Possibilidade de fim da guerra e expectativa de corte de 0,25 ponto porcentual ajudam o BC a dar sequência no processo de "calibração" da Selic, mas ambiente ficou mais pantanoso 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Gabriel Galipolo sede do Banco Central, em Brasília — Foto: Cristiano Mariz/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 14/06/2026 - 19:18 Copom Avalia Corte na Selic em Cenário Econômico Volátil e Eleitoral Em meio a um cenário volátil, o Copom decidirá sobre a Selic, com expectativa de corte de 0,25 ponto. O mercado critica a política econômica do governo em ano eleitoral, enquanto o Banco Central enfrenta pressões para manter a credibilidade. Medidas fiscais e parafiscais são apontadas como limitadoras de cortes de juros. O contexto externo e a inflação desafiam o BC, que busca equilíbrio nas decisões. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em meio a um quadro de intensa volatilidade nos mercados, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidirá na próxima quarta-feira se dá sequência ao ciclo de cortes bastante gradual que vem implementando desde março. Nessa primeira metade do mês, as taxas de juros projetadas nas negociações de títulos chegaram a subir significativamente e precificar a manutenção da Selic no atuais 14,5% ao ano. Nos últimos dois dias, porém, o quadro externo distensionou com as notícias de um possível fim da guerra no Oriente Médio e as projeções voltaram a considerar pelo menos mais um corte de 0,25 ponto porcentual, embora com chance não desprezível de manutenção. Ainda que o fator externo seja de fato preponderante para a piora no quadro do mercado financeiro, que também empurrou o dólar para acima de R$ 5, investidores aproveitam que os estrangeiros estão mais avessos ao risco para questionar o viés expansionista da política econômica do governo nesse ano eleitoral. Isso se traduz em um cenário de juros mais altos e cobranças ao BC pelo mercado. Os títulos atrelados ao IPCA com prazo de cinco anos, por exemplo, chegaram a ter taxa real acima de 8,3% ao ano, valor considerado insustentável se permanecer por muito tempo. Cada vez mais, as chamadas medidas parafiscais, aquelas operações de crédito que têm origem em recursos financeiros da União e que não impactam o resultado primário (receitas menos despesas, sem juros), estão sendo mencionadas pelos economistas como ações para acelerar a economia e que, por isso, estariam reduzindo o espaço para corte dos juros. Além disso, apesar de o cenário do mercado ser de cumprimento da meta fiscal, a execução propriamente dos gastos está muito mais acelerada nessa primeira metade do ano por conta do ciclo eleitoral e de medidas como a antecipação do pagamento de dívidas decorrentes de sentenças judiciais (precatórios). Com despesas mais altas, que claramente estão tendo impacto de estimular a atividade econômica (como mostraram os dados do PIB do primeiro trimestre) em um contexto de choque de preços vindo do exterior, a percepção no mercado é de um cenário de inflação mais desafiador. “Em nossa visão, a combinação de políticas econômicas está se tornando menos favorável ao ciclo de calibragem do Banco Central, pois o crédito subsidiado enfraquece a transmissão adequada da política monetária ao mesmo tempo em que sustenta a demanda doméstica. Somando-se aos riscos de alta para a inflação — incluindo aqueles decorrentes de uma possível redução da jornada de trabalho com implementação acelerada antes das eleições — agora esperamos que o Banco Central interrompa seu ciclo com a Selic em 14,0%, ante 13,5% anteriormente”, diz relatório do banco Barclays, assinado pelo economista Roberto Secemski, que mapeou um volume de quase R$ 200 bilhões em 13 medidas fiscais e parafiscais adotadas desde março. Ele também questiona o uso do expediente de “créditos extraordinários” em algumas medidas. Em tese, o recurso deveria ser para situações bastante excepcionais e urgentes, pois libera orçamento antes de uma discussão mais profunda com o Congresso. “Por exemplo, a emissão de R$ 30 bilhões em créditos extraordinários para subsidiar um programa de renovação de frota de táxis e veículos de motoristas de aplicativos de transporte (Move Aplicativos) foi justificada pelo governo como urgente devido à ´necessidade de ações imediatas para aumentar a eficiência energética e promover a descarbonização da frota de sistemas individuais de transporte de passageiros. Embora a descarbonização seja um objetivo bem-vindo, o tema está presente na agenda do governo há anos”, destaca Secemski. Para o governo, porém, as medidas acionadas, tanto fiscais como parafiscais, são muito focadas, com objetivos claros, entre eles atenuar exatamente o impacto inflacionário do choque do petróleo, não estão sobreaquecendo a economia e tampouco atrapalhando o Banco Central. Em entrevistas recentes ao GLOBO, os ministros da Fazenda e do Planejamento, Dario Durigan e Bruno Moretti, salientaram que o fator externo tem sido preponderante para a piora nos mercados e o governo tem sido cuidadoso na adoção das medidas de política econômica, diferentemente do que teria acontecido em 2022, na campanha do então presidente Jair Bolsonaro. Para além da queda de braço entre o governo e o mercado financeiro, o dado concreto é que o ambiente para o Banco Central ficou pior do que era em março. As projeções de inflação se deterioraram no curto prazo, a despeito das medidas do governo para atenuar os impactos do petróleo, e, mais importante para quem conduz a política monetária, também no médio e longo prazo. A pesquisa Focus, realizada pelo BC junto aos economistas do setor financeiro, não mostra o IPCA em 3%, a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), em nenhum dos próximos anos. E, mesmo que se questione possíveis vieses desse levantamento semanal, como fez na semana passada o ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas, o fato é que ela acaba sendo uma das bússolas para a tomada de decisão de Gabriel Galípolo e companhia. Além disso, mesmo as projeções do governo e do próprio BC pioraram. E não passou despercebido dos investidores e em parte do próprio BC que o ministro Dario Durigan falou que o PIB vai surpreender de novo para cima no segundo trimestre e tratou uma inflação “abaixo de 5%” como algo positivo, ainda que a meta seja bem menor que isso. Do ponto de vista do cenário de médio prazo, as projeções de queda do IPCA à frente, mesmo que em uma convergência mais lenta em direção à meta, ainda podem dar algum conforto para um processo de “calibração” cautelosa dos juros. Uma redução da Selic agora, mesmo que pequena, tem efeitos positivos para o custo de uma pesada dívida pública, sem colocar muito risco para o IPCA. Porém, se o mercado aparentemente ainda aceita mais um ou dois cortes do juro básico, os movimentos da autoridade monetária estão sob severo escrutínio, especialmente se houver frustração em torno do anúncio de fim da guerra no Oriente Médio. O BC precisará de muita inteligência para não perder a batalha das expectativas e isso também será considerado nessa reunião. Em jogo, a tal da credibilidade.
Copom decide Selic em ambiente mais volátil e com mercado ampliando críticas sobre atuação do governo
Possibilidade de fim da guerra e expectativa de corte de 0,25 ponto porcentual ajudam o BC a dar sequência no processo de "calibração" da Selic, mas ambiente ficou mais pantanoso











