A agenda ambiental está totalmente relacionada às estratégias de negócios e impacta a reputação de empresas, independentemente do porte. O ponto de partida para pequenas e médias empresas é compreender que qualquer atividade econômica gera resíduos e demanda energia. Esse impacto ambiental precisa ser mensurado, assim como as ações para mitigar esses danos podem e devem ser comunicadas, desde que baseadas em fatos. A recomendação dos especialistas em sustentabilidade é começar essa jornada de forma simples e com elementos que estão ao alcance dos negócios de menor porte. Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, diz que as empresas de pequeno e médio porte não precisam esperar atingir um determinado patamar para assumirem suas responsabilidades ambientais. Para Magri, mensurar esses impactos é um ato de gestão. “Quanto mais cedo empresas de pequeno e médio porte incorporarem essa agenda, maior capacidade vai existir de inovar, de reduzir custos, de qualificar fornecedores, de acessar mercados, fortalecer a reputação e responder às novas exigências dos clientes, das cadeias produtivas e da sociedade”, afirma o diretor-presidente do Instituto Ethos. Na visão do Ethos, que tem 460 empresas associadas (cerca de 50% são PMEs), a agenda ambiental para empresas de menor porte deve ser simples, sem ser superficial, incluindo questões importantes para o negócio. O impacto dessa agenda no dia a dia das pequenas e médias empresas foi abordado nas lives promovidas pelo Valor Econômico, em parceria com o Valor Social, área de responsabilidade social da Globo, nos dias 9 e 10 de junho. Como mapear pegada de carbono Caio Magri e Thiago Martins, diretor de operação e gestão ambiental da Globo, no dia 9 de junho, participaram da live “Como pequenas e médias empresas podem compreender e mensurar seus impactos ambientais”, mediada pela jornalista Suzana Liskauskas, editora-assistente do Média é Mais. Para Magri, não há mais tempo para adiar a compreensão dos impactos ambientais no ambiente de negócios. O diretor-presidente do Instituto Ethos orienta as empresas a criarem um roteiro simples, com o mapeamento da operação e escolha de indicadores prioritários, em função do modelo de negócios. “É preciso definir metas realistas que sejam de consenso da empresa. Essa decisão não deve ser só da liderança, uma decisão de metas deve envolver a equipe. Além disso, é preciso registrar evidências e fazer uma comunicação transparente”, diz Magri. Thiago Martins contou como a Globo vem construindo a jornada de sustentabilidade e influenciando a cadeia de fornecedores, que incluem muitas empresas de pequeno e médio porte, ao desenvolver um programa de compras sustentáveis abrangente. “A gente compra do alfinete ao foguete, então ao mesmo tempo que a gente está conversando em mesa de reunião discutindo questões de sustentabilidade com Google, Microsoft, fornecedor de satélite, a gente também está olhando para o nosso fornecedor pequeno. Brinco que é o pão da padaria que a gente compra para colocar na mesa do café da manhã na Ana Maria Braga todos os dias, então a gente tem fornecedores de todos os tamanhos”, afirma. Com o programa de compras sustentáveis, Martins diz que a Globo atinge principalmente os fornecedores de pequeno e médio porte com questões conceituais e educativas sobre os compromissos ESG (sigla em inglês para critérios ambientais, sociais e de governança). Para o executivo, é importante que os fornecedores vejam como os exemplos da Globo ao tratar o tema sustentabilidade e pequenas ações podem trazer ganhos a essa agenda. “A Globo, este ano, conseguiu atingir 100% do consumo e dos contratos de energia vindos de fontes renováveis. A gente também conseguiu atingir o indicador de ser uma empresa aterro zero, ou seja, todo o nosso resíduo gerado não vai para aterro sanitário. Então, a partir do momento que eu tenho isso nas nossas operações, preciso que o meu fornecedor esteja engajado no mesmo caminho. Em algum momento, a gente passará a usar isso como fator de decisão na contratação”, afirma Martins. Na avaliação do diretor, não há mais tempo para as empresas, de qualquer porte, esperarem o melhor momento de se envolver na agenda ambiental. O executivo também frisa que as companhias não podem subestimar seu tamanho com relação ao impacto ambiental que provocam. “Não subestimem o seu tamanho quanto ao impacto. Esse é um ponto importante, porque você pode pensar: Eu sou pequenininho aqui, não tenho muita relevância nesse aspecto de impacto ambiental. Não tenha esse pensamento, porque, se todos se unirem de pouquinho em pouquinho, a gente consegue realmente trazer um impacto muito grande”, afirma Martins. Comunicação sem greenwashing Empresas devem encontrar um formato de comunicação que se relacione com a sua audiência e com o território do qual fazem parte — Foto: Foto: Youtube/Valor Depois de compreender os impactos ambientais e trabalhar esses indicadores, as pequenas e médias empresas têm o desafio de comunicar essas ações sem correr riscos de enveredar por "greenwashing", quando o discurso "verde" não corresponde às ações praticadas no dia a dia do negócio. Esse foi um dos temas da live “Como comunicar ações ambientais de forma estratégica”, realizada em 10 de junho, com Kamila Camilo, empreendedora social, podcaster e fundadora do Instituto Oyá; Carolina Santoian, roteirista e redatora da Globo; e Bruna Ventura, jornalista e analista sênior de Valor Social da Globo. A conversa foi mediada pela jornalista Luciana Marinelli, editora- assistente de Projetos Especiais do Valor. Falar a verdade e ser coerente com as práticas diárias é fundamental para qualquer empresa, na avaliação de Bruna Ventura. Para a analista sênior de Valor Social da Globo, é preciso também furar bolhas para não correr o risco de se comunicar apenas com pessoas que fazem parte de um mesmo círculo social e que já estão familiarizadas com conceitos de sustentabilidade. A comunicação ganha mais quando as empresas se abrem para a diversidade. “As empresas precisam ter o conhecimento técnico respaldando o discurso, mas devem buscar traduzir isso para a linguagem das pessoas. Nosso papel com o Valor Social, na Globo, é buscar parceiros e olhares, o que passa muito pela diversidade. Falamos com pessoas da periferia, fora do eixo Rio-São Paulo, um discurso real. Então trazer a verdade dessas pessoas é muito importante, porque é a verdade que respalda o discurso para qualquer empresa”, afirma Ventura. Carolina Santoian também ressalta o valor de saber se colocar do outro lado e entender como as ações de cada um podem afetar a vida de todos. “O ponto de partida é a identificação, entender com que público está falando e se colocar no lugar dessas pessoas”, diz. Kamila Camilo diz que as empresas devem encontrar um formato que se relacione com a sua audiência e com o território do qual fazem parte. “Para além de se comunicar com que as pessoas se identificam, trazer verdades e diversidade, precisamos que as empresas e os comunicadores abram espaço para serem tocados pela natureza, para viver o que querem proteger”, diz Camilo. “Sejam contadores de histórias e se respaldem nos dados ao mesmo tempo. Se a gente desumaniza a percepção da vida, se tudo vira estatística, fica muito difícil se relacionar com as conversas desafiadoras que a gente precisa fazer”, afirma. Para assistir às lives, clique nos links: