Com estragos ao redor do país e número de mortos que pode chegar aos milhares, líder interina venezuelana quer reforçar imagem de liderança, mas com legitimidade em xeque 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, durante visita a áreas atingidas por terremotos em La Guaira — Foto: Presidência da Venezuela/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/06/2026 - 18:11 Desafios Humanitários e Políticos na Venezuela Após Terremotos Devastadores Os terremotos na Venezuela, que resultaram em 1.430 mortes e milhares de feridos, representam um grande desafio para a presidente interina Delcy Rodríguez, que busca legitimar sua liderança em meio a uma crise humanitária e política. Com a intervenção dos EUA após a queda de Maduro, Delcy enfrenta críticas sobre sua legitimidade e dificuldades econômicas agravadas pelo desastre. A ajuda americana, embora significativa, ainda é vista como insuficiente, e o futuro político do país permanece incerto, com eleições adiadas e a necessidade de reconstrução. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO "Peço que ajamos em unidade nacional, com calma, e que saibamos que, juntos, vamos superar esta tragédia", afirmou a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, em pronunciamento na noite de quarta-feira, pouco depois de seu país ser atingido pelos maiores terremotos em mais de um século. Até a tarde de sábado, foram confirmadas 1.430 mortes, com 3.238 feridos. Ficaram completamente destruídas habitações de 3.142 famílias. Com medo de novos tremores, venezuelanos desalojados dormem em ruas, praças e carros. Ainda há muitos desaparecidos e estimativas do Serviço Geológico dos EUA (USGS) apontam que o número de mortos pode passar de 10 mil. Alçada ao poder após a captura de Nicolás Maduro, em janeiro, Delcy tem no desastre seu primeiro grande teste político, mas o novo regime criado pelos EUA após a intervenção, sob virtual tutela de Washington, pode deixá-la como coadjuvante. — Delcy é uma "tapa-buraco", uma presidente que serve aos interesses de Washington no momento, pois a ideia de Donald Trump não é uma ruptura política, mas, sim, um governo capaz de conter a insatisfação popular. Alguém que possa administrar os assuntos mais urgentes, enquanto Washington toma decisões com base em seus interesses — disse ao GLOBO Flávia Loss, professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá de Tecnologia. Nos quase seis meses em que está à frente da Venezuela, Delcy deu início a uma agenda de reformas. O fechamento do Helicoide — a prisão que era sinônimo da repressão política no país —, a aprovação de uma anistia e a libertação (a conta-gotas) de presos políticos sugeriram passos rumo à redemocratização, mas a manutenção da elite do chavismo no poder e o ritmo lento de implementação das medidas jogaram dúvidas sobre o processo. No campo econômico, a abertura do setor petrolífero a empresas estrangeiras era uma exigência do presidente Donald Trump e contou com uma nova legislação moldada aos interesses de Washington. Embora alguns tenham encarado a saída de Maduro como o primeiro passo para melhorias, os indicadores ainda não refletem o otimismo. De acordo com o Banco Central, a inflação em maio foi a menor em 18 meses, de 6,3%, mas em termos anuais o cenário ainda é aterrador, de 525%. A inflação medida em dólares atingiu 12,5% ao ano no mês passado. Segundo as Nações Unidas, 7,9 milhões de pessoas dependiam de ajuda humanitária para sobreviver antes do terremoto, mas estimativas independentes apontam que até 56% dos 28,6 milhões de venezuelanos vivem em situação de pobreza extrema. Busca por sobreviventes sob destroços continua em Caracas Na quarta-feira, horas antes dos tremores, o jornal Financial Times revelou que o país se preparava para anunciar o tamanho real da dívida pública — estimada em US$ 240 bilhões (R$ 1,24 trilhão), quase 2,5 vezes o tamanho do PIB de 2025 — e para lançar a maior reestruturação da História, de forma a tentar retornar aos mercados internacionais. — Apesar de ser um governo que carece de legitimidade, se pensarmos no processo eleitoral de 2024, Delcy tentou se apresentar para o país e para o mundo como uma governante que busca construir pontes para que a Venezuela supere o isolamento e tenha condições de se reerguer economicamente — apontou ao GLOBO Rafael Araújo, professor de História da América da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Um plano que entrou em campo desconhecido depois do desastre. Segundo estimativas do USGS, o impacto econômico dos terremotos pode ser equivalente a até 7% do PIB, com mais R$ 34,6 bilhões em danos físicos. Na capital, Caracas, prédios inteiros vieram ao chão em questão de segundos. Em La Guaira, cidade costeira que foi a mais afetada pelos abalos de magnitude até 7,5, ruínas ocupavam as áreas onde havia casas, lojas e empresas. Mais de 200 mil pessoas podem precisar de assistência, e muitos temem que os abalos tenham causado estragos às estruturas ainda de pé. Problemas estruturais, como a pouca confiabilidade do sistema de transmissão de energia, podem ser agravados, com risco de novos e recorrentes apagões. E, embora as avaliações iniciais não tenham apontado danos graves ao setor de petróleo, analistas acreditam que o desastre afetará a produção. — Delcy dá a resposta que é possível com pouco dinheiro, um país com infraestrutura pública sucateada e sob direção dos EUA, de maneira antidemocrática — explica Loss. — Ela tem poucas cartas. Forte terremoto atinge a Venezuela 1 de 20 Fotografias aéreas mostra comparação do antes e depois do terremoto em La Guaira — Foto: Vantor / AFP 2 de 20 Equipes de resgate seguem em uma corrida contra o tempo para encontrar sobreviventes soterrados em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 20 fotos 3 de 20 Um homem inspeciona um prédio de apartamentos que desabou após um terremoto em Catia La Mar, no estado de La Guaira, a cerca de 30 km a noroeste de Caracas, em 25 de junho de 2026 — Foto: FEDERICO PARRA / AFP 4 de 20 Registro mostra o interior de uma casa após terremoto na cidade de Catia La Mar — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 5 de 20 Pessoas dormem na rua após o terremoto em Caracas — Foto: Manaure QUINTERO / AFP 6 de 20 Equipes de socorro, incluindo integrantes da Cruz Vermelha Venezuelana, procuram pessoas que possam estar presas sob os escombros — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 7 de 20 Busca por pessoas que possam estar soterradas em Caracas — Foto: Federico PARRA / AFP 8 de 20 Nos próximos dias, o esforço humanitário deverá se concentrar no resgate de sobreviventes — Foto: Federico PARRA / AFP X de 20 Publicidade 9 de 20 As pessoas retiradas dos escombros estão recebendo atendimento médico em clínicas locais — Foto: Federico PARRA / AFP 10 de 20 Grupos de resgate fazem buscas com pessoas nos escombros em Catia La Mar — Foto: Juan BARRETO / AFP X de 20 Publicidade 11 de 20 Prédios destruídos, feridos e pânico: imagens mostram destruição causada por terremoto na Venezuela — Foto: Juan Barreto/AFP 12 de 20 O governo venezuelano declarou estado de emergência após dois fortes terremotos atingirem o país quase consecutivamente — Foto: Juan Barreto/AFP X de 20 Publicidade 13 de 20 Os tremores foram sentidos até na Colômbia e no Brasil — Foto: Federico Parra/AFP 14 de 20 As cenas em Caracas eram de destruição e pânico — Foto: Federico Parra/AFP X de 20 Publicidade 15 de 20 Pessoas do lado de fora gritavam os nomes de seus parentes, e alguns voluntários escalavam os escombros — Foto: Federico Parra/AFP 16 de 20 Diversas áreas ficaram sem energia elétrica. Muitas ruas estavam cobertas de cacos de vidro — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 20 Publicidade 17 de 20 Pessoas que evacuaram prédios em Caracas esperaram mais de uma hora antes de retornar — Foto: Manaure Quintero/AFP 18 de 20 Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas — Foto: Manaure Quintero/AFP X de 20 Publicidade 19 de 20 Terremotos causaram destruição na Venezuela — Foto: AFP 20 de 20 Terremotos na Venezuela: país registra 10 réplicas após abalos que deixaram ao menos 32 mortos — Foto: AFP X de 20 Publicidade Prédios desabaram em diferentes partes de Caracas Desde o início do ano, os americanos exercem controle sobre as exportações de petróleo — o país tem as maiores reservas comprovadas do mundo — e teriam embolsado boa parte dos lucros. Estima-se que as vendas tenham somado US$ 8 bilhões (R$ 41,3 bilhões) entre janeiro e abril, mas há pouca transparência sobre o destino do dinheiro. Trump já se referiu ao país como o 51º estado americano, e a mudança de tom em Caracas, com o apagamento das críticas ao "Império do Norte", sugere poucos insatisfeitos no neochavismo pró-Washington. — Os EUA fazem uma tutela à distância, sem tropas, sem bases, sem equipe destacada para governar a Venezuela. Até porque o eleitor americano não quer intervenção — detalha Loss. — Os problemas mais diretos estão sendo administrados por Delcy, muito cômodo para a Casa Branca. Por isso, havia grande expectativa sobre a reação americana à crise. Em sua rede social, Trump disse que os EUA "estão prontos, dispostos e aptos a ajudar", "ao lado de nossos novos e grandes amigos". Até o momento, foram anunciados os envios de dois navios de apoio e transporte, aeronaves, helicópteros e US$ 150 milhões (R$ 775,5 milhões), mas com uma ressalva: do total, US$ 50 milhões (R$ 258,5 milhões) serão desembolsados através de grupos humanitários que atuam no país, e o restante destinado a um fundo administrado pela ONU. Futura candidatura — Foi um apoio tímido, pois a Venezuela vai demandar muito mais. Precisamos ver se os EUA vão, de fato, alavancar esse apoio — opina Araújo, que também questiona se Trump poderia cobrar futuramente por uma ajuda mais robusta. — Neste cenário, a supervisão dos EUA da exploração do petróleo venezuelano pode se aprofundar. Segundo pesquisas, a líder oposicionista María Corina Machado venceria com facilidade uma disputa presidencial, mas ela não retornou ao país e também não está claro se poderia participar de um futuro pleito. Nas últimas semanas, Delcy realizou carreatas para promover seu governo e reduzir a impopularidade herdada de Maduro. A chavista já anunciou que deve ser candidata em uma disputa à Presidência, quando ela ocorrer. — Hoje não há condições, em meio a uma tragédia humanitária, de o país realizar uma disputa eleitoral. Talvez isso faça Delcy se cacifar ainda mais politicamente e potencialize sua força política na Venezuela — explica Araújo. — A depender de como o governo se comportar na tragédia, ela poderá se consolidar como uma governante eficaz. E talvez a Venezuela precise hoje disso, de um governo minimamente funcional.
Terremotos na Venezuela impõem primeiro grande desafio a Delcy e à nova relação entre Caracas e EUA
Com estragos ao redor do país e número de mortos que pode chegar aos milhares, líder interina venezuelana quer reforçar imagem de liderança, mas com legitimidade em xeque















