Analistas atribuem piora das projeções a uma combinação entre a comunicação do BC e a crescente percepção de risco fiscal associada ao cenário eleitoral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O edifício do Banco Central, em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/06/2026 - 19:25 Redução da Selic para 14,25% agrava tensão no mercado financeiro e gera pessimismo econômico Em um dia de alta tensão, o mercado reagiu ao comunicado do Copom sobre a redução da Selic para 14,25%, gerando pessimismo nos analistas quanto à inflação e ao risco fiscal, exacerbado pelo cenário eleitoral. O Tesouro Nacional adiou um leilão de títulos diante das altas taxas, enquanto o BC interveio no mercado de câmbio. A confusa comunicação do BC e a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas aumentaram a incerteza e a pressão sobre as taxas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO As previsões de analistas do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos deste ano tiveram uma deterioração significativa hoje, refletindo o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) da semana passada que informou a decisão do colegiado do Banco Central (BC) de cortar a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. O estresse no mercado fez o Tesouro Nacional, que realiza seus leilões da dívida pública todas as terças e quintas, adiar a oferta que seria realizada amanhã, evitando emitir dívida pagando taxas consideradas muito elevadas. O BC também atuou no mercado de câmbio. O texto do Copom foi considerado dúbio pelos analistas, que passaram a prever juro mais alto, inflação ainda pressionada e até mesmo chances de um ciclo de aperto monetário, segundo apurou o Boletim Focus, divulgado hoje. A pesquisa semanal feita pelo BC com instituições financeiras apontou, para este ano, uma estimativa de apenas mais uma flexibilização da Selic ao longo do ano, estimando-a em 14% em dezembro. É uma alta na comparação com a semana anterior, quando a mediana das previsões mostrava que a taxa cairia aos 13,75% até o fim do ano. Na curva de juros, em contratos negociados pelos investidores, o mercado mantém a previsão da semana passada, de que a Selic retorne ao patamar dos 15% entre março e abril do ano que vem. Pesou a leitura de que o comunicado do Copom foi confuso. Os membros da diretoria do BC afirmaram que tanto o crescimento econômico quanto a inflação aceleraram, advertindo que medidas de estímulo poderiam alimentar aumentos de preços ao consumidor que já estão acima da meta. Mesmo assim, a autoridade monetária cortou 0,25 ponto percentual da Selic, embora não tenha feito previsão para seus próximos passos. Também contribuiu para a reação do mercado o contexto eleitoral, com o candidato da oposição, Flavio Bolsonaro (PL), perdendo força nas pesquisas eleitorais. Na leitura do mercado, uma alternância de poder poderia favorecer cortes nos gastos do governo e redução dívida pública como percentual do PIB e da Selic, probabilidade que vê como menos provável no cenário de reeleição de Lula (PT). Segundo o Instituto Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, a previsão é que a dívida alcance 82,7% do PIB ao fim deste ano, e 86,2% no fim do ano que vem. Para Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting e colunista do GLOBO, a comunicação confusa da ata do Copom trouxe “fantasmas” sobre uma possível permissividade com um nível de inflação mais alto, o que se converteu nas taxas previstas pelo mercado: — O comunicado foi muito confuso, usando de um artifício de estender o período de convergência de inflação para a meta. Mas foi de uma forma muito ruim. E trouxe fantasmas da era (de Alexandre) Tombini, quando houve aquele “cavalo de pau” — relembra ela, referindo-se ao presidente do BC no governo Dilma Rousseff, quando houve corte de juros mesmo num contexto inflacionário. Na leitura de Fábio Kanczuk, ex-diretor do BC, a perda de competitividade de Flávio Bolsonaro (PL) diante de Lula nas recentes pesquisas também contribuiu para a pressão das taxas recentes, e o aumento das estimativas para a Selic no Focus. Segundo ele, a probabilidade de vitória do petista passou aumentar na visão do mercado com a evolução positiva dele nas pesquisas nas últimas semanas. — Isso pegou o mercado interno, com maior probabilidade de um fiscal insustentável pós-eleição — diz ele, que também vê como confusa a comunicação do BC na semana passada e avalia que a alta nos juros futuros recentes pode ser um reflexo dessa leitura, considerando-se o cenário inflacionário adiante. — Se as pessoas entendem que o BC é mais leniente com a inflação, pedem mais juros. “Só vou colocar meu dinheiro se o título pagar mais, porque a inflação vai comer parte disso daí”, dizem. Foi isso que vimos. Variação significativa do IPCA+ Os títulos do Tesouro indexados à inflação (IPCA+), com vencimento para 2032, chegaram a ser negociados com taxa real de 8,56% durante a manhã, nível considerado expressivo e o maior para um papel com prazo de seis anos desde 2006. As taxas arrefeceram após o anúncio do adiamento do leilão e da queda dos juros futuros, qu reagiram à baixa do petróleo no exterior. Ainda assim, as taxas seguiram em patamar alto, acima de 8%. Separadamente, o Banco Central realizou uma operação conhecida como “casadão”, vendendo dólares no mercado à vista e desmontando parte de sua posição em swaps cambiais. A operação dupla impede que os juros em dólar utilizados localmente, conhecidos como cupom cambial, continuem subindo e comprimindo o retorno das operações de carry trade com a moeda. Os contratos futuros de swap de juros recuaram nesta segunda-feira, enquanto o real apresentou leve valorização frente ao dólar, superando o desempenho da maioria das moedas de mercados emergentes. Os rendimentos dos títulos indexados à inflação vêm subindo de forma constante há semanas em meio a uma ampla onda de vendas nos mercados locais. Os juros dos papéis atrelados ao IPCA com vencimento em maio de 2029 avançaram mais de 80 pontos-base desde o início do mês, alcançando 8,81%. Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, afirmou que o cancelamento do leilão de NTN-B pelo Tesouro pode ser um primeiro passo rumo a uma operação de recompra de títulos. — O mercado está realmente muito machucado. Não há compradores, e não há muito o que se possa fazer a respeito — disse ele. (Com Bloomberg News)