Em painel na Rio Nature and Climate Week (RNCW), climatologista faz alerta para limites críticos, mas aponta caminhos para a transição climática 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Climatologista brasileiro Carlos Nobre na abertura da primeira edição do Rio Nature & Climate Week (RNCW), realizada entre os dias 2 e 6 de junho no Rio de Janeiro — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 11:21 Brasil pode zerar emissões líquidas até 2040, diz especialista na Rio Nature & Climate Week O Brasil pode zerar emissões líquidas até 2040, evitando pontos de não retorno em biomas como Amazônia e Cerrado, segundo Carlos Nobre na Rio Nature & Climate Week. Ele destaca a emergência climática e propõe soluções como desmatamento zero, energias renováveis e sociobioeconomia, integrando ciência, inovação e saberes tradicionais para um desenvolvimento sustentável. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil pode alcançar emissões líquidas zero até 2040 e se tornar uma referência mundial no enfrentamento da emergência climática, avaliou o climatologista brasileiro Carlos Nobre na abertura da primeira edição do Rio Nature & Climate Week (RNCW), realizada entre os dias 2 e 6 de junho no Rio de Janeiro. Um dos mais respeitados cientistas climáticos do mundo, Nobre alertou para a aproximação dos pontos de não retorno em importantes biomas brasileiros, mas defendeu que o país reúne condições para combinar redução de emissões, conservação ambiental e desenvolvimento econômico. — Nós, cientistas do clima, nem usamos mais a expressão ‘mudança climática’. Para nós, trata-se de uma emergência climática — disse. — A grande pergunta é: podemos evitar os pontos de não retorno nos biomas brasileiros? Eu acredito que sim. Nobre afirmou que quatro dos seis biomas do país — Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga — já apresentam sinais de aproximação dos chamados pontos de não retorno, limites a partir dos quais mudanças ambientais podem se tornar irreversíveis. O caminho nessa direção, disse, tem sido cada vez mais acelerado: os anos de 2023, 2024 e 2025 registraram pela primeira vez a temperatura média global próxima de 1,5° Celsius acima dos níveis pré-industriais, patamar que o Acordo de Paris definiu como limite a ser evitado. Oceanos mais quentes, o aumento da umidade atmosférica e a maior disponibilidade de energia no sistema climático têm contribuído para a intensificação de eventos extremos em diferentes regiões do planeta. Estudos recentes apresentados pelo cientista indicam que há chance de o mundo atingir permanentemente o nível de 1,5° de aquecimento já por volta de 2030, e não mais em 2050, como se imaginava há dez anos. A perspectiva preocupa porque amplia o risco de que diversos sistemas naturais ultrapassem seus limites de estabilidade. — É por isso que todos os eventos extremos estão batendo recordes no mundo inteiro: ondas de calor, chuvas extremas, secas, vendavais, ressacas e incêndios florestais. Há muito mais energia disponível no sistema climático — afirmou. — A ciência já sabe disso há muito tempo. Biomas brasileiros em risco Atualmente, explicou, a comunidade científica monitora cerca de 25 pontos de não retorno em escala global, relacionados a processos atmosféricos, oceânicos, hidrológicos e ecológicos. Apenas no Cerrado, 52% de sua cobertura original já foi desmatada, principalmente para a expansão da pecuária e, mais recentemente, da monocultura da soja. O avanço da conversão da vegetação nativa tem provocado aumento das temperaturas, redução da evapotranspiração e crescimento dos incêndios florestais. A expansão de áreas com características da Caatinga sobre o Cerrado já pode ser observada em diferentes regiões. Estudos apresentados por Nobre indicam que, caso o bioma ultrapasse seu ponto de não retorno, até 70% de sua área poderá adquirir características semelhantes às de regiões semiáridas. Enquanto isso, na Caatinga, cerca de 48% do bioma já foi desmatado, e 62% da área apresenta risco de desertificação. Novas pesquisas mencionadas pelo cientista identificaram no norte da Bahia regiões que já apresentam características de semideserto. — A Caatinga está muito próxima de um ponto de não retorno. O mesmo vale para o Pantanal, a maior área alagada contínua do planeta. Um ecossistema de enorme importância ecológica, com uma biodiversidade extraordinária — disse, relacionando a vulnerabilidade do bioma às alterações nos regimes hídricos, à construção de hidrelétricas e hidrovias, ao avanço do desmatamento e às mudanças climáticas. — Secas recordes observadas em 2020, 2021, 2023 e 2024 tiveram impactos severos, assim como o crescimento expressivo das queimadas. No caso da Amazônia, região que Nobre estuda há mais de quatro décadas, ele destacou que cerca de 18% da cobertura florestal original já foi perdida. Além do desmatamento, o cientista chamou a atenção para o aumento das secas extremas, o prolongamento da estação seca e o crescimento da degradação florestal. A combinação entre desmatamento e aquecimento global, afirmou, pode levar a Floresta Amazônica a ultrapassar seu ponto de não retorno mais rapidamente, acelerando também a degradação do Pantanal, Cerrado e da Mata Atlântica. Soluções possíveis Apesar dos riscos, Nobre dedicou boa parte da apresentação às soluções que considera capazes de evitar esse cenário. Entre elas está um estudo que aponta a chance de o país atingir emissões líquidas zero até 2040. A meta exigiria desmatamento zero, eliminação da degradação florestal, restauração de áreas degradadas, expansão das energias renováveis e a adoção de modelos de agricultura e pecuária regenerativas. A proposta prevê uma matriz energética baseada em fontes renováveis, como energia solar, eólica, hidrogênio verde e biocombustíveis, além da ampliação do uso de veículos elétricos. No setor de uso da terra, o pesquisador defendeu a recuperação de áreas degradadas em todos os biomas brasileiros para ampliar a remoção de carbono da atmosfera. Outro eixo central da estratégia é o fortalecimento da sociobioeconomia. Segundo Nobre, apesar de o Brasil concentrar entre 18% e 20% da biodiversidade mundial conhecida, os produtos derivados desse patrimônio ainda têm participação reduzida na economia nacional. O pesquisador defendeu a combinação entre conhecimento científico, inovação tecnológica e saberes tradicionais para ampliar a geração de renda associada à conservação ambiental. Como exemplo, citou sistemas agroflorestais, cadeias produtivas ligadas a produtos da biodiversidade amazônica e iniciativas voltadas à industrialização local desses produtos. — Precisamos integrar o conhecimento científico com os saberes indígenas e tradicionais — afirmou, defendendo que o enfrentamento da emergência climática exige tanto a redução acelerada das emissões quanto investimentos em adaptação, proteção das populações vulneráveis e educação climática. — Precisamos zerar o desmatamento em todos os biomas. O desenvolvimento sustentável do Brasil deve estar baseado no conhecimento científico, na inovação tecnológica e nos saberes dos povos indígenas e das comunidades locais. Esse é o caminho para construir uma sociobioeconomia sustentável, capaz de promover conservação ambiental, desenvolvimento social e prosperidade.
Brasil pode zerar emissões líquidas até 2040 e evitar pontos de não retorno em biomas do país, diz Carlos Nobre
Em painel na Rio Nature and Climate Week (RNCW), climatologista faz alerta para limites críticos, mas aponta caminhos para a transição climática






