Há decisões políticas que dispensam metáforas para se revelarem absurdas. A recente opção da Administração dos Estados Unidos da América de subsidiar a indústria do carvão, adornada com a expressão grotesca de “beautiful, clean coal”, é um bom exemplo.Portugal sabe bem que as alterações climáticas não são uma abstração distante nem uma bandeira ideológica de ocasião. São uma realidade física mensurável e particularmente perigosa. A nossa geografia coloca-nos entre os países mais vulneráveis a esta realidade. Durante anos, habituámo-nos a associar essa fragilidade aos incêndios de verão e às secas prolongadas, mas as tempestades de fevereiro passado lembraram-nos, com brutal evidência, que as alterações climáticas não têm estação e são uma ameaça permanente.Enfrentar esta ameaça exige mais do que adaptação a um clima crescentemente hostil. É necessária ação internacional coordenada, enquadrada por mecanismos multilaterais, tendo Portugal interesse direto na construção de um consenso global que permita eliminar progressivamente a dependência dos combustíveis fósseis. O carbono não respeita fronteiras nem negoceia com diplomatas ou políticos, e as economias mais desenvolvidas têm uma responsabilidade acrescida. Os Estados Unidos e os países da Europa ocidental foram responsáveis por uma parte significativa das emissões acumuladas ao longo de séculos de industrialização e dispõem hoje dos recursos necessários para liderar a transição energética.Neste quadro, subsidiar a indústria do carvão não soa apenas a retrocesso, mas a provocação. Tendo já chamado “estúpidos” aos líderes de países como Portugal, que investem em energias renováveis, o Presidente norte-americano tenta agora reembalar um dos combustíveis mais poluentes com uma camada de marketing político, chamando-lhe limpo e belo.
Feio, porco e mau
Quando um dos maiores poluidores do mundo decide remar em sentido contrário, não está apenas a comprometer o seu próprio percurso. Está a comprometer o esforço coletivo.
USA subsidiam carvão enquanto Portugal lidera agenda climática no Conselho da ONU; EUA desmantelam rede sensores oceanográficos. Incoerência geopolítica ameaça alianças multilaterais e consenso energy transition; risco regulatório para tech companies com operações globais.














