Embora as decisões de ambos os bancos centrais não tenham surpreendido o mercado, a comunicação dos colegiados fugiu do esperado O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo — Foto: Raphael Ribeiro/BC As preocupações com a política monetária no Brasil e nos Estados Unidos devem concentrar a atenção dos investidores nesta quinta-feira, após o tom bastante duro adotado pelo Federal Reserve (Fed) e um comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) que gerou ruídos sobre os próximos passos do Banco Central. Embora as decisões de ambos os bancos centrais não tenham surpreendido o mercado, com a manutenção dos juros americanos entre 3,50% e 3,75% ao ano e a redução da Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, a comunicação dos colegiados fugiu do esperado. A primeira decisão do Fed sob o comando de Kevin Warsh trouxe a projeção de nove dirigentes favoráveis a uma alta dos juros ainda em 2026, sinalizando uma postura mais conservadora do que a esperada pelo mercado. A leitura foi reforçada pelo próprio Warsh, que afastou a possibilidade de cortes no curto prazo ao indicar mudanças na estratégia de comunicação do banco central. Entre elas está a retirada do chamado “forward guidance” (orientação futura), que o dirigente classificou como inadequado para o atual ambiente econômico. Nesta manhã, os contratos futuros de Fed funds apontam aumento das apostas em uma elevação dos juros a partir de setembro. Segundo dados compilados pelo CME Group, a probabilidade atribuída pelo mercado a esse cenário é de 51%, ante 29,5% para a manutenção das taxas. Apesar de a reação inicial dos ativos globais ter sido negativa, os futuros de Wall Street voltavam a subir nesta manhã. Por volta das 8h, o Nasdaq avançava 1,46% e o S&P 500 ganhava 0,80%. Já o dólar seguia se fortalecendo: o DXY, índice que mede o desempenho da divisa americana frente a uma cesta de seis moedas fortes, subia 0,34%, aos 100,73 pontos. Se o Fed chamou atenção pela sinalização mais dura sobre os juros americanos, o Copom gerou questionamentos sobre a forma como o Banco Central brasileiro está avaliando o horizonte para a condução da política monetária. O principal ruído do comunicado veio da menção ao trimestre posterior ao chamado "horizonte relevante", intervalo utilizado pelo Banco Central para calibrar a política monetária e estimar quando seus efeitos serão sentidos na economia, segundo economistas ouvidos pelo Valor. Atualmente, esse horizonte se encerrava no quarto trimestre de 2027, mas o comunicado passou a fazer referência ao primeiro trimestre de 2028. "É louvável trabalhar com cenário alternativo, mas se o BC costuma olhar para o horizonte relevante, por que ele menciona um trimestre à frente? Na prática, a autoridade alongou esse prazo. Isso traz o questionamento sobre se o horizonte relevante agora é aquele que permite cortar juros", diz o economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, Gino Olivares. "É um contorcionismo para poder continuar cortando [a Selic]." Nesse ambiente de maior cautela com a trajetória dos juros, o otimismo gerado pela reabertura do Estreito de Ormuz após a assinatura do acordo provisório entre Estados Unidos e Irã, nesta quarta-feira, tende a ficar em segundo plano. Apesar da extensão do cessar-fogo por mais 60 dias, permanecem incertezas em torno do programa nuclear iraniano. Ao mesmo tempo, o presidente americano, Donald Trump, continua ameaçando retomar os ataques e atingir autoridades iranianas caso o país descumpra os compromissos firmados.