Por muito tempo, fabricar bem significava fabricar, vender e esquecer. Esse modelo já não dá conta. À medida que matérias-primas encarecem, regulações apertam e consumidores mudam, o conceito de economia circular começa a se disseminar nos negócios, partindo do princípio de que resíduos podem voltar a ser recursos. Em vez do modelo tradicional de extrair, consumir e descartar, ela busca manter materiais e produtos em uso pelo maior tempo possível, preservando seu valor. Na prática, isso significa transformar cápsulas de café usadas em alumínio reciclado e adubo, converter restos de alimentos em biogás e fertilizantes ou dar nova vida a pneus usados como matéria-prima para pisos, quadras esportivas e asfalto. O objetivo é reduzir o desperdício, diminuir a extração de recursos naturais e criar novos ciclos de produção e consumo.PUBLICIDADEEmpresas dos mais diversos setores — telecomunicações, farmacêutico, cosméticos, varejo, automobilístico — estão olhando com lupa para seus processos produtivos, produtos e cadeias para entender onde e como a circularidade pode ser aplicada, em um claro movimento de assimilação e amadurecimento da tendência. Até pouco tempo atrás, incorporar processos de reciclagem ao sistema produtivo era visto pelas empresas como um sinônimo de economia circular, mas o momento é outro.Embora a reciclagem seja uma parte — importante, mas limitada —, a economia circular pressupõe um mergulho muito mais profundo nas raízes da produção e um redesenho de todo o sistema econômico — cerca de 80% dos impactos ambientais são definidos no design do produto. Dessa forma, o conceito de circularidade se estende para a compra de insumos, design, rastreabilidade, desenvolvimento de fornecedores, contratos, indicadores e colaboração entre setores.Empresas de setores distintos têm testado modelos circulares em pontos específicos da cadeia, ainda que de forma fragmentada Foto: Felipe Rau/EstadãoO Brasil acompanha a tendência, com avanços regulatórios e na aplicação de modelos de negócios que tangenciam a circularidade. Exemplos são a Estratégia Nacional de Economia Circular, instituída em 2024, que estabelece diretrizes e objetivos para modelos produtivos mais circulares. Já o Plano Nacional de Economia Circular, que veio no ano seguinte, traduz essas diretrizes em ações e instrumentos, definindo como a estratégia será colocada em prática ao longo dos próximos anos. Em paralelo, segue em tramitação no Congresso a proposta de criação de uma Política Nacional de Economia Circular; e as linhas de financiamento voltadas à promoção da circularidade, como as da Finep e do Fundo Socioambiental da Caixa. Na prática, o avanço regulatório busca promover a eficiência no uso de recursos, reduzir a geração de resíduos, estimular inovação, aumentar a competitividade da indústria e incentivar novos modelos de negócios circulares.Leia tambémRelatórios de sustentabilidade: o espírito do tempo e a gestão da transição É preciso implementar plano que coloca bioeconomia no centro do desenvolvimento brasileiroMinerais essenciais e transição resilienteNa esfera da aplicação, mapeamentos recentes do setor produtivo têm indicado que o tema já ganhou espaço no nível estratégico. Pesquisa realizada pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), em 2024, com 20 empresas associadas, mostra que 85,7% afirmaram que a economia circular já está presente na alta liderança, e 61,9% já desenvolvem modelos de negócio circulares, com ou sem programas formalizados. No campo da indústria, os sinais também são positivos. Estudo sobre boas práticas lançado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Fiesp, em 2025, aponta que 85% das indústrias no país adotam pelo menos uma prática de economia circular e mapeou 275 projetos em diferentes setores e portes.PublicidadeNo varejo, um exemplo vem das Lojas Renner, que identifica seus produtos feitos com atributos de sustentabilidade, como o uso de matérias-primas menos impactantes e a adoção de processos como o menor consumo de água, com o Selo Re. Em 2021, inaugurou a primeira loja circular do varejo brasileiro, construída com reaproveitamento de 97% dos resíduos da obra e projetada para consumir 56% menos água do que uma unidade convencional. A estratégia também engloba programas como o Ecoestilo, a logística reversa presente em mais de 330 lojas, o brechó Repassa e o aplicativo SOS Costura. No desenvolvimento de produtos, a companhia pretende que 100% de suas peças sejam mais sustentáveis até 2030, índice que já se aproxima de 80%. Atualmente, mais de 90% do algodão e da viscose utilizados são certificados, enquanto iniciativas como o uso de fios reciclados, o ReJeans (que reduz em até 40% os impactos ambientais da produção de jeans) e o algodão agroecológico reforçam essa trajetória. O conjunto dessas ações levou a empresa a ocupar a liderança global do varejo de moda no Dow Jones Sustainability Index.Outro exemplo tangível vem do programa Volks Greenline, da Volkswagen Caminhões e Ônibus, que aposta na remanufatura de componentes automotivos para prolongar a vida útil de peças e reduzir custos. Em parceria com concessionárias e fornecedores, o modelo incentiva clientes a devolver peças danificadas, que são coletadas, reparadas e submetidas a testes de qualidade.Hoje, o programa inclui 85 componentes, entre eles motores, que retornam ao mercado com preços até 30% menores que os de peças novas.Já a farmacêutica Novo Nordisk criou o Reciclaneta, programa de logística reversa com foco em um fluxo específico e de difícil destinação, com o objetivo de reciclar, de forma segura, o plástico das canetas injetáveis. A iniciativa conta com pontos de entrega voluntária e parceiros especializados responsáveis pela separação, higienização, desmontagem e reciclagem dos materiais. A empresa investe em toda a cadeia do processo, da coleta ao reaproveitamento dos resíduos.Os exemplos acima indicam um movimento em curso: empresas de setores distintos testando modelos circulares em pontos específicos da cadeia, ainda que de forma fragmentada. O desafio agora é escalar essas experiências e integrá-las em estratégias de negócio mais amplas, que integrem design de produto, compras, logística reversa, parcerias e métricas.PublicidadeA boa notícia é que as empresas não estão sozinhas nessa transição. Uma das ferramentas que começa a ganhar espaço é o Global Circularity Protocol for Business (GCP), criado para estabelecer uma linguagem comum que ajude as empresas a medir, gerenciar, definir metas e divulgar seus avanços em economia circular. Liderada pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), a iniciativa busca fazer pela circularidade algo semelhante ao que o GHG Protocol fez para as emissões de carbono: criar padrões capazes de acelerar a adoção dessas práticas em larga escala.CONTiNUA APÓS PUBLICIDADENo Brasil, o Cebds conduz um projeto-piloto para adaptar o protocolo à realidade local e ampliar sua adoção pelas empresas. Essa adaptação é importante porque o país tem características próprias. A natureza é um ativo econômico central, presente em cadeias ligadas à agricultura, às florestas, à biomassa e à biodiversidade. Ao mesmo tempo, grande parte dos materiais reciclados no país passa pelo trabalho de catadores e cooperativas, que têm papel fundamental tanto na circularidade quanto na inclusão social. Incorporar essas particularidades ao protocolo ajuda a garantir que ele reflita melhor a realidade brasileira e valorize não apenas os ganhos ambientais, mas também os impactos sociais gerados pela economia circular.A economia circular começa a se consolidar como uma nova forma de compreender a relação entre a economia do futuro, a sociedade, o clima e a natureza. A lógica da circularidade propõe-se a inspirar nos próprios ciclos naturais, incorporando também inclusão produtiva, redistribuição de valor e trabalho digno. Em um cenário de crise climática, escassez de recursos e desigualdades, o desafio talvez seja justamente construir modelos econômicos capazes de produzir riqueza sem romper o equilíbrio que sustenta a vida.
Opinião | Do descarte ao insumo: como as empresas estão redesenhando ciclos produtivos
Em um cenário de crise climática, escassez de recursos e desigualdades, o desafio talvez seja construir modelos econômicos capazes de produzir riqueza sem romper o equilíbrio que sustenta a vida














