O Copom toma hoje uma decisão particularmente difícil. Boa parte do mercado espera mais um corte da Selic, para 14,25%, mas é no comunicado que o BC vai ajustar seu plano de voo para um cenário doméstico e internacional volátil e complexo.PUBLICIDADELivio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG e pesquisador associado do FGV-IBRE, espera corte de 0,25 ponto porcentual (pp), com o Copom mantendo a porta aberta para novos cortes desse tamanho.Mas ele acredita que o BC vai "inverter o tom" no comunicado. Ribeiro explica que, para esta reunião, a comunicação foi de um cenário base de corte, mas com uma alternativa de manutenção. No comunicado de hoje, ele pensa que a sinalização para a próxima reunião, nos dias 4 e 5 de agosto, deve ser de um cenário base de manutenção, mas com alternativa de corte.O economista pensa que o BC não deve modificar o balanço de riscos no sentido de apontar uma assimetria para o risco de mais inflação. Por outro lado, diz Ribeiro, "é difícil que o Copom não reconheça que a evolução do cenário foi pior do que se esperava na última reunião".Segundo o analista, se o acordo do Oriente Médio se mantiver, o preço do petróleo desabar e a percepção de risco global cair, o Copom deve cortar a Selic novamente em agosto.PublicidadeEmbora essas sejam as suas projeções, Ribeiro vê a situação inflacionária como bem pior do que parece julgar o Copom. Para o economista, o balanço de riscos está muito assimétrico para o lado inflacionário.Segundo o analista, o principal vetor de pressão inflacionária no Brasil não é o choque de oferta do petróleo, mas sim "pressão de demanda pela aceleração das políticas fiscais e creditícias associadas ao atual ciclo político-eleitoral".Ele inclusive prevê que o Copom volte a elevar a Selic em 2017, até o nível de 15,5%, diante de uma inflação acumulada em 12 meses de "quase 6%" entre o primeiro e o segundo trimestres do ano que vem. Para o economista, se o BC não elevar os juros em 2027, a inflação acumulada em 12 meses não volta para baixo do limite de tolerância de 4,5% nem em 2028.Andrei Spacov, sócio e economista-chefe da gestora Exploritas Investimentos, tem previsão para o desfecho da reunião do Copom hoje parecida com a de Ribeiro, mas uma visão da conjuntura geral bastante diferente.Segundo o economista, "o BC vai cortar 0,25pp, mas subir um pouco a barra para continuar cortando".PublicidadeEle nota que o cenário global é "esquizofrênico", no sentido de que há grandes oscilações para um lado e para o outro. Spacov exemplifica com o petróleo, que está por volta de US$ 80 o barril, muito inferior à cotação na reunião anterior do Copom (próxima a US$ 110) e num nível que poucos pensariam há pouco tempo que a commodity pudesse atingir hoje.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADESpacov propõe que se olhe por outro ângulo a dinâmica entre juros extremamente restritivos e os estímulos parafiscais. Segundo ele, normalmente se pensa como pode a atividade estar tão forte com o juro no atual nível. Ele propõe que se pense na quantidade de estímulos que está sendo necessária para manter a atividade com o atual nível de restrição dos juros.Assim, na hora em que os estímulos forem reduzidos ou eliminados - e seria normal pensar que em 2027, um primeiro ano de mandato, haverá queda dos estímulos comparado a um ano eleitoral -, é preciso estar atento ao que pode acontecer com a atividade. E Spacov pensa que o BC deve estar atento.Ele lembra que, depois das políticas inconsistentes do primeiro mandato de Dilma, a economia caiu na maior recessão da história no segundo mandato, que terminou em impeachment. O economista acrescenta que, com o juro real na casa de 10-11%, tem havido muitas recuperações judiciais, como, por exemplo, no setor agropecuário.Spacov pensa que a comunicação do BC hoje deve ser no sentido de condicionar a continuidade do ciclo de cortes ou à melhora das projeções de inflação ou - de acordo com o exposto acima - a uma piora forte do balanço de riscos em termos de atividade.Publicidade"O risco pelo lado da atividade não é desprezível", diz o economista.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/6/2026, quarta-feira.
Opinião | Copom decide em meio a complexo balanço de riscos
Inflação em alta e dinâmica dos estímulos fiscais são algumas dos fatores que devem influenciar decisão sobre Selic e comunicado da reunião.












