A humanidade que tem levado o planeta Terra a chegar muito próximo de pontos de não retorno - quando as mudanças em ecossistemas importantes se tornam irreversíveis - é a mesma que luta para reverter os marcos negativos por meio da ciência, da diplomacia ambiental e da discussão sobre novos modelos econômicos. Já se passaram mais de cinco décadas desde que o mundo se reuniu em Estocolmo, Suécia, para discutir o impacto da atividade humana sobre o planeta. A conferência das Nações Unidas (ONU) sobre ambiente e desenvolvimento, em 1972, lançou as bases para o conceito de desenvolvimento sustentável, para o multilateralismo ambiental que se desdobrou em tratados internacionais - como o Acordo de Paris, de 2015, que busca frear as mudanças climáticas - e suscitou mudanças nas legislações nos países. O ano de 2026 expõe um cenário em que o mundo já convive com o aumento das temperaturas médias para patamares muito próximos dos limites estabelecidos pelo Acordo de Paris (1,5º C a 2º C), com três anos consecutivos de recordes - 2023, 2024 e 2025. O GEO-7, a mais ampla avaliação ambiental produzida no âmbito da ONU, com a contribuição de 287 cientistas, sinaliza para o impacto sistêmico do aquecimento global, da perda da biodiversidade e da poluição persistente. E, mesmo em um momento em que as crises ambientais se mesclam a um contexto político conturbado, com conflitos armados e polarização política acirrada, especialistas avaliam que é possível olhar para o copo meio cheio. “Apesar das emergências e de alguns retrocessos que estamos vivendo agora, as agendas ambientais são de longo prazo. Arrisco a dizer que, cada vez mais, elas estarão articuladas com a economia real”, diz Marcio Sztutman, diretor executivo da TNC Brasil. Na prática, a transformação deve vir de arranjos e coalizões em torno das agendas de ação, que passam pela transição para energias de baixo carbono, combate a perda global de florestas, modelos regenerativos de produção agrícola e iniciativas em massa de reflorestamento e recuperação de ecossistemas. No âmbito privado, avalia Sztutman, não houve interrupções relevantes em relação à agenda ambiental, social e de governança (ESG) por parte das empresas brasileiras ou que atuam no país. “As empresas têm mantido os programas e orçamentos [em ESG], sobretudo pela percepção de riscos em suas cadeias de suprimentos”, diz. Exemplo disso são as companhias de bebidas que, afetadas por fenômenos climáticos que afetam a disponibilidade de água, passam a investir em soluções baseadas na natureza como proteção. A chamada “agenda de natureza” entrou no radar corporativo. Um ponto de virada foi o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, adotado por 196 países durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU em Montreal, em dezembro de 2022. Pela primeira vez, o acordo trouxe uma meta específica para que o setor privado adotasse maior transparência sobre seus impactos e dependências da natureza. Paralelamente, a criação da Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza (TNFD, na sigla em inglês), iniciativa que orienta empresas e instituições financeiras na divulgação de seus riscos naturais, trouxe o tema para dentro das empresas, em trajetória semelhante à da agenda do clima. O Relatório da TNFD de 2025 aponta que 63% das 620 empresas globais consultadas consideram riscos ligados à natureza tão relevantes quanto os climáticos. “A principal mudança foi a percepção de que a natureza não está separada da economia”, diz Marina Grossi, presidente do Conselho Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds) e enviada especial da Presidência da COP30 para o setor empresarial. De acordo com um mapeamento do Cebds, a natureza como um ativo estratégico é uma das cinco tendências da agenda corporativa de sustentabilidade em 2026, ao lado de capital verde, materialidade real, descarbonização em escala e cooperação internacional. “Há uma dimensão concreta por trás dessa virada: as empresas são dependentes diretas da natureza em seus processos produtivos. Água, solo, clima estável e polinizadores não são ativos abstratos, são insumos reais”, diz Grossi. Outro impulsionador é o senso de oportunidade: a bioeconomia, por exemplo, já movimenta algo entre US$ 4 trilhões e US$ 5 trilhões globalmente e pode chegar a US$ 30 trilhões até 2050, segundo a Nature Finance. De acordo com Grossi, isso ajuda a explicar por que a biodiversidade passou a entrar de forma mais estratégica nas discussões empresariais, especialmente no Brasil, reconhecido como um país megadiverso e que acaba de lançar o primeiro plano nacional de desenvolvimento da bioeconomia (PNDBio). A tendência de valorização dos ativos ambientais e das cadeias produtivas ligadas às florestas tem sido uma aliada das políticas públicas de comando e controle no combate ao desmatamento. Em 2025, a perda de florestas tropicais recuou 36% em comparação ao ano anterior, segundo o Global Forest Watch, impulsionada sobretudo pela redução do desmatamento no Brasil. Segundo a metodologia, a redução na perda de florestas primárias no país foi de 42%, incluindo Amazônia e Mata Atlântica. “Pela primeira vez, temos essas curvas convergindo juntas, com reduções no desmatamento de florestas tropicais do mundo, do Brasil e da Mata Atlântica especificamente”, diz Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica. Apesar da melhora, o mundo ainda perdeu 4,3 milhões de hectares de floresta tropical primária e corre contra o tempo para cumprir a meta global de zerar a destruição de florestas até 2030. O caso da Mata Atlântica é emblemático: o bioma mais devastado desde a colonização do Brasil pode se tornar o primeiro a alcançar o desmatamento zero e a restauração florestal em grande escala. A floresta atlântica registou em 2025 o menor desmatamento dos últimos 40 anos, um recuo de 28%; o corte de florestas maduras caiu 40%, atingindo o menor nível da série histórica, abaixo de 10 mil hectares anuais, segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica. “Isso mostra como a aplicação de políticas públicas e dos compromissos que o Brasil assumiu, de buscar o desmatamento zero e criar novas unidades de conservação, colocam o país no rumo certo”, diz Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica. A restauração do bioma também ganha escala, com a recuperação de cerca de 4,9 milhões de hectares de vegetação entre 1993 e 2022.