar a tática adversária de acusá-lo de leniência com criminosos. — Estou muito triste com a noticia de que o secretário dos EUA, Marco Rubio, disse que os nossos criminosos são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção. Comando Vermelho e PCC são terroristas para as comunidades brasileiras. Vamos combatê-los aqui dentro — disse Lula na sexta. A reação de Flávio não demorou. Horas depois, divulgou um vídeo no qual explorou o fato de Lula ter se referido ao PCC e ao CV como “nossos criminosos”. A estratégia também incluiu menções à “soberania” feitas pelo petista ao defender ser preciso liberar a população brasileira do domínio de traficantes. — Um em cada quatro brasileiros vive em áreas dominadas por narcotraficantes. Essas pessoas não têm soberania nem dentro da própria casa — argumentou o senador, em outra publicação sobre o tema. A frase resume a linha que orientará a comunicação da campanha. Em vez de discutir a legitimidade da decisão, a orientação é questionar a capacidade do Estado brasileiro de exercer autoridade em áreas controladas por facções. Auxiliares resumem a estratégia da seguinte forma: enquanto o governo pretende enfatizar a soberania do Estado brasileiro diante de uma decisão tomada por outro país, Flávio planeja discutir a soberania do cidadão comum diante do avanço do crime. A ideia é que esse raciocínio seja reproduzido em discursos, entrevistas, conteúdos digitais e outros materiais, sempre associado a dados sobre o avanço territorial das facções e à presença do crime organizado em diferentes regiões do país. As equipes de comunicação já discutem peças específicas para explorar esse enquadramento nas redes sociais. — Não é uma associação com o Trump. É uma proteção ao povo brasileiro, que vai se desvencilhar desse perigo. É completamente diferente — afirmou o publicitário Eduardo Fischer, que integra a campanha de Flávio. Visita a Jair Após voltar dos EUA, Flávio visitou o pai, que cumpre prisão domiciliar. Na ocasião, relatou detalhes da visita a Trump. Segundo interlocutores, Bolsonaro avaliou que a agenda foi bem-sucedida e orientou o filho a explorar politicamente os desdobramentos da decisão americana. Na equipe de Flávio, a decisão dos EUA sobre as facções brasileiras também foi vista como oportunidade para recolocar a candidatura em terreno mais confortável, após semanas de desgastes provocados pela crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro. Entre lulistas, porém, as revelações da relação do dono do Master com Flávio continuarão a ser usadas como arma. — Em vez de fazer corte desvirtuando a fala do presidente, o Flávio Bolsonaro deveria justificar a conversa dele pedindo dinheiro ao Vorcaro do Banco Master. Isso é o que o povo brasileiro quer saber — afirmou Sidônio Palmeira, ministro da Comunicação Social, ao rebater o vídeo gravado por Flávio sobre o discurso de Lula. A relevância que as campanhas dão à disputa está lastreada em dados. De acordo com pesquisa Quaest divulgada em abril, a violência está no topo da lista de preocupações dos brasileiros e é citada por 27%, à frente de outras questões como saúde e corrupção. Meses antes, em novembro, o instituto havia verificado que 73% da população era favorável ao rótulo de terroristas para as facções — as entrevistas ocorreram após a megaoperação no Rio contra o CV. O mesmo levantamento, entretanto, indicou que, questionados sobre a necessidade de ajuda dos EUA no combate às organizações criminosas e ao narcotráfico, 50% se colocaram contrários e 45% se disseram favoráveis. O professor da ESPM Paulo Niccoli Ramirez, doutor em Ciências Sociais e Antropologia, ressalta que o tema resvala em assunto sensível para Lula, mas pode reativar uma base que rejeita ações externas sobre o país. — O público moderado e os progressistas de esquerda consideram inaceitável qualquer tipo de interferência externa em um problema que é interno. A percepção de intromissão dos Estados Unidos em questões nacionais pode atrair mais atenção do que o próprio Flávio Bolsonaro — explica. O senador já vem explorando o assunto, como mostra a análise de dados das redes sociais. O caso provocou uma alta das citações a ele nas plataformas e representou a segunda ocasião do ano em que as menções diárias a Flávio superaram as de Lula, desta vez com viés mais positivo impulsionado por sua base — o primeiro episódio foi provocado justamente pelo impacto da relação entre ele e Vorcaro. — O episódio ajuda Flávio a responder aos desgastes recentes e às candidaturas alternativas de direita que vinham tentando ocupar espaço — afirma Pedro Bruzzi, sócio da Arquimedes, responsável pelo levantamento.
Soberania x terrorismo: Lula e Flávio buscam ganho eleitoral com estratégias opostas após decisão dos EUA sobre CV e PCC
Governo Trump decidiu classificar facções brasileiras como terroristas após encontros com filho de Bolsonaro














