Os impactos da crise climática já afetam cidades, economias e sistemas produtivos em diferentes partes do mundo, mas setores que dependem diretamente da estabilidade do clima continuam longe de apoiar medidas que reduzem os riscos que enfrentarão no futuro. A contradição entre o cenário de crise e as ações que surgem a partir dela foi debatida na abertura do Fórum Freio de Mudanças Climáticas, ocorrido na última quarta-feira, 3, segundo dia da Rio Nature & Climate Week, no Rio de Janeiro. — Há um enorme descompasso entre o que estamos fazendo na prática e o que precisa ser feito, segundo a ciência. Estamos vivendo anos sucessivamente mais quentes. Nós já somos a geração que enfrenta os impactos da mudança climática. Somos a geração que precisa se adaptar e que sofre com eventos climáticos extremos — disse Stela Herschmann, especialista em políticas climáticas do Observatório do Clima. — E a velocidade das decisões não acompanha essa realidade. Pelo contrário: continuamos apostando no caminho errado. Com mediação do jornalista André Trigueiro, o debate também teve, além de Herschmann, a participação de Henrique Bezerra, líder do Global Methane Hub na América Latina; Sérgio Besserman, economista; e Kamila Camilo, fundadora do Instituto Oyá & CriaRaiz. Para Besserman, hoje existe “uma espécie de negacionismo climático 5.0”. Enquanto alguns argumentam que o pior quadro projetado foi descartado porque as emissões não chegaram ao nível máximo, afirmou, os últimos anos mostram que parte dos cenários considerados extremos se aproximou da realidade mais rapidamente do que se imaginava. Eventos previstos para ocorrer entre 15 a 30 anos já estão acontecendo, e há cada vez mais pesquisadores defendendo que a sensibilidade climática — ou seja, o quanto a temperatura aumenta quando a concentração de carbono dobra — pode ter sido subestimada pelo IPCC. — Estamos diante de uma situação muito mais grave do que costumamos admitir, e a inércia permanece — disse, destacando que os incentivos para o cumprimento as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, em inglês), compromissos climáticos de cada país signatário do Acordo de Paris, são “praticamente inexistentes”. — Qual primeiro-ministro, presidente, governador ou prefeito está disposto a abrir mão de ganhos políticos imediatos por causa de um problema que produzirá seus efeitos mais graves daqui a dez ou vinte anos? O economista Sérgio Besserman fala durante Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação Como exemplo, Trigueiro mencionou a aprovação, pela Câmara, de quatro projetos que representam benefícios para infratores ambientais. Eles incluem a proibição de que órgãos de fiscalização apliquem multas a partir de monitoramento por satélite e mudanças nas regras de proteção para áreas florestais não consolidadas — movimento que o ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, classificou como um “retrocesso inimaginável”. Para Herschmann, as medidas significam impunidade — o que, reforçou, terá um custo: — Esse modelo predatório acaba prejudicando o próprio setor produtivo. A agricultura depende da estabilidade climática. Ao apoiar medidas que agravam a crise, o setor se torna mais vulnerável. Vemos produtores recorrendo cada vez mais a seguros e dependendo de apoio público para compensar perdas. Além disso, esse caminho fecha mercados. Os compradores internacionais estão cada vez mais atentos às questões ambientais. Na prática, o Congresso está funcionando como um instrumento de validação da ilegalidade e de um projeto de país incompatível com os desafios do novo clima. Conta ‘incompleta’ Diante das recentes tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global de petróleo e gás, Besserman disse ter ficado evidente a necessidade de sistemas energéticos mais descentralizados, com maior soberania e menor dependência externa. Ao mesmo tempo, afirmou, reaparece um argumento recorrente: o “suposto custo insuportável” de abandonar os combustíveis fósseis. Para o economista, a conta é incompleta porque desconsidera o outro lado da moeda: o custo de continuar utilizando esses recursos. — Esse custo é muito maior. Essa disputa é política, e só será resolvida quando os custos reais do aquecimento global estiverem incorporados aos preços dos combustíveis fósseis. Por isso destaco a importância da redução do metano — declarou, citando o gás que, responsável por cerca de um quarto do aquecimento global, também pode, a partir da redução de sua emissão, produzir resultados muito mais rapidamente. — Ainda há tempo para evitar cenários em que bilhões de pessoas enfrentarão níveis de sofrimento hoje difíceis de imaginar. No setor de petróleo e gás, por exemplo, estudos mostram que é possível reduzir cerca de 75% das emissões de metano utilizando tecnologias já disponíveis — e, em muitos casos, com retorno financeiro positivo para as empresas, destacou Bezerra. Segundo o especialista, há também soluções ligadas aos resíduos sólidos: cerca de metade do que é enviado aos aterros sanitários, disse, é matéria orgânica que poderia ser tratada por compostagem. Se aplicado, isso reduziria custos de transporte, diminuiria emissões e poderia gerar benefícios sociais. — Estamos falando de práticas que também aumentam a resiliência climática. Um exemplo é o manejo mais eficiente das pastagens. Hoje é possível utilizar dados de satélite ou outras ferramentas para identificar onde o pasto está mais nutritivo e fazer uma gestão mais eficiente da propriedade. Isso é adaptação climática, mas também é mitigação de metano — afirmou. Líder do Global Methane Hub na América Latina, Henrique Bezerra fala durante Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação O debate climático, porém, ainda encontra dificuldades para mobilizar a sociedade, argumentou Camilo. Os desafios são muitos: primeiro, o de disputar a comunicação com empresas de petróleo, mineração ou outros setores que têm recursos abundantes para a área. Depois, convencer a comunidade científica de que simplificar a mensagem não significa desinformar. E, por fim, a ideia de que a informação, sozinha, não basta: é preciso também haver infraestrutura pública para que seja viável implementar as mudanças necessárias. — Em São Paulo, menos de 3% dos resíduos passam por coleta seletiva. Ou seja, mesmo que eu queira agir de forma ambientalmente responsável, a infraestrutura da cidade não foi desenhada para me ajudar a fazer isso — disse. — Por isso, acredito que nossa principal missão seja mobilizar as pessoas para que possam fazer escolhas melhores, tanto na hora de escolher quem as representa quanto nas suas decisões cotidianas. Besserman foi enfático ao destacar que, após 30 anos de negociações, ainda se discute o repasse de bilhões para financiamento climático enquanto, ao mesmo tempo, os combustíveis fósseis recebem trilhões em subsídios todos os anos. O modus operandi, para ele, já está dado: “estamos usando dinheiro público para acelerar o aquecimento global quando o que precisamos é de uma transformação histórica”, ressaltou. — O modo de vida construído ao longo da fase mais recente da história da humanidade não é mais compatível com os limites do planeta. Isso não significa o fim do mercado, do dinheiro ou da atividade econômica. Mas significa que o modelo baseado na apropriação ilimitada dos recursos naturais como se fossem gratuitos chegou ao seu limite — disse. — Essa transformação será econômica, social e política. Cabe a nós compreender isso e ajudar a construir os caminhos para essa transição.
Contradição entre dependência do clima e resistência à agenda ambiental prejudica setor produtivo, defendem especialistas
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