Levantamento mostra aumento da desaprovação à presidente interina Delcy Rodríguez e forte insatisfação com a resposta do governo ao desastre 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Delcy Rodríguez toma posse como presidente da Venezuela em sessão da Assembleia Nacional, em Caracas, dois dias após a captura de Nicolás Maduro em operação militar dos EUA — Foto: Federico Parra / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/07/2026 - 16:32 Desaprovação a Delcy Rodríguez cresce após terremotos na Venezuela Quase metade dos venezuelanos defende novas eleições após terremotos, segundo pesquisa da AtlasIntel. A desaprovação à presidente interina Delcy Rodríguez subiu para 63,3%, refletindo insatisfação com a resposta do governo ao desastre que deixou 2.595 mortos. Enquanto 45,7% priorizam novas eleições, 32,6% focam na reconstrução. A crise de confiança no governo cresce, enquanto a oposição, liderada por María Corina Machado, ganha apoio. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A resposta do governo venezuelano aos dois terremotos que atingirem o país na semana passada provocou um aumento da pressão política sobre a presidente interina, Delcy Rodríguez. Quase metade dos venezuelanos considera agora que a realização de novas eleições presidenciais é mais urgente do que a reconstrução das áreas devastadas, segundo pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News entre os dias 26 e 30 de junho, após o desastre. O levantamento mostra que a taxa de desaprovação de Delcy chegou a 63,3% em junho, alta de quase cinco pontos percentuais em relação ao mês anterior. Quase dois terços dos entrevistados desaprovaram a forma como o governo lidou com os terremotos, enquanto 52,4% classificaram a resposta oficial como “muito ruim”. Questionados sobre as prioridades do país, 45,7% dos entrevistados disseram que eleger um novo presidente é mais importante neste momento, enquanto 32,6% afirmaram que a reconstrução das áreas afetadas deve vir em primeiro lugar. Nos últimos dias, a insatisfação também se espalhou pelas redes sociais. Vídeos mostram venezuelanos criticando a demora da resposta do governo e confrontando autoridades. Segundo dados oficiais divulgados nesta sexta-feira, os terremotos deixaram 2.645 mil mortos e 12.666 feridos. Um registro apoiado pela oposição, no entanto, continua listando mais de 38 mil pessoas como desaparecidas. — As pessoas estão muito irritadas com o governo por não ter levado os terremotos a sério e por não ter organizado uma resposta eficaz — disse Brian Naranjo, diplomata sênior aposentado dos EUA com experiência na Venezuela. — A agitação civil pode se tornar um problema. Segundo Naranjo, a resposta ao desastre também reativou os laços comunitários entre venezuelanos fora da esfera política, gerando um nível de mobilização social que não era observado havia anos. Um dos vídeos mais compartilhados nas redes mostra voluntários confrontando soldados em uma área fortemente militarizada, questionando por que eles carregavam fuzis em vez de picaretas e pás. “Esse uniforme existe para defender o país”, diz um homem aos militares. “Não estamos em guerra, estamos enfrentando uma emergência”. Repercussão negativa O Ministério da Informação da Venezuela não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Em entrevista coletiva concedida à imprensa estrangeira na noite de quinta-feira, Delcy afirmou que os relatos sobre uma resposta lenta do governo foram “em grande parte moldados por narrativas fabricadas em campanhas coordenadas de informação”. — A primeira narrativa criada em laboratórios midiáticos foi: “desçam todos para La Guaira”, para provocar o caos, impedir as operações de busca e resgate... Nós sabemos quem são e de onde partiram essas principais narrativas — disse, atribuindo o caos inicial não à mobilização espontânea dos venezuelanos, mas a motivações políticas. Segundo a presidente interina, o Estado “foi acionado imediatamente”, mas, “naturalmente”, as primeiras pessoas a chegar aos edifícios desabados foram sobreviventes, familiares e vizinhos. Ela também afirmou que algumas áreas remotas não puderam ser alcançadas “por até dois dias” porque as estradas estavam bloqueadas. Desde os terremotos, a televisão estatal passou a exibir coletivas de imprensa e visitas de autoridades às regiões atingidas. Uma cronologia transmitida pela emissora estatal Venezolana de Televisión mostrou, porém, que Delcy só se pronunciou cerca de 90 minutos após os dois tremores e que as forças de segurança, equipes médicas de emergência e unidades de proteção civil foram mobilizadas apenas depois disso. — A primeira decisão daquele dia foi militarizar o estado de La Guaira, porque não podíamos permitir que laboratórios midiáticos inviabilizassem as operações de busca e resgate. Miseráveis. Os laboratórios midiáticos que respondem a interesses partidários e políticos são miseráveis — disse Delcy na quinta-feira. Outro vídeo amplamente compartilhado mostra o ministro do Interior, Diosdado Cabello, discutindo com equipes internacionais de resgate após impedir sua entrada em uma área devastada. — Há uma pessoa ali pedindo socorro — diz um dos socorristas nas imagens. — O senhor não quer que ajudemos aquela pessoa? Dias depois do episódio, diante da crescente repercussão negativa, a equipe de Cabello afirmou em uma publicação no Telegram que o objetivo não era impedir o trabalho dos voluntários, mas controlar o acesso para garantir que a ajuda chegasse a quem mais precisava. Menos confiança A pesquisa indica que o desastre aprofundou uma crise de confiança que já vinha se formando desde a captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA, em janeiro. Segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, foram 1.926 protestos contra o governo nos três primeiros meses deste ano, ante 788 registrados no mesmo período de 2025. O governo não adotou os mesmos níveis de repressão do passado, enquanto busca cooperar com a pressão exercida pelos Estados Unidos. Autoridades americanas, por sua vez, defenderam a atuação da administração interina. O encarregado de negócios dos Estados Unidos na Venezuela, John Barrett, afirmou, em entrevista concedida à Univision no fim de junho, que o compromisso do governo “não mudou desde o terremoto — na verdade, apenas aumentou”. — Vi total transparência em minhas conversas com a presidência interina e uma preocupação genuína em cuidar da população e continuar trabalhando conosco — declarou Barrett. Apesar disso, a pesquisa mostra que os venezuelanos depositaram mais confiança em atores não estatais do que nas instituições públicas durante a emergência. Os entrevistados atribuíram maior contribuição aos esforços de socorro e reconstrução a médicos, bombeiros, empresas privadas, organizações não governamentais, grupos religiosos e à líder da oposição María Corina Machado do que ao governo. “As instituições do Estado não estiveram à altura do desafio”, afirmou a equipe de María Corina em comunicado divulgado na quarta-feira. “Em lugares demais, os cidadãos tiveram de enfrentar sozinhos as dificuldades desta emergência”. María Corina permanece no Panamá após as autoridades impedirem seu retorno à Venezuela. Ainda assim, continua sendo a líder política mais bem avaliada do país: 53% dos entrevistados disseram ter uma imagem positiva dela, embora esse índice represente queda de dois pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. Imagens de satélite mostram antes e depois de área mais devastada por terremotos na Venezuela 1 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 2 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 6 fotos 3 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 4 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade 5 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP 6 de 6 Antes e depois dos terremotos de 24 de junho de 2026 no estado venezuelano de La Guaira — Foto: Imagens de satélite ©2026 VANTOR / AFP X de 6 Publicidade Governo interino declarou a região do estado de La Guaira como 'zona de desastre' Delcy também foi alvo de protestos durante visita, na semana passada, a um dos bairros mais atingidos de Caracas. Moradores cercaram a presidente interina, acusaram as autoridades de abandono e passaram a gritar repetidamente: “Fora!”. A AtlasIntel entrevistou 2.581 adultos em toda a Venezuela, começando dois dias após os terremotos. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.