As análises sobre a catástrofe climática são realistas: processos que apenas adiam o problema, sem mudanças reais de paradigma, não tirarão a humanidade da rota do aquecimento global. Se por anos a agenda corporativa esteve limitada à compensação de emissões e a metas de longo prazo, hoje o cenário exige transformações profundas na base da operação. Conforme ambientalistas, as cadeias de suprimentos devem ser revistas e o carbono tem de ser incorporado às decisões operacionais e financeiras do dia a dia. Na prática, isso exige substituir combustíveis fósseis, alterar matérias-primas, eletrificar operações, desenvolver produtos de menor pegada ambiental e até transformar as emissões em uma linha de custo no orçamento das companhias. “O carbono deixou de ser uma métrica bonita de relatório ESG para virar uma linha de custo na planilha de cada gestor”, resume Henrique Paiva, vice-presidente de relações institucionais e ESG da Siemens Energy para a América Latina. A empresa implementou um sistema interno de precificação de carbono, no qual cada tonelada emitida gera uma cobrança de US$ 52 diretamente sobre as áreas de negócio. Segundo Paiva, o mecanismo mudou a lógica interna da empresa ao associar emissões a impacto financeiro direto. Desde a criação do fundo, R$ 3,2 milhões foram arrecadados e reinvestidos integralmente em projetos de descarbonização, eficiência energética e capacitação de funcionários. Na ISA Energia Brasil, as metas ambientais passaram a provocar mudanças estruturais em equipamentos e procedimentos da transmissão elétrica. Na subestação de Registro (SP), por exemplo, a companhia instalou o primeiro sistema de armazenamento de energia em larga escala aplicado à transmissão no país, mudando o papel tradicional da transmissora ao dar flexibilidade às fontes renováveis intermitentes. Outra mudança interna ocorreu na gestão do gás SF6, utilizado em equipamentos de alta tensão: a companhia reformulou procedimentos de manutenção para permitir intervenções com os sistemas energizados, reduzindo vazamentos e cortando em 27% as emissões do gás nos últimos quatro anos. “Mais do que reduzir emissões, estamos mudando tecnologias, processos e critérios operacionais para adaptar o sistema elétrico a uma matriz cada vez mais renovável”, afirma Simone Albuquerque, diretora de talento organizacional e assuntos corporativos da empresa. No cenário rural, além de mitigar os riscos da dependência externa de fertilizantes - agravados com a guerra na Ucrânia -, o setor foca na descarbonização dos nitrogenados, grandes emissores de carbono. No caso da Yara Fertilizantes, investimentos em tecnologia reduziram em mais de 50% suas emissões de Escopo 1 (diretas da produção) nos últimos 20 anos. Uma das tecnologias do grupo elimina o óxido nitroso da fabricação e viabiliza a amônia verde, trocando o gás natural fóssil por biometano. No Brasil, em parceria com a Raízen, a companhia já utiliza o insumo gerado a partir da vinhaça da cana-de-açúcar para reduzir a pegada de carbono dos produtos comercializados. Para estender esse impacto ao longo da cadeia, a Yara fornece o insumo para cooperativas de café, produtores de cacau e gigantes de alimentos como a PepsiCo. No cultivo de café, por exemplo, o projeto gerou uma redução média de 40% nas emissões da lavoura. “Não estamos falando de compensação subjetiva, mas de ações reais que reduzem emissões na fábrica e se refletem no campo”, afirma Francielle Bertotto, gerente de cadeia de alimentos e sustentabilidade da Yara Brasil.
Metas ambientais obrigam empresas a buscar inovação
Soluções adotadas incluem a substituição de combustíveis fósseis, alteração de matérias-primas e eletrificação de operações












