Taxa de desaprovação de Delcy Rodríguez subiu em junho, segundo pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News entre 26 e 30 de junho, após os tremores Moradores e equipes de resgate vasculham os escombros de prédios danificados pelos terremotos que atingiram La Guaira, Venezuela, na quinta-feira, 2 de julho de 2026 — Foto: AP/Ariana Cubillos A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, enfrenta um desgaste político crescente após os dois terremotos da semana passada. Quase metade dos venezuelanos afirma que realizar novas eleições é mais urgente do que reconstruir o país após o desastre. A taxa de desaprovação de Rodríguez subiu para 63,3% em junho, alta de quase cinco pontos percentuais em relação a maio, segundo pesquisa da AtlasIntel realizada para a Bloomberg News entre 26 e 30 de junho, após os terremotos. Quase dois terços dos entrevistados desaprovaram a forma como o governo lidou com a tragédia, enquanto 52,4% classificaram a resposta como "muito ruim". Agora, 45,7% dos entrevistados afirmam que eleger um novo presidente é uma prioridade maior do que a reconstrução, defendida por 32,6%. A indignação popular transbordou para as redes sociais nos últimos dias, onde circulam vídeos de venezuelanos criticando a demora da resposta do governo e confrontando autoridades. O governo informou oficialmente quase 2.600 mortos e 12.400 feridos. Um cadastro apoiado pela oposição ainda lista mais de 38 mil desaparecidos. "As pessoas estão muito irritadas com o governo por não ter levado os terremotos a sério e por não ter organizado uma resposta eficaz", disse Brian Naranjo, diplomata americano aposentado com experiência na Venezuela. "A agitação social pode se tornar um problema." Segundo ele, a resposta ao desastre também reativou laços de solidariedade entre venezuelanos fora da esfera política, gerando um nível de mobilização comunitária que não era visto havia anos. Um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais mostra voluntários confrontando soldados em uma área militarizada do desastre, perguntando por que carregavam fuzis em vez de picaretas e pás. "Esse uniforme é para defender o país", diz um homem visivelmente frustrado aos militares, enquanto outras pessoas se aproximam. "Nós não estamos em guerra — estamos enfrentando uma emergência." A sigla SOS é vista em prédios desabados após os terremotos gêmeos de 24 de junho em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela, na quinta-feira, 2 de julho de 2026 — Foto: Miguel Medina/Pool Photo via AP O Ministério da Informação da Venezuela não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Em entrevista coletiva concedida na noite de quinta-feira a jornalistas estrangeiros, porém, Rodríguez afirmou que os relatos sobre uma resposta lenta do governo foram "em grande parte moldados por narrativas fabricadas em campanhas coordenadas de informação". Segundo ela, o Estado "foi acionado imediatamente", mas, "naturalmente", as primeiras pessoas a chegar aos prédios desabados foram sobreviventes, familiares e vizinhos. Ela acrescentou que algumas áreas remotas não puderam ser alcançadas "por até dois dias" porque as estradas estavam bloqueadas. Desde os terremotos, a televisão estatal tem exibido reportagens sobre reuniões de autoridades e visitas de integrantes do governo às áreas atingidas. Uma cronologia divulgada anteriormente pela emissora estatal Venezolana de Televisión mostrou que Rodríguez só fez um pronunciamento ao país cerca de 90 minutos após os dois terremotos e que as forças de segurança, equipes médicas de emergência e unidades da Defesa Civil foram mobilizadas apenas depois disso. Outro vídeo amplamente compartilhado mostra o ministro do Interior, Diosdado Cabello, discutindo com equipes internacionais de resgate após impedir sua entrada em uma área devastada. "Tem alguém ali pedindo socorro", diz um socorrista a Cabello nas imagens. "O senhor não quer que ajudemos essa pessoa?" Dias após o episódio, e diante das críticas crescentes, a equipe de Cabello afirmou em uma publicação no Telegram que o objetivo não era impedir a atuação dos voluntários, mas controlar o acesso para garantir que a ajuda chegasse às pessoas mais necessitadas. A pesquisa sugere que o desastre acelerou uma crise de confiança que vinha se agravando desde a captura de Nicolás Maduro por forças americanas em janeiro. Os protestos contra o governo já haviam subido para 1.926 nos três primeiros meses do ano, ante 788 no mesmo período de 2025, segundo o Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais. O governo não adotou o mesmo nível de repressão observado no passado, enquanto busca cooperar com a pressão exercida pelos Estados Unidos. Autoridades americanas defenderam a atuação do governo Rodríguez. O compromisso do governo interino "não mudou desde o terremoto — na verdade, apenas aumentou", afirmou o encarregado de negócios dos Estados Unidos na Venezuela, John Barrett, em entrevista concedida à Univision no fim de junho. "Vi total transparência em minhas conversas com a presidência interina e uma preocupação genuína em cuidar da população e continuar trabalhando conosco", afirmou Barrett. Em vez disso, os venezuelanos demonstraram confiar mais em atores não estatais do que nas instituições governamentais durante a emergência, segundo a pesquisa. Os entrevistados atribuíram maior contribuição aos esforços de socorro e reconstrução a médicos, bombeiros, empresas privadas, organizações não governamentais, grupos religiosos e à líder da oposição María Corina Machado do que ao governo, às forças policiais ou à própria Rodríguez. "As instituições do Estado não estiveram à altura do desafio", afirmou a equipe de Machado em comunicado divulgado na quarta-feira. "Em lugares demais, os cidadãos tiveram de enfrentar sozinhos as dificuldades desta emergência." Machado, que permanece no Panamá depois de as autoridades impedirem seu retorno à Venezuela, continua sendo a líder política mais bem avaliada do país: 53% dos entrevistados disseram ter uma imagem positiva dela. Ainda assim, o índice caiu dois pontos percentuais em relação à pesquisa anterior. Com grandes áreas ainda cobertas por escombros e diminuindo as esperanças de encontrar sobreviventes, venezuelanos desesperados passaram a recorrer a grupos de WhatsApp em busca de ajuda, oferecendo pagamento por escavadeiras ou equipes para remover edifícios desabados. Na quinta-feira, equipes de resgate retiraram um homem com vida dos escombros após oito dias preso sob os destroços. A própria Rodríguez também enfrentou manifestações de revolta popular. Durante uma visita, na semana passada, a um dos bairros mais atingidos de Caracas, moradores a cercaram, acusaram as autoridades de tê-los abandonado e passaram a gritar repetidamente: "Fora!". A AtlasIntel entrevistou 2.581 adultos em toda a Venezuela a partir de dois dias após os terremotos. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Equipes de resgate buscam sobreviventes em prédios destruídos após os terremotos de 24 de junho em Los Corales, estado de La Guaira, Venezuela, na quarta-feira, 1º de julho de 2026 — Foto: Bloomberg
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