O papel da tecnologia na mitigação de impactos climáticos e ambientais é paradoxal. Embora essencial, é limitado por questões como governança, regulamentos, economia, investimentos e até comportamento individual. Além disso, a própria evolução tecnológica acrescenta desafios extras, dada sua demanda por recursos naturais. O cardápio é extenso. O último relatório do Fórum Econômico Mundial sobre as dez tecnologias emergentes para a saúde do planeta, apresentado em 2025, indica que, embora o avanço tecnológico sobrecarregue recursos naturais, não existe caminho para a sustentabilidade livre de tecnologias, existentes ou emergentes – desde que adotadas em escala, o que, por sua vez, depende de um ambiente político favorável, investimentos financeiros robustos e ação coordenada entre setores. As tecnologias destacadas focam em processos materiais e químicos (concreto e amônia verdes e captura e uso de metano para descarbonização de setores-chave), sistemas de energia (carregamento bidirecional de próxima geração e energia geotérmica modular), biotecnologia (fermentação de precisão para proteínas alternativas e engenharia de microbiomas para saúde do solo) e convergência tecnológica (valorização automatizada de resíduos alimentares, observação da Terra e dessalinização regenerativa). Tecnologia Saude Ambiental — Foto: arte/valor “São soluções de longo prazo, que precisam de investimento e política pública”, diz Vanessa Guimarães, professora do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPEAD - UFRJ). “Sem políticas públicas e incentivos econômicos, as tecnologias são inúteis”, acrescenta Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável. Ele cita como exemplo os Estados Unidos, onde incentivos à energia solar e eólica promovidos pelo ex-presidente Joe Biden e cortados pelo presidente Donald Trump levaram ao cancelamento de US$ 22 bilhões em projetos no primeiro semestre do ano passado. “A tecnologia é o menor dos nossos problemas”, avalia Gilberto De Januzzi, professor da Unicamp e cochair do Painel Científico Global para Transição Energética (SPGET). Fatores como infraestruturas legadas, cenário regulatório estabelecido e até dificuldade de usuários e consumidores aceitarem novas tecnologias dificultam a penetração de novas alternativas. Mas já foram equacionados no passado em iniciativas como a adoção de etanol veicular. “O principal desafio é que a tecnologia evolui rapidamente, mas a infraestrutura física evolui em décadas”, agrega Raphaella Gomes, CEO da New Gaia, consultoria focada em transição energética e descarbonização. Gabriel Novaes, gerente de projetos ESG/Sustentabilidade na Fundação Vanzolini, destaca tendências tecnológicas como a aproximação da geração de energia solar e eólica ao local de consumo, com painéis solares e miniturbinas eólicas em edifícios (como usadas em Punta del Este, no Uruguai), e expansão dos carros elétricos – no Brasil, a frota eletrificada acumulada (incluindo veículos híbridos e elétricos puros) aproxima-se dos 200 mil veículos, ainda representando uma parcela restrita do mercado nacional. Grandes setores poluentes, como construção civil, cimento ou siderurgia ganham opções sustentáveis, como paredes com dry wall e tubulação flexível, uso de resíduos na produção e reciclagem, respectivamente. A Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e Transformação Ecológica (BIP), que busca mobilizar capitais públicos e privados para financiar projetos que contribuam para a transição climática, já contempla projetos de US$ 2,5 bilhões da Vale e de US$ 2,9 bilhoes da Stara para pólos industriais para descarbonização da siderurgia. “A tecnologia não substitui governança ambiental, climática e política e sua velocidade de implantação é bem menor do que a de geração de impactos”, avalia Jaques Paes, professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Além disso, o tema carrega contradições em si. A eletrificação do transporte ainda enfrenta descarte de baterias e o ciclo de vida de veículos inferior aos de combustão. A fabricação de uma pá eólica, por sua vez, depende de combustíveis fósseis. A redução de enxofre de 3,5% para 0,5% em combustíveis marítimos é um exemplo de desafio sistêmico. Em 2020, a exigência da Organização Marítima Internacional (IMO) visava à redução de chuva ácida e à melhoria da saúde costeira, mas a limpeza atmosférica permitiu a chegada de mais radiação solar à água e acelerou o aquecimento oceânico. Outro exemplo é a expansão da inteligência artificial (IA), capaz de suportar a evolução da sustentabilidade em vários setores, mas com pegada própria ainda não equacionada. “Somos muito bons em apontar o que é necessário fazer, mas ainda pecamos em indicar como chegar lá”, diz Jacques.
Incentivo e escala são vitais para tirar tecnologia verde do papel
Especialistas alertam que, sem políticas públicas e crédito adequado de longo prazo, novas soluções ambientais perdem eficácia diante do avanço da crise climática











