Em painel na Rio Nature & Climate Week, especialistas dizem que Brasil tem tecnologia para reduzir emissões, mas enfrenta desafios para transformar informação em ação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Helen Souza, Urias Bueno Neto, Marcelo Lins, Paula Garcia Holley e Tasso Azevedo em painel no Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 11:16 Uso de Satélites Reduz Crimes Ambientais, mas Propostas Ameaçam Avanços Durante a Rio Nature & Climate Week, especialistas destacaram a importância do monitoramento por satélite e dados ambientais para reduzir o desmatamento no Brasil. Desde 2019, a utilização dessas tecnologias diminuiu a impunidade em crimes ambientais de 95% para 35%. Apesar dos avanços, propostas na Câmara tentam restringir o uso desses instrumentos, gerando preocupações sobre a eficácia da fiscalização ambiental. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando apenas 5% dos alertas de desmatamento resultavam em alguma ação do poder público, em 2019, quem derrubava floresta ilegalmente no Brasil tinha 95% de chance de não sofrer nenhuma consequência. Seis anos depois, o cenário mudou de forma notável: hoje, as chances de impunidade para quem comete o mesmo crime caíram para 35%. Para especialistas, o principal responsável por essa transformação foi justamente o uso sistemático de monitoramento por satélite — a mesma ferramenta que o Congresso tentou, há duas semanas, limitar como instrumento de fiscalização ambiental. — No ano passado, tivemos a menor taxa de desmatamento desde 2019. Foi também a primeira vez que houve queda do desmatamento em todos os biomas. Isso é sintoma de que alguma coisa está funcionando — disse o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas, em painel do Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week (RNCW). — A principal mudança que permitiu isso foi o uso, pelos estados e pela União, das informações produzidas por satélite. Por isso, entendo que a reação contra essas ferramentas é, em certa medida, consequência do sucesso da política. Segundo a última edição do Relatório Anual do Desmatamento, lançado pela MapBiomas em maio, cerca de 80% de todo o desmatamento no Brasil em 2025 aconteceu em propriedades privadas cadastradas no Cadastro Ambiental Rural. Embora pareça muito, o número representa, segundo Azevedo, apenas 0,6% das propriedades cadastradas no CAR. Isso significa que 99,4% das propriedades rurais brasileiras não tiveram registro de desmatamento no último ano. — Ou seja, não se trata de um problema que afeta a grande maioria dos produtores. Na prática, estamos diante de uma decisão legislativa que afeta uma parcela muito pequena das propriedades e que, mesmo assim, só teria impacto sobre quem tivesse praticando alguma atividade ilegal. Não me parece a melhor forma de conduzir nossa política ambiental. A avaliação de Azevedo ocorre em meio ao avanço, na Câmara dos Deputados, de uma série de propostas que flexibilizam regras de proteção ambiental. Projetos votados no que foi batizado de “semana do agro” incluem a proibição de que órgãos de fiscalização apliquem multas a partir de monitoramento por satélite e mudanças nas regras de proteção para áreas florestais não consolidadas. A iniciativa que mais levantou preocupações, no entanto, foi a que restringe o uso de embargos remotos: o monitoramento por satélite embasa hoje dois terços de todas as autuações do Ibama e aumenta em 14 vezes a eficiência das fiscalizações. — Ter informação de qualidade e transparente é uma espécie de ponte entre o fato, a responsabilidade e a ação. Se você interrompe essa ponte, ou dificulta que ela produza consequências práticas, compromete a capacidade de transformar informação em ação — disse o especialista, criticando também o adiamento da obrigatoriedade de divulgação de informações climáticas e de sustentabilidade por empresas, prevista inicialmente para entrar em vigor em 2027. — Ao retirar essa exigência, cria-se uma opacidade justamente naquilo que precisamos conhecer sobre o que está sendo feito em setores importantes. O engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas, em painel do Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação Cenário global As preocupações com transparência e monitoramento não se limitam ao desmatamento nem ao Brasil. No debate sobre o metano, especialistas apontaram que a dificuldade de medir com precisão as emissões e transformá-las em políticas públicas efetivas continua sendo um desafio global. Paula Garcia Holley, gerente sênior de políticas para a América Latina da Clean Air Task Force (CATF), afirmou que o avanço de regulações voltadas à redução das emissões de metano tem esbarrado em obstáculos que vão desde mudanças de governo até a falta de recursos e capacidade institucional para implementar as medidas aprovadas. — Existe também outra dimensão da desigualdade: eu posso ter acesso aos dados, mas não necessariamente ter capacidade de agir com base neles. Precisamos ampliar a capacidade de transformar informação em ação. De pouco adianta saber quanto poderia ser reduzido em emissões se não ajudarmos os tomadores de decisão a utilizar essa informação de maneira prática. Existe, portanto, desigualdade no acesso aos dados, na disponibilidade da informação e, sobretudo, na capacidade de implementar ações a partir dela. Paula Garcia Holley, gerente sênior de políticas para a América Latina da Clean Air Task Force (CATF), fala durante Fórum Freio de Emergência Climática, na Rio Nature & Climate Week — Foto: Divulgação Medir corretamente as emissões também é um desafio. Segundo Urias Bueno Neto, coordenador de meio ambiente no Instituto Internacional Arayara, relatórios recentes da Agência Internacional de Energia indicam que a subnotificação de emissões fugitivas ocorre em “praticamente todos os continentes”. Para ele, isso acontece porque ainda não há obrigatoriedade ampla do uso de mecanismos capazes de verificar as emissões do metano, um dos gases de efeito estufa mais associados ao aquecimento global no curto prazo. — Só conseguiremos atingir objetivos concretos se soubermos exatamente qual é o problema e onde precisamos chegar. Para isso, precisamos de dados de alta qualidade. Estamos desenvolvendo internamente um esforço para entender se essas emissões estão sendo subnotificadas no Brasil, especialmente no setor de petróleo e gás. ‘Decisão e ação’ No caso do Brasil, Helen Sousa, analista de projetos no Instituto de Energia e Ambiente (IEMA), alertou para lacunas que ainda persistem no monitoramento de emissões, sobretudo no Norte, onde áreas próximas a refinarias e instalações petrolíferas continuam apresentando carência de informações que poderiam complementar o entendimento sobre o problema. Além disso, outra dimensão negligenciada, afirmou, diz respeito aos impactos do metano sobre a saúde pública e desigualdade. Isso porque, além de contribuir para o aquecimento global, o gás está associado à formação de ozônio, poluente que afeta a qualidade do ar. — Uma parcela importante das emissões está relacionada ao uso residencial de lenha em equipamentos precários. Estamos falando de populações que não têm acesso a tecnologias mais modernas e menos emissoras. Isso gera impacto sobre a saúde. Esses equipamentos normalmente não possuem sistemas adequados de filtragem e muitas vezes funcionam dentro das casas, afetando diretamente as famílias que respiram aquele ar diariamente. Apesar dos desafios, boa parte das soluções necessárias para reduzir as emissões já é conhecida. No setor de petróleo e gás, por exemplo, Halley citou como medidas prioritárias a implementação de programas de detecção e reparo de vazamentos, a redução da queima de gás associado, a substituição de equipamentos pneumáticos e a instalação de unidades de recuperação de vapores, intervenções capazes de reduzir milhões de toneladas de metano por ano. Para Azevedo, o principal obstáculo, portanto, não está na falta de tecnologia. — Podemos continuar produzindo, inclusive na agropecuária, mas ajustando a forma como produzimos. Podemos ter energia mais limpa, mais saudável, e ao mesmo tempo oferecer uma contribuição concreta para reduzir rapidamente a pressão climática e facilitar uma transição econômica mais ampla. Os dados já mostram que temos condições de fazer isso — disse. — Não se trata de um problema tecnológico. É uma questão de decisão e ação.