Imagens de soldados americanos sendo celebrados por moradores do epicentro da grande tragédia na Venezuela encheram de júbilo seus superiores em Washington e no centro de operações instalado em solo venezuelano. Não se trata da euforia parisiense que saudou as tropas aliadas após a libertação da França, mas interpretam a cena como um medidor do clima social, que nada tem a ver com a felicidade que Donald Trump projeta da Casa Branca. Os Estados Unidos chegaram à zona de desastre para ficar, pelo menos até que a reconstrução esteja concluída. Esse é o objetivo, conforme fontes do setor de ajuda humanitária dos EUA disseram ao jornal LA NACIÓN. Washington sabe que possui a tecnologia e os recursos econômicos para realizar a reconstrução de La Guaira, a área costeira mais próxima de Caracas, apesar das inúmeras limitações de seu governo aliado, liderado por Delcy Rodríguez. Os números oficiais indicam que 885 edifícios foram afetados e 189 desabaram, deixando mais de 15 mil pessoas desabrigadas. Parte da Escola San Judas Tadeo, em Caracas, desabou nas últimas horas. Já foram registrados 890 tremores secundários. A própria incompetência do regime chavista, tão evidente desde às 18h04 do dia 24 de junho, permitiu que os EUA capitalizassem sobre a tragédia para fortalecer sua posição na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro. "O governo Trump está focado exclusivamente em continuar avançando nossos esforços em resposta aos terremotos devastadores", afirmou um porta-voz do Departamento de Estado. O próprio Marco Rubio está convencido de que este não é o momento certo. Estas são as chaves para entender por que a Casa Branca está surpreendentemente obstruindo o retorno de María Corina Machado ao seu país, embora ela pense exatamente o contrário: — Em um momento de total ausência do Estado, minha presença se estabiliza — disse ela a um grupo de jornalistas. Diversas versões foram publicadas nos últimos dias a respeito das duas tentativas frustradas de retorno a Caracas. A realidade é que, durante a primeira tentativa, na qual María Corina tentava viajar da Virgínia, EUA, para Curaçao, não foi a companhia aérea que ordenou ao piloto que retornasse à base após uma hora de voo. Foi um funcionário do governo americano que pressionou a companhia aérea para que o avião retornasse ao aeroporto de origem, o que de fato aconteceu, conforme confirmado a este jornal por fontes políticas. A medida sublinha o nível de suspeita que Washington nutre em relação ao retorno de Machado a um país que vivencia não apenas o luto nacional pela tragédia, mas também uma indignação generalizada com o que consideram a gestão profundamente falha do Chavismo 3.0. Delcy Rodríguez X María Corina Machado: a opinião pública na Venezuela A pesquisa da AtlasIntel, realizada para a Bloomberg, confirma isso: a desaprovação dos irmãos Rodríguez pela forma como lidaram com a situação desde o duplo terremoto aumentou mais de 20 pontos percentuais desde fevereiro, chegando a 65,4%. O índice de aprovação de Delcy Rodríguez está em 24%, o que, no entanto, supera em um ponto percentual o das Forças Armadas, o outro grande grupo criticado após a tragédia. Venezuelano é resgatado com vida após 8 dias sob escombros 1 de 6 Hernan Gil foi resgatado após oito dias sob escombros de um prédio em La Guaira, onde trabalhava como vigilante — Foto: Federico PARRA / AFP 2 de 6 Ele ficou soterrado na guarita do prédio onde trabalhava em Catia La Mar — Foto: Federico PARRA / AFP X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Nesta quinta (2), ele saiu dos escombros em meio a abraços e aplausos dos socorristas — Foto: Federico PARRA / AFP 4 de 6 Ele foi retirado em uma maca e levado para uma ambulância que o conduziu à Caracas, a capital, a 40 quilômetros de distância — Foto: Federico PARRA / AFP X de 6 Publicidade 5 de 6 Durante a fase final da operação, cerca de 30 pessoas trabalharam para remover os escombros — Foto: Federico PARRA / AFP 6 de 6 Nos últimos dias, socorristas montaram bases de operação e trabalharam dia e noite para retirar Gil dos escombros — Foto: Federico PARRA / AFP X de 6 Publicidade Caso aconteceu em La Guaira, a cidade mais devastada pelos terremotos Muito à frente está Machado, que consolidou uma imagem positiva junto a 53% dos entrevistados. Fontes consultadas por este jornal presumem que a laureada com o Prêmio Nobel da Paz não ficará satisfeita com as duas tentativas frustradas (a segunda partiu do Panamá) e que explorará “todas as opções possíveis para entrar o mais rápido possível”. O impasse com Washington não acabou, e a equipe de oposição busca maneiras de chegar a um acordo para garantir livre passagem à Venezuela. A líder da oposição dispõe de um enorme capital humano no terreno, incluindo os 600 mil voluntários que trabalharam durante as eleições para proteger o voto e divulgar ao país e ao mundo a derrota eleitoral que o diplomata Edmundo González Urrutia infligiu a Maduro. De fato, um centro de coleta já está em funcionamento no que era o seu quartel-general de campanha, dirigido por seu braço direito no Vamos Venezuela, o ex-preso político Henry Alviárez. As justificativas Em Caracas, o governo revolucionário tentou capitalizar a luta pelo poder entre Washington e seu principal adversário para fortalecer a irmã mais nova de Rodríguez com uma coletiva de imprensa internacional, mas o plano fracassou. As evidências apresentadas pelos repórteres apenas encorajaram o chefe do governo de fato, que recorreu à já batida "narrativa midiática criada em laboratório" para justificar o acúmulo de erros e negligência. A presidente interina do governo de fato tentou, sem sucesso, convencer o público de que o governo respondeu prontamente e com urgência aos dois terremotos. Ela alegou que os protocolos foram acionados e que agências estatais, incluindo as Forças Armadas, vieram em socorro do povo venezuelano. Milhares de depoimentos, coletados por cidadãos e compartilhados nas redes sociais, demonstram exatamente o contrário. Para começar, ninguém na sociedade venezuelana acredita no número de vítimas divulgado diariamente pelo governo. O último balanço subiu para 2.645 mortos e 12.666 feridos, mas estimativas forenses e mensagens trocadas entre as forças de segurança do Estado apontam para números que chegam a pelo menos 10 mil. — A transmissão de quinta-feira à noite mostrou uma presidente incapaz de reconhecer os erros de sua administração, uma ativista que ansiava por táticas autoritárias e uma líder incapaz de criar uma conexão emocional real com as vítimas. Elas foram a uma defesa de tese e se depararam com o ressentimento do povo, que foi capturado por correspondentes estrangeiros — disse o sociólogo Gianni Finco, especialista em propaganda revolucionária, ao jornal LA NACIÓN.
Tragédia na Venezuela redefine o poder no país e abre uma inesperada luta pelo poder entre os EUA e María Corina Machado
Washington tenta capitalizar os esforços de reconstrução após o duplo terremoto, enquanto a líder da oposição busca retornar em meio ao luto e às críticas ao chavismo














